O humanismo de David Grossman

O “judaísmo é secular e humanista. Tem fé nos seres humanos. A única coisa que considera sagrada é a vida humana. Os que acreditam nesse judaísmo defendem o diálogo e jamais, de modo algum, a coerção”. Essa crença se coloca do lado oposto “a mistura da religião com o messianismo, da fé com o fanatismo, e do nacional com o nacionalista, e o fascista.

É essa diretriz que desenha o espírito crítico de David Grossman, escritor formado em filosofia, nascido em Jerusalém (1954), autor de vários livros, traduzidos no Brasil pela Companhia das Letras, tal como esse livro de bolso, O coração Pensante, que encerra artigos e discursos com reflexões humanísticas, que abalam qualquer preconceito.

Não transige em julgar o Hamas pelo seu ataque de 7 de outubro, julgando-o uma avalanche de bárbaros, mas não consegue comparar ou igualar tal violência ao ódio reprimido, ora expresso nas intifadas, de 55 anos, desde a criação de dois Estados, com a marca exuberante da humilhação e mortes de milhares de crianças e mulheres palestinas.

Gaza se converteu na terra ensanguentada do genocídio, que Trump quer aproveitar para construir hotéis grandiosos para as classes abastadas do mundo. Entretanto, Grossman diz que é quase impossível não ter o sentimento de retaliação após o ataque do Hamas, mas o Estado não poderia esticar isso como política de extermínio, já que no meio das desgraças sangrentas das guerras, a liderança deve ter sempre a perspectiva de paz, o que pressupõe início das cicatrizações e das feridas da estupidez. Mas, se o ódio só se depara e confronta com o ódio qual será o milagre para o momento inaugural do processo da paz?

A paz é resultado da pregação prolongada e aceita e praticada, de convívio respeitoso, em que a maioria só abastece a Democracia de seu verdadeiro conteúdo se respeitar as minorias. Dentro de Israel tem a minoria árabe, absolutamente discriminada, agora absolutamente ignorada, com a Lei da Nacionalidade, votada pelo regime sionista de Benjamin Netanyahu, que define Israel como Estado Judeu, não deixando ponto algum de integração das minorias árabes residentes no mesmo território, “que continuam sem solução depois de 75 anos de existência do Estado, mantendo-se num equilíbrio quase impossível”. E a ocupação vagarosa e persistente e bárbara da Cisjordânia, com milhares de palestinos e suas famílias vítimas de violência dos colonos transplantados, ainda protegidos pelo exército israelense. E mal tocamos no assunto da ocupação. Os líderes do movimento de protestos sabiamente resolveram suspender – pelo menos por enquanto – o debate mais crucial que divide a sociedade israelense há 55 anos, desde que Israel ocupou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.

A vitória eleitoral, em si, não bastava para Netanyahu ter maioria na Knesset (Parlamento), e na composição, para obtê-la, reuniu-se o que deu maioria ao fanatismo messiânico e religioso, nacionalista, robustecendo o movimento político sionista, discriminador, violento, expansionista, que pretende a anexação dos países do Oriente, e que para isso até ataca de surpresa, covardemente.

A extrema-direita israelense está exportando estupidez, confronta a Suprema Corte, procurando deslegitimá-la, como no Brasil, para o domínio do seu Parlamento. No entanto, encontrou feroz resistência de parte da sociedade israelense, tal como a Emenda da Blindagem no Brasil já que lá, como aqui, o perigo é o mesmo, ou seja, o perigo da autocracia. Aliás, é corrente lá, tal como aqui, a certeza de que a razão primordial dessa tentativa é arquivar processos de corrupção. Netanyahu já é réu em processos de corrupção, aqui contam noventa parlamentares investigados; até por isso ele precisa de guerra continuada. Recentemente, Trump pediu, lá em Israel, que o genocida fosse perdoado. Não o foi.

David Grossman, celebra a irmandade entre a língua hebraica e o árabe, “são línguas irmãs, sempre estiveram interligadas ao longo da história”, e pergunta com a frase que formulo: E daqui a cinquenta anos, como estará essa realidade cruenta? Afinal, houve um homem que disse ter sido “Um escritor que viveu num país que ocupou uma nação”.

Não é fácil entender como um país de mais de cinquenta anos de sua fundação ainda vive sob o sobressalto de não ter fronteiras fixas e permanentes, e que ainda não assumiu em todas as instâncias que para viver é preciso conviver, em paz, com seus vizinhos.

