Cuba e o gesto do Chico

Roberto Rodrigues, agrônomo, professor emérito da Fundação Getúlio Vargas, autor, líder do cooperativismo, com densa e rica biografia, foi Secretário da Agricultura, Pecuária e de Abastecimento do Estado de São Paulo (1985-1987, governo Montoro) e Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (2003-2006, governo Lula). Liderança exponencial do Agro-brasileiro, usineiro.

Como Secretário de Estado, fez palestra na Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto, quando se completava mais de trinta anos das sanções decretadas pelo governo americano a Cuba, limitando as transações com a ilha, procurando sufocá-la porque representava um exemplo indesejável nas Américas, com o seu comunismo declarado.

Naquela visita de Roberto Rodrigues, ele iniciou sua palestra dizendo não ser político, mas sim que estava na política. E como empresário que era, tinha recentemente se reunido com outros empresários da área para estudar qual seria o melhor país para receber investimentos. O resultado desse estudo concluiu, surpreendentemente, que o melhor país seria Cuba. E a justificava era o nível elevado da educação e da saúde que a ilha conseguira, sendo que, depois, no campo da medicina, por exemplo, chegou a exportar remédios e até médicos.

Se depois de trinta anos de bloqueio se tinha esse avanço, que não diria depois de mais trinta anos, sem bloqueio, qual avanço teríamos?

Mas, depois de mais trinta anos, acontece o bloqueio econômico decretado pelo governo Trump, procurando atacar a infraestrutura, especialmente a elétrica, e proibindo inclusive a entrada de petróleo, que escasseou após o sequestro imperial do presidente da Venezuela.

Não faltaram atos de solidariedade da Rússia e da China, inclusive para o abastecimento do petróleo, e o Brasil também participou dessa cruzada de apoio humanitário.

Mas a música, que é o esperanto da arte, trouxe para o céu do universo a voz parceira de Chico Buarque com o cantor e compositor cubano Silvio Rodriguez, que o convidara para regravar, juntos, a música Sueños con Serpientes.

A visita de Chico, no último dia 7 de abril, depois de trinta e quatro anos, acompanhado de sua mulher, a jurista e escritora Carol Proner, levou consigo o estar sempre contra as injustiças, em atos presenciais ou em canções inesquecíveis, como abraços solidários e, quando possível, como agora, no esplendor da injustiça colonizadora, agora mais claramente, disposta a exibir-se como brutalidade nua e crua, e daí?

Assim como os dezessete brasileiros que integraram a Flotilha para Gaza, em missão humanitária, e que foram aprisionados pelos sionistas e levados para Israel, vozes aparentemente solitárias, mas que, na verdade conduzem a razão, a consciência e o grito libertário de milhões de pessoas. São eles: Ariadne Catarina Cardoso Teles, Magno de Carvalho Costa, Luizianne de Oliveira Lins, Gabrielle da Silva Tolotti, Bruno Sperb Rocha, Mariana Conti Takahashi, Thiago de Ávila e Silva Oliveira, Lucas Farias Gusmão, Mohamad Sami El Kadri, Lisiane Proença Severo, Nicolas Calabrese (argentino, com cidadania italiana, residente no Brasil).

O dedo em riste da justiça sempre disse ao fascismo de todas as vestimentas: vocês não passaram à margem da verdade e da justiça histórica.

O filme do papai

Recentemente, digo, há mais de dois meses, o festejado jornalista e biógrafo Fernando de Morais, que escreveu biografias de vidas riquíssimas, inclusive a de Assis Chateaubriand e agora lança o segundo volume da vida de Lula, perguntado se Jair Bolsonaro seria pessoa que seria bom biografar. Não é bom – responde – para ser biografado, pois ele é “raso”. Eis o mesmo que dizer personalidade tosca, sem brilho ético, o mesmo da mesma mesmice, com ideia fixa, que o torna perigoso…

Isso não significa que não se deva escrever sobre ele, mas para uma biografia colocada no patamar elevado das demais, não pode ter pobreza espiritual, ética e moral.

