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Reforma política: como nasceu e morreu o distritão

31 domingo maio 2015

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Quando a pressão popular é grande, a primeira atitude de políticos é votar uma lei salvadora, salvífica, salve, salve, sobre tal ou qual assunto. Geralmente, não focam no que realmente precisa ser mudado. Escolhem um ponto que lhes permita fazer onda na próxima eleição.

A “reforma política”, sem discussão séria com a sociedade civil, é mais uma prova dessa prática legislativa. Felizmente, o chamado distritão foi derrotado no plenário da Câmara.

Por esse sistema, no âmbito de um território que pode ser composto de cidades ou de estados, seriam consagrados como eleitos simplesmente os mais votados. Esse modelo é adotado por dois países, a Jordânia e o Afeganistão, este desde 2005.

No Afeganistão, por exemplo, culturalmente desenvolveu-se a exigência de unanimidade, o que “cria incentivos para que os indivíduos, ainda muito jovens, desenvolvam habilidades de negociação e de exercício político de extrema sofisticação”, mas, apesar disso, esse modelo eleitoral formou um clientelismo e gerou corrupção, o que coloca o país em destaque nas pesquisas dos organismos internacionais. Barnett R. Rubin, diretor-associado do Centro Internacional de Cooperação do Programa Afeganistão-Paquistão da Universidade de Nova York, declara: “Os líderes afegãos optaram em 2005 por esse sistema não só pela facilidade de compreensão, mas porque ele marginaliza os partidos políticos e enganosamente parece promover um elo direto entre o eleitor e seus representantes”. Tanto que esse país já fala em reforma política. A Jordânia, por sua vez, é uma monarquia parlamentarista, com um Senado, com quarenta membros escolhidos pelo rei, e uma Casa de Representantes com oitenta membros. No entanto, a experiência ocidental é outra. Em nenhum deles fala-se da sociedade civil organizada ou da democracia participativa, mantra de nossa experiência recente.

Não é preciso falar que o poder econômico iria deitar e rolar nesse modelo do distritão, que elege o mais votado e que, felizmente, foi rejeitado pela Câmara. Tal modelo destroça a representação partidária com a opção pelo “culto à personalidade” inovadoramente sem partidos.

A ideia democrática, atualmente dita democracia participativa, prevê a existência e a representação de partidos, que não esgotam a representatividade da sociedade, que os abastece com entidades paralelas de representação de interesses e direitos. E, mesmo assim, se acaso eles não estão cumprindo seu papel com transparência e eficácia, até pela desmoralização da facilidade com que se funda um novo partido, cabe reformar essa legislação facilitadora para fazer cumprir a exigência de transparência e termos um quociente de representatividade maior com o primado e a inspiração da participação política.

O sistema atual, conhecido como “proporcional de lista aberta”, consagra a eleição para vereadores e deputados há setenta anos, e é óbvio que precisa de aperfeiçoamento. Nele, a ideia de quociente eleitoral é fundamental para garantir o direito dos votos minoritários. Com esse sistema, não há desperdício de voto. Ou se elege o do seu partido, ou o candidato do partido coligado. O quociente eleitoral é obtido dividindo-se o número de votos da legenda pelo número de candidatos que concorreram. Assim, um deputado com menos votos será ajudado por outro, mas dentro do mesmo partido ou coligação. Acontece que as coligações garantem maior tempo de televisão, e frequentemente uma coligação acontece só para garantir maior tempo televisivo. Não é incomum que partidos pequenos se prestem a isso.

Por isso, uma discussão séria e ampla deveria aprofundar a nossa experiência de setenta anos de convivência com o sistema eleitoral vigente. O financiamento de campanha seria só público, ou só privado, ou misto com limite de valor doado? As empresas, que não são votantes, poderiam fazer doação, com ou sem limite de valor? E parlamentares eleitos poderiam ocupar cargos no poder Executivo? Outra questão é a da coligação de partidos nas eleições proporcionais, ou seja, nas eleições de vereador e deputados. Hoje, com a possibilidade de coligações, é possível eleger um nome do outro partido coligado, que não é o seu.

Apesar dos defeitos apontados, o sistema atual seguramente serve mais à diversidade, à pluralidade de ideias e interesses.

A atitude do presidente da Câmara dos Deputados foi comprometedora, e rejeitada também por isso certamente. Ele dizia que a tal reforma poderia passar, já que elege o mais votado. E, se tal proposta dependesse de uma consulta plebiscitária, o povo votaria nela, pois é mais fácil de ser explicada e mais fácil de ser entendida.

Esse pressuposto de facilidade revela objetivamente um desapreço pela maioria do Congresso Nacional e um desapreço pelo povo brasileiro, especialmente quando não se discute amplamente com a sociedade tema de tantas nuances e de tanta importância, e nem se dispõe a isso.

O que o Congresso poderia fazer é exigir que o ministro Gilmar Mendes apresente seu voto na questão da proibição do financiamento empresarial de campanhas políticas, pois, entende-se até aqui ser inconstitucional esse financiamento, porque empresa não é eleitora. O ministro está com o processo proposto pela Ordem os Advogados do Brasil há mais de um ano, e a maioria do plenário do Supremo Tribunal Federal já decidiu contra tal financiamento, mesmo que o voto de cada ministro ainda possa ser mudado.

No entanto, ouvir o povo por meio de um debate amplo, geral e irrestrito exige não só compromisso com o futuro do Brasil e fidelidade aos postulados da democracia participativa, mas fundamentalmente coragem política e moral.

