O raio que nos aparta

A marcha de 240 km, organizada pelo deputado de Minas Gerais, saindo de Paracatu com destino a Brasília, terminou debaixo de um aguaceiro que expeliu muitos raios, sendo que um atingiu 88 (oitenta e oito) pessoas, muitas feridas, algumas gravemente. A finalidade expressa dessa marcha era a anistia para os criminosos de 8 de janeiro, cujo bando destruiu as sedes dos Poderes da República; anistia para os criminosos que prepararam o golpe, durante quatro anos. Essa preparação contou com o caminhão colocado, em data anterior, para explodir, nas cercanias do Aeroporto de Brasília, também o plano incluía o assassinato de autoridades, e previa também o ataque, em data anterior, havido à sede da Polícia Federal. Também e ainda a derrubada de duas torres de energia, noticiadas singelamente, mas não investigada.

A questão jurídica que emerge desse acontecimento lamentável particularmente os danos causados, para eventualmente se concluir pela responsabilidade, ou não, de sua organização. Assim, objetivamente o evento seria considerado fato fortuito, se fosse inevitável, se previsto o evento. Nessa hipótese, subjetivamente, não haveria culpa alguma. Assim, para a conduta humana o fato seria absolutamente imprevisível.

Acontece que a notícia sobre os acontecimentos revela uma primeira omissão, ou seja, ausência de comunicação aos órgãos oficiais, sobre esse deslocamento vagaroso de uma multidão, por uma estrada de uma só pista, com grande circulação de veículos, nessa ida e vinda da capital para o interior, do interior para a capital. Seguramente, se comunicado houvesse os órgãos oficiais, eles iriam garantir segurança no transcurso, segurança nas paradas, segurança na chegada.

Aí, os órgãos oficiais comunicaram ao público em geral, e provavelmente aos membros responsáveis pela multidão da marcha, que haveria um aguaceiro com raios.

Se comprovada essa comunicação prévia, esse alerta e advertência enviados à organização da marcha, a obrigação seria reproduzi-las incansavelmente, para que qualquer dano fosse prevenido.

O tamanho da multidão concentrada, com apreciável número de 18 mil participantes, exigiria repetição de alerta, repetição de advertência e a organização com alerta repetido deveria ter prevenido a multidão, aconselhando sua dispersão, porque o risco era presente e o perigo previsível.

O que se leu é que no discurso de encerramento, mesmo com feridos e alguns gravemente, a organização nada disse sobre essas vítimas.

Por último, a rede de abastecimento dessa marcha de irresponsabilidades não pode ficar clandestina, assim quem pagou as despesas desse deslocamento por estrada de uma só pista, quem pagou as despesas realizadas na capital federal, quem pagou as despesas hospitalares de quem necessitou desse serviço especial, quem pagou as despesas para o retorno à cidade.

Ainda, a rede de financiadores do golpe de 8 de janeiro está funcionando?

A natureza desse acontecimento merece investigação rigorosa.

Comissão ou Armadilha?

Os Estados Unidos constituem a maior potência militar do mundo? A resposta é afirmativa. Tão grande e tão poderosa que seu Presidente se apresenta como o “imperador” do mundo. Sua demonstração com suas armas foi com o sequestro do Presidente da Venezuela e ainda com a promessa de anexação da Groenlândia, quiçá do Canadá e do México, não se esquecendo de tratar e falar da irrelevância de seus parceiros europeus.

Para Gaza, ele prometeu inicialmente uma sucessão de resorts, como homem de negócios imobiliários. Sua insensibilidade negociante não distingue aquele solo ensanguentado da resistência e do povo palestino, sobre o qual se abateu a ação genocida de Benjamin Netanyahu, um homem devidamente processado, juntamente com a mulher, pelo Tribunal de Justiça de sua terra, como corruptos, e no Tribunal Penal Internacional, por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, que aliás já expediu ordem de prisão contra eles.