Banco Master – A sua rede política de proteção

O Brasil está, outra vez e de maneira extraordinariamente negativa, no noticiário, até internacional, agora por conta do maior escândalo da gigantesca fraude e do gigantesco prejuízo causado pela liquidação do Banco Master.

Uma pergunta, ventilada na televisão, e que ainda não teve a devida e repetida resposta: Qual a rede político-partidária que ajudou essa expansão desmesurada desse assalto praticado de bilhões e bilhões de reais? Eles vazaram pelos esgotos da corrupção, indo até não se sabe quais bueiros, seguramente dos beneficiários diretos ou indiretos daqueles que votaram contra o Projeto do Governo, que aperfeiçoava o combate ao crime organizado. Eles queriam abastardar a Polícia Federal, que já tinha tido a ousadia de descobrir a presença investidora da maior organização criminosa do Brasil, o PCC, nos escaninhos do maior centro financeiro do país, que é a Faria Lima, na capital de São Paulo.

A presença da rede política protetora está mais do que comprovada, mediante a coincidência das maiores vítimas desse ataque desavergonhado desse crime nefando. Dentre os milhares de prejudicados, estão as Associações de Servidores Públicos Aposentados. A manchete da Folha de S.Paulo de 7 de fevereiro era “Cem Previdências de Servidores investiram em fundos do Master” e o subtítulo “Três regimes estaduais e 97 municipais compraram contas, em total de 238 bilhões”.

Essa rede de podridão estaria ligada aos mesmos partidos políticos que satanizaram e satanizam o servidor público para retirar a legitimidade do Estado social, desorganizando-o em favor da ideia lunática do Estado mínimo, que nunca existiu, em lugar nenhum da Terra?

Em breve consulta na Google, certamente com a listagem do início da apuração, apurou-se que desde Santa Rita do Oeste (PL-Bolsonaro), passando pelo Município Paulista, lá em Pernambuco (PSDB), Campo Grande (PP), lá no Mato Grosso, Araras, estado de São Paulo (PSD – Apoio Bolsonaro, Tarcísio, Michele), Rio de Janeiro  (PL-Bolsonaro), Amazonas (União Brasil), Amapá (União Brasil – mesmo partido de Davi Alcolumbre), os partidos são da oposição, todos da direita.

Mais decodificadora, a revista Piauí do mês de fevereiro, em matéria longa sob o título A contaminação, apresenta os atos dos líderes dos partidos de direita, afogados nesse mar de lama. Segue o que desvenda: “A pressão política para empurrar o Master pela garganta do BRB não se limitou ao governador. Filiado ao PP, o senador Ciro Nogueira, cujo nome aparece com assiduidade, nos escândalos nacionais, é outro que transita bem entre os bancos. Está nas duas pontas. Do lado do BRB, apadrinhou a indicação de Paulo Henrique Costa para o comando do banco. Do lado do Master, propôs projeto para aumentar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, FGC, de 250 mil para 1 milhão de reais. O endereço de sua proposta era tão evidente que ganhou o apelido de ‘emenda Master’.

“O deputado Arthur Lira, ex-Presidente da Câmara, e igualmente ligado ao PP, também faz parte do pelotão para salvar o Master. Em vez de recorrer ao BRB, os dois, ex-presidente e senador, poderiam ter optado pela Caixa Econômica Federal, outro banco no qual têm influência.

“O presidente da CEF, Carlos Antônio Vieira Fernandes, foi indicado por Lira. O vice-presidente de Negócios de Atacado Tasso Duarte de Tassis, ex-assessor de Vorcaro, foi indicado por Ciro. Tassis era tão simpático ao Master que demitiu três gerentes da Caixa, que se recusaram a avalizar a compra de 500 milhões de papéis de longo prazo do Master. Em retrospecto, está claro que certos estavam os gerentes demitidos.”

A revista Piauí ainda registra que Vorcaro, em depoimento prestado à Polícia Federal, confirmou a negociação com o governador Ibaneis, para que o banco do governo, o BRB, comprasse, por 12 bilhões, papéis do Banco Master, negociação essa que o Banco Central não aprovou, decretando a sua liquidação.

A oposição, que é minoritária, na Câmara Distrital do Distrito Federal, não consegue aprovar uma CPI, apesar da natureza e do volume das fraudes e das lideranças políticas envolvida.