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Os tambores dos filhotes

28 quinta-feira maio 2015

Posted by Feres Sabino in blog

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A Faculdade de Direito do Largo de São Francisco juntou-se à Associação dos Antigos Alunos para comemorar, no último dia 15 deste mês de maio, os cem anos do nascimento do professor Goffredo da Silva Telles, paraninfo da turma de 1964. No Salão Nobre, José Carlos Dias apresentou a gênese da “Carta aos Brasileiros”, que delimitou um antes e um depois na luta histórica pela redemocratização do país. No pátio, Flávio Bierrenbach fez um post scriptum da memorável carta, assumindo, no ritmo da frase e na beleza do texto, a consciência suave, amorável, determinada e gigantesca do grande mestre. Juca de Oliveira leu da tribuna a carta inesquecível.

Tanto no Salão Nobre como no pátio, definido pelo mestre como Jardim de Pedras, aconteceu o inesperado. Uma série de tambores ruidosos e de gritos de quem se dizia professores afrontou o ambiente da homenagem, supondo que ali estaria o governador do estado, ou seu representante, alvo de protestos da classe em greve. Os ditos professores nem sabiam o porquê daquela reunião festiva, estreitados na bitola do rancor contra o governo.

Essa atitude coletiva de alienação pura leva-nos, naturalmente, a pensar no aprendizado dessa geração de estudantes, dominada por tambores e gritos, e não por palavras que constituiriam a arma apropriada daquele local histórico, sempre solidário com as vítimas de qualquer tipo de injustiça.

Terminado todo ruído e cada discurso, alguns manifestantes despertos se dignaram a pedir desculpas. Mas a solenidade findara-se, deixando congelado o espetáculo do absurdo, no qual professores da rede pública não souberam usar da força da palavra para lançar sua mensagem, até mesmo quando lhes foi oferecida a Tribuna Livre das Arcadas, que sempre, sempre, ressoou liberdade e justiça.

Se ontem os tambores eram da ditadura banida, ouviram-se, ali, no Jardim de Pedras, os tambores de seus filhotes, que nem sabem o que são de verdade. Até hoje.

A sorte desses professores é que a figura do mestre Goffredo, com sua palavra sábia, ética, poética, veraz na sua prosa corajosa, construída de síntese em síntese, paira acima de nós, como um sol de verão, querendo derreter a ignorância, indiferente às almas malsãs e às maldades do mundo.

Pode-se até dizer que acontece assim uma espécie de milagre, pois é o morto que ensina os vivos.

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Vida e morte

12 terça-feira maio 2015

Posted by Feres Sabino in blog

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O cidadão, o médico, o filantropo, Luiz Gaetani morreu.

Pude prestar, como tantos, junto ao corpo inerte, a homenagem da oração silenciosa, e abraçar a família enlutada.

A vida de um, quando se finda, leva-nos a pensar na vida dos outros, e, mais, muito mais, na própria.

O que fiz, e não mais de onde venho; como fiz, e não mais o que farei; o que deixo como legado, e não mais para onde vou. Busca-se assim, pela pressão do inevitável, o sentido expresso na construção do passado.

Como nenhum homem é Deus, todos incorrem em erros. Uns são capitais, outros são erros veniais, de menor intensidade. A certeza é de que a vida não segue um rumo reto. Ela vai às vezes, finge que volta e continua. A vida define o tempo como implacável. Se a esperança não morre no corpo, ela incendeia o espírito para suportar as dores que o afligem, como afligiram Gaetani nos seus últimos anos, recolhido à casa que inventou para acolher tantas outras pessoas que, assim como ele, o tempo implacável alquebrou, com um corpo sofrido e uma mente que, às vezes, desconfiava de si e do mundo, na lucidez provisória de sua doença final e fatal. Será que morri, será que estou vivo?

Confiro a folha corrida do Gaetani para relembrar que a morte é a professora da igualdade, no como e no porquê do nascer e do morrer.

Não importa a sua posição política, ideológica e religiosa. Nem a sua opção esportiva ou tudo que possa contribuir para que uns e outros sejam como são, às vezes distanciados. Não, não importa.

A morte faz ressurgir facilmente o sentimento escondido da solidariedade, tornado saudade tantas vezes, só porque desaparece do cenário da controvérsia aquele outro que gostaríamos de ver divergir de nós (quem sabe!), para aplaudir (quem sabe!), para agradecer (quem sabe!).

A morte faz o milagre da ressurreição do dia a dia em que se deu a construção do homem na terra que lhe foi prometida e dada. Ela sugere a leitura de sua legenda, de sua biografia, garimpa erros e acertos, sua crença, sua fé, a dedicação na semeadura de seu tempo, a nota musical de sua partitura inesquecível, ora como letra, ora como orquestra, o tijolo de seu templo, de sua trincheira, o pincel de sua arte, o bisturi de sua profissão.

Confere-se a lealdade consigo mesmo, com a família, com os amigos e com tantos com os quais conviveu. Confere-se a fidelidade a cada princípio que ingressou no seu corpo, para inspirar e dirigir cada gesto seu, cada atuação sua na sociedade, e que fez seu pensamento sonhar e criar, para realizar, na prática, tudo o que, um dia, ocupou a fixidez de seu olhar indormido, nascido numa noite de primavera.

O cidadão, o médico, o filantropo, Luiz Gaetani soube dignificar o dom da vida.

Coloco sobre essa legenda humana o manto do respeito irrevogável, como a morte.

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