O “imperador”, que, de repente, no Parlamento israelense, pediu o perdão para o primeiro-ministro, agora apresentou proposta para a formação da Comissão da Paz em Gaza, com a anuência de Israel. Essa proposta desmoraliza de vez a ONU.

E para compor essa Comissão Internacional não faltariam convidados, pois, se começa com Lula, seguindo para Putin, Macron e outros que, se aceitarem, ficarão sob as ordens do imprevisto “imperador”.

A Comissão da Paz apresenta vícios insanáveis: o primeiro deles é o querer legislar e administrar, como se donos fossem, uma terra, que não lhes pertence. Tal como ele diz em relação à Venezuela e seu petróleo ambicionado.

Os palestinos e o Hamas, grupo político que chefia a resistência, não foram convidados, e sobre o Hamas, mesmo não os ouvindo, ele inclui na pauta a anistia para seus chefes. E com essa promessa de anistia está a condição – ou aceitam, ou o “imperador” liberará a ferocidade canina sionista, para fazer o que sabem fazer – destruí-los.

Até ontem, muitos pensavam que depois de tantas mortes anunciadas, inclusive de lideranças insubstituíveis, o Hamas teria desparecido do mapa, mas pelo que se vê, apesar de tanta matança, ele ainda permanece vivo, constituindo pauta importante dessa Comissão de Paz. Será que a narrativa de imprensa ocidental é verídica?

A anistia oferecida ao Hamas é a medida que, por simetria, se estenderia ao primeiro-ministro israelense, o corrupto que se converteu em descarado genocida. A propósito, o “imperador” já tentou livrá-lo, junto à Corte de Justiça israelense, e não o conseguiu. Esse genocida, como todo ele, se alimenta de sangue, e ainda precisa da guerra permanente para garantir-se no Poder.

Essa tal Comissão de Paz apresenta mais um vício mortal, que é a falta de confiança entre seus convidados.

Quem acredita no “imperador” norte-americano ou no regime sionista de Israel? Flávio Bolsonaro acredita piamente, já que foi lá agora, e outra vez, com nosso dinheiro, para quê? Historicamente, Israel sempre violou as regras internacionais, quando se dizia que elas valiam para todas as nações. Nessa ação perversa de revogação pelo seu descumprimento sempre foi protegida pelos norte-americanos. Antes, todas, todas, todas as decisões em favor do povo palestino, exaradas, durante meio século, pelo Conselho de Segurança e pelo plenário da ONU, foram ignoradas, agora se pode acreditar na palavra escrita e assinada dessa gente?

Depois, o verbo anistiar, e suas benéficas consequências, fica à porta do descrédito total, porque o maior criminoso da Terra pode praticar a brutalidade do genocídio, e o outro que o apoia pretende ganhar o prêmio Nobel da Paz? Rasga as regras do direito internacional, sequestra Presidente de um país, trai seus parceiros, como fez e faz com os perplexos europeus, descumprindo tratados e convenções assinadas até recentemente, denigre a dignidade de pessoas inocentes, extraditando-as simplesmente, estabelece ambiente de insegurança no mundo, no qual a taxação de produtos de importação torna-se instrumento de ação política colonial, e ainda fala em prêmio Nobel?

A Comissão da Paz é, na verdade, uma armadilha. Muitos chefes de Estado que aderissem ficariam sob a batuta direta do “imperador”, que não suporta debate, oposição e o contraditório.

O lixo do pastor

Seguramente, a escolha foi um equívoco inadvertido. O pastor Malafaia, convertido em eficiente agente político da extrema-direita, cuja missão nesse mundo terráqueo é retirar, para seus adeptos, os obstáculos imaginários da trilha íngreme do Céu, escolheu o pastor Sóstenes para ser deputado federal, como sua voz, incumbindo-o de ser o virtuoso que venceria os corruptos de todo gênero. Sóstenes, por exemplo, liderou a vergonhosa derrota da PEC da Segurança Pública apresentada pelo governo para tornar mais eficiente o combate às organizações criminosas. Ficou claro o desconforto em aprovar tal Projeto, pois muitos deputados e senadores são alvo da Polícia Federal, que está apurando o vestígio de crime nos gabinetes desses usufrutuários dos bilhões das emendas parlamentares. Eles queriam garrotear a incômoda e atuante Polícia Federal.