Para avaliar a ética de pessoas envolvidas, a Folha de S.Paulo, do mesmo dia 7 de fevereiro, estampa um exemplo de traição política explícita, noticiando: “Ciro Nogueira encontrou Lula e se ofereceu para afastar o PP do Flávio”. Propôs para garantir sua reeleição ao Senado, lá no Piauí, ameaçada por indicação de pesquisas recentes.

O Melhor da Vida

Não constitui agressão à língua portuguesa um livro que descreve restaurantes, mesas, bebidas, vinhos e acompanhantes, e que seja definido como sendo de leitura saborosa, porque fluente, porque episódica, porque riquíssima nas possibilidades de criação que sugere.

Esse é o livro que está na praça, de autoria do Ministro aposentado do Superior Tribunal Militar, Flavio Flores da Cunha Bierrenbach, sob o título O lado Bom da Vida: Memorial Gastroetílico (Rota Cultural, 2025), que sob o pretexto de cada restaurante visitado no Brasil e no mundo, já fechado ou ainda aberto, e sua respectiva culinária, tornou-se um pequeno espaço para se falar inclusive dos países para os quais o Ministro viajou para conhecer lugares, pessoas, cultura, arte, sua história, geografia, língua, instituições e seus heróis. Essa culinária, e as suas circunstâncias, cujas características ficaram impressas em anotações guardadas e completadas por uma memória incrível e insuperável, não esmaecida com o passar de mais de oitenta anos, sendo que ainda fornece singelas vertentes para uma bela biografia.

Se a mesa é um símbolo de comunhão, a mesa de um restaurante agrega tantas e tais pessoas que, no ambiente invisível do convívio, há o potencial de entrechoques de biografias possíveis, que não fica difícil escolher aquela que deve ser escrita; com certeza a primeira deve ser de quem teve a ideia de guardar, anotar e escrever, e que certamente encontra algumas facilidades fornecidas pelo próprio texto.

Se menções curtas servem de pistas ao trabalho paciente e garimpeiro do biógrafo, o livro de culinária do Ministro Flavio é rico em episódios e nomes citados, inclusive e particularmente no rodapé, seja porque presentes à mesa, seja porque estiveram ligados ao seu símbolo, que é o da comunhão.

Tal a sacralidade da comunhão, em cujo conceito se encontra a tolerância, a amizade, o respeito, a dignidade que emerge com o passar do tempo, como é o caso do ex-governador Paulo Egídio que, adversário político muito antes, se converteu naquela pessoa que se sentou à mesa, naquela mesa de um restaurante. Igualmente, se registra em relação ao príncipe herdeiro do trono brasileiro, nosso colega da turma de 1964, que seguramente não discutiu as virtudes do Império com aquele republicano de vida pública alongada por mandatos parlamentares e pela ocupação da cadeira de magistrado, no Superior Tribunal Militar. Outro exemplo mencionado no rodapé, após indicação de cada nome, é o do chamado “Jardim da Infância”, se comparado com a idade do Ministro, e que o conheceram quando estudantes das Arcadas, aprendendo as trovas acadêmicas com ele, e com ele apreendendo a prática da Esperança de uma Escola tão brilhante e iluminada quanto o seu passado de glórias, quanto de paz e justiça para o nosso país e para o mundo. Herdaram o dever atuante da Associação dos Antigos Alunos.

A prosa em cada mesa de cada restaurante, mas especialmente a do Santo Colomba, serviu de motivação para que a experiência do Flavio, que é riquíssima, fosse animada pela comunicação de atos e pessoas que lhe serviram para melhor compreender o enigma da vida.

Além do Bom, o Melhor da Vida, porém, é ter a consciência de que a construção de seu passado foi e é feita com dignidade, de tal maneira que possa contar, sorrindo, à mesa de qualquer restaurante, como em qualquer esquina do mundo e da vida.

Não se esquece nesse final de registrar que a abertura do livro conta com a palavra de José Carlos Dias, defensor dos direitos humanos, bandeira tão cara na vida do Ministro Flavio, fazendo-o parceiro de mesmas trincheiras, durante toda a vida. Ponto digno de lembrar é que à mesa do Circolo Italiano o trio, José Carlos Dias, Flavio Bierrenbach e Almino Affonso, fizeram o parto da Carta aos Brasileiros, com a redação final do prof. Goffredo da Silva Telles, e lida no Jardim de Pedras da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, que colocou a pá de cal na ditadura.

Finalmente, há uma lembrança histórica, no denso rodapé. O Papa Pio XII, consagrado em 1939, foi Núncio Apostólico no Brasil.