Mas o filho, Flávio, impoluto candidato à presidente do Brasil, estava articulando um filme para o seu papai.

O espírito vassalo é tão coerente na família que o título do “Filme do papai” seria em inglês “Dark Horse”. O vídeo da conversa transcrita constitui uma suave e verdadeira súplica vassala pelos milhões faltantes, que seriam transferidos, como os valores anteriores, não para uma empresa de produção cinematográfica, mas para uma empresa do advogado de seu irmão Eduardo Nantes Bolsonaro, egresso do Brasil, como deputado que se destinou a lutar contra o seu país, lá no Texas.

Mas a notícia caiu como uma bomba, não por causa do filme, mas pelo dinheiro pedido para Vorcaro, justamente às vésperas de sua prisão.

O valor do tal filme é simplesmente astronômico.

Esse valor e o destino de sua remessa revelam prováveis apropriações indébitas, obtidas por ou através do político em exercício de mandato senatorial, que representa um Estado da Federação, exatamente do Rio de Janeiro, cuja dignidade do mandato não suporta negociatas de nenhum valor, ainda que o pai fosse um santo, sem querer ofender a santidade de nenhum verdadeiro santo, com essa forçada comparação.

A contradição é que esse senador lidera a escumalha opositora da chamada Lei Rouanet – “Essa Lei (que) busca estimular, fomentar e difundir a produção e a preservação cultural, principalmente por meio de incentivos fiscais concedido a pessoas físicas e jurídicas”. Tanto forçaram que, além dessa oposição ferrenha, não tiveram vergonha de contratar cantores sertanejos, por uma fábula de preço, durante o governo do papai do filme biliardário, para apresentação, em regra, em cidades pequenas, cujo orçamento da Prefeitura ficava magérrimo, prejudicando toda política pública necessária ao bem-estar e segurança da população, só para satisfazer o interesse político no canto do cantador, que se convertia em comunicador eleitoral. Era um dado no mapa da preparação do golpe de 8 de janeiro, fracassado.

O valor total da transferência prometida era de 134 milhões de dólares, que o vídeo capturado pela Intercept aponta, e parte desse valor já teria sido entregue num total de 62 milhões.

Para a consciência cidadã do Brasil, indiquemos quanto custaram filmes recentes concluídos, e ainda mais os dois filmes que ganharam prêmios e prêmios no Brasil e no mundo. Vejamos:

  1. A Substância (2024) – 17,5 milhões de dólares;
  2. Priscilla (2023) – 20 milhões de dólares;
  3. Conclave (2024) – 20 milhões de dólares.

Enquanto os filmes premiados tantas e tantas vezes gastaram para obter os sucessos nacional e internacional:

  1. Ainda estou aqui – 45 milhões de Reais.
  2. Agente Secreto – 28 milhões de Reais.

A diferença das despesas, entre o “Filme do papai” e os demais já concluídos e lançados, revela que a trama envolvendo o banqueiro do fraudulento Banco Master e um escritório de advocacia dos Estados Unidos, que dá cobertura ao irmão Eduardo, só pode caracterizar fortíssima suspeita pelos indícios gravíssimos e veementes de que nesse mato têm roedores de proa, que precisariam estar engaiolados.

O final desse registro não pode deixar de ser o comovente compromisso do senador Flávio dirigindo-se sinceramente a Daniel Vorcaro:

“Fala irmãozão, estou e estarei contigo sempre”.

A democracia do filho do papai

A nossa democracia é incipiente, e esse nível se revela na avaliação de parte significativa de nossos parlamentares, os representantes do povo, vereadores, deputados e senadores. Não é por outra que o Congresso Nacional está sendo taxado de “inimigo do povo”.

Uma pergunta essencial não ocupa a mente do cidadão comum, desviada que é pela linha de dispersão adotada pelos bandidos, ou seus adeptos: o que não pode fazer um parlamentar, ou senador no exercício de sua função pública?