O incompreendido Sóstenes é líder na Câmara do Partido Libertador, o PL. Diz-se que é o partido político de maior bancada na Câmara Federal.

A frequência verbal de Sóstenes é a da moral pública, em razão da qual todos, ou quase todos que não são de seu time, ou próximos a ele, constituem seres desprezíveis, indignos, corruptos, que não podem sentar-se à mesa do Senhor, que exige limpeza de alma e de espírito.

Sóstenes fala com tal convicção, como se ele acreditasse no que fala, pensando em ser o anjo designado para salvar as almas dos crentes, se possível com a transferência do patrimônio deles para a igreja, ou simplesmente conduzindo sua boa-fé. Ele faz com que muitos acreditem que Jesus foi contratado para ser propagandista de slogans moralistas que tanto mal fazem à saúde corporal e moral, e quase sempre material, das pessoas que simplesmente acreditam.

Sóstenes tanto “berrou” aos ventos sobre a corrupção dos outros, sem provas, que esses mesmos ventos levaram a Polícia Federal ao seu santuário, digo, ao seu apartamento, exatamente naquele armário…

Viu-se dentro do armário. Lá não foram encontradas as barrinhas de ouro que seus iguais, os pastores frequentadores do Ministério da Saúde, no tempo do estrategista militar Pazuello, hoje escondido na Câmara Federal. Essas barrinhas, exigidas pelos pastores do comércio clandestino, eram o preço das audiências que eles conseguiriam para os Prefeitos chegarem ao ex-Presidente da República.

Ali, naquele armário, a Polícia Federal se deparou com um “saco de lixo”, provavelmente aquele saco de 100 quilos, que guardavam, “abandonadas ali”, notas agrupadas e divididas em valores cujo total atingia aproximadamente quinhentos mil Reais. Uma fortuna num saco de lixo!

Sóstenes, o virtuoso, explicou a venda de um imóvel que lhe rendera aquele dinheiro, que ficou ali por falta de tempo para levar ao banco e fazer tudo dentro do normal, que é o cumprimento da lei. Afinal, corruptos são os outros!

Não, a versão do virtuoso pastor não bateu com a realidade das coisas. O fato é que ele guardara um dinheiro grande, que ele prometia levar ao banco se não fizesse novo negócio, e tivesse tempo para isso. O virtuoso é sempre muito ocupado com a própria virtude!

O dinheiro, enquanto ele “berrava” que corrupto eram os outros, não lhe sugeriu nenhum argumento óbvio. Só um saco de lixo!

O lixo em geral, para tantos, não representa uma fonte de riquezas, como quando reciclado, como riqueza ele é. O saco de lixo, certamente, para Sóstenes representa a casa de tudo que não presta, de tudo que deve ser rejeitado, de tudo que deve ser jogado naqueles “piscinões da sujeira geral”, para que a natureza, depois de não sei quantos anos ou séculos, desapareça com ele.

O dinheiro de Sóstenes foi colocado no saco de lixo, porque instintivamente, sabendo de sua origem eticamente podre, pois, para ele, o saco deve ser o destino de tudo que deve ser rejeitado, material malcheiroso e desprezível, um tal de sai-pra-lá-não-me-emporcalhe.

Por isso, eu não sei por que Sóstenes é considerado um corrupto, pregador da palavra do Senhor, e que escolheu um saco de lixo, que só não recebeu sua alma degradada porque o dinheiro era muito. Sóstenes corre o risco de queimar no inferno.