Em todas as entrevistas e em todo noticiário sobre o escândalo, absolutamente intolerável, patrocinado pelo Senador Flávio Bolsonaro, não se falou sobre a violação da dignidade da representação popular – do mandato parlamentar –, lembrando o que um parlamentar está proibido de realizar sob pena de cometer o ilícito da violação do decoro parlamentar, e quiçá um crime de corrupção passiva.

A prova da confissão pública do ato criminoso, confirmada, se fosse necessária, até pela visita feita por Flávio a Vorcaro em São Paulo, no curto intervalo entre uma prisão e outra, e com as despesas de viagens pagas pelo Senado Federal. Esses fatos gravosos invadem o artigo da lei penal, definindo-os como atos corruptos. Mesmo assim, os deputados e senadores do PL – Partido Liberal, esse que encabeça a candidatura a presidente do Senador Flávio –, curiosamente, querem saber qual a explicação para o achaque de 134 milhões executado contra o “Irmãozão” Daniel Vorcaro, este íntimo da família que recebeu o dinheiro público das Caixas de Aposentados de municípios e estados do Brasil, governados, coincidentemente, por bolsonaristas ou seus apoiadores.

A Constituição da República, no artigo 55 § 1º, tem a seguinte literalidade: “É incompatível com o decoro parlamentar, além dos casos definidos no regimento interno, abuso das prerrogativas asseguradas aos membros do Congresso Nacional.

Enquanto o Código de Ética e Decoro Parlamentar, definido na Resolução nº 29/1993 do Senado Federal, descreve o mesmo ilícito, no artigo 5º item II com a seguinte literalidade: “Consideram-se atos incompatíveis com o decoro parlamentar: II- percepção de vantagens indevidas”.

O tipo penal denominado corrupção passiva descrito no artigo 317 do Código Penal, literalmente tem sua dicção:

“Solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem:

Pena – reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa. (Redação dada pela Lei nº 10.763, de 12.11.2003)

§ 1º – A pena é aumentada de um terço, se, em consequência da vantagem ou promessa, o funcionário retarda ou deixa de praticar qualquer ato de ofício ou o prática infringindo dever funcional.”

O que se reconhece é que o Senador Flávio Bolsonaro em cada versão mais se enrola, circulando no campo do ilícito com a naturalidade com que sempre teve um comportamento reprovável. A começar pelo caso histórico das rachadinhas, que está incorporado em seu curriculum, tal como a homenagem prestada, como deputado estadual, mesmo na prisão, ao policial-militar Adriano da Nóbrega, morto na Bahia de morte matada, quando da sua perseguição. Adriano era tido como o maior matador do Rio de Janeiro. A intimidade ou vassalagem de Flávio diante o “poder econômico” está demonstrada na afetação de irmandade que se equipara ao tamanho da fraude, registrada na jura eterna – “estou e sempre estarei junto com você”, que se fosse fotografada, a câmera surpreenderia o pedinte da fortuna, rastejando.

Mas, mesmo assim, o Partido Liberal, que ignora a Constituição, o Código de Ética e Decoro Parlamentar, e o Código Penal, convocou a reunião com mais de cem parlamentares, sem assessores, nem imprensa, para que o Senador Flávio explicasse o inexplicável, “para unificar o discurso”.

Ele explicou, com a notícia nova da sua visita na residencial do preso para colocar os pingos nos is.

Faltaram os is. Afinal, no Senado Federal está o Senador Ciro Nogueira, que recebia até mesada do Banco Master, e era o preferido de Flávio para ser o seu vice.

Este artigo já estava pronto, quando o desembargador Alfredo Attié, em entrevista à TV Fórum sobre o escândalo da dupla Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, disse que sua condenação emerge simplesmente da análise jurídica, cuja gravidade independe da ética e da moral, que também foram levadas de roldão. Este artigo segue essa linha, e fica como um gesto de respeito e admiração a ele.