• Biografia

Feres Sabino

~ advogado

Feres Sabino

Arquivos Mensais: junho 2015

A decência de um voto

30 terça-feira jun 2015

Posted by Feres Sabino in blog

≈ 1 comentário

Se cada Câmara Municipal tivesse o hábito de ouvir a voz de uma celebração quando morre uma figura ligada à história, à arte, à música, ao trabalho ou à política, seguramente cumpriria um papel pedagógico e didático, válido para um aprofundamento da consciência democrática.

Não se sabe, ao menos até agora, de nenhum pronunciamento acerca do almirante Júlio de Sá Bierrenbach, que faleceu recentemente no Rio de Janeiro, aos 95 anos de idade.

Se a tribuna parlamentar fizesse tal pregação, seguramente um maior número de pessoas conheceria o militar que ele foi. Como tantos outros, ele apoiou o golpe de 1964 na crença de que era a melhor solução para o Brasil. Rasgou-se a Constituição, afastou-se o presidente referendado por um plebiscito, presidente cuja habilidade política hoje se reconhece, mas que, apesar dela, não conseguiu vencer o isolamento ao qual fora condenado até pelas forças progressistas, que deveriam apoiá-lo.

Certamente, não foi um mero isolamento, já que a realidade nacional estava envolta num discurso radical da esquerda, que pretendia infantilmente assustar a burguesia. Tal foi o discurso que, de tão assustada, ela engrossou as hostes golpistas. Esse mesmo radicalismo, nas Forças Armadas, conseguiu um abalo provisório da sua hierarquia, como resultado da reunião de centenas de marinheiros e fuzileiros no dia 25 de março de 1964, na sede do Sindicato dos Metalúrgicos da Guanabara, que comemorava o segundo ano de sua fundação, sob a liderança do famoso cabo Anselmo, que o tempo desmascarou como agente da CIA colocado para desestabilizar o nosso governo. Mais ainda. Esse discurso radical, comprometendo o princípio basilar da hierarquia militar (um dos apelos: “reforma agrária na lei ou na marra”), fez com que a palavra dos militares nacionalistas perdesse eficácia dentro dos quarteis.

O almirante Júlio de Sá Bierrenbach seguramente não escapou a essa regra de instabilidade e insegurança institucional. Apoiou o golpe. Mas, não é esse apoio que lhe garante, por si, o seu ingresso na trincheira dos que lutaram pela restauração democrática no Brasil.

Seu gesto de coragem moral, de desassombro ético, que fez com que patriotas do Brasil o celebrassem, aconteceu quando era ele, em dezembro de 1982, ministro do Superior Tribunal Militar. Lá, o bisturi de sua honradez apontou, em um voto vencido (dez votos a quatro), o produto fabricado pela falsidade e pela mentira, como foi o Inquérito Policial Militar (IPM) instaurado pelo 1º Exército para apurar a responsabilidade de militares pelo atentado ocorrido na noite de 30 de abril no pavilhão do Riocentro, situado na zona oeste do Rio de Janeiro. Seu voto era favorável ao desarquivamento do inquérito, e nele deixou claro: “Estamos diante de um crime dos mais nefandos, terrorismo à beira da impunidade. Por muito menos, este Tribunal já condenou alguns réus a muito mais”. O ministro-almirante prometeu ainda que não ingressaria em nenhuma unidade militar do Exército enquanto o ministro do Exército fosse o general Walter Pires, que atacara duramente o conteúdo de seu voto.

Para quem não sabe, milhares de pessoas, aproximadamente 20 mil, a maioria jovens estudantes, estavam presentes para assistir a um show de dezenas de artistas brasileiros em comemoração ao Dia do Trabalho, quando uma bomba explodiu no colo de um militar, matando-o e inutilizando o seu colega de farda, ambos dentro de um veículo, à paisana, ambos integrantes do DOI-CODI. Uma segunda bomba foi colocada na casa de força do prédio, mas não explodiu, falhou. Essa desgraça individual constituiu uma sorte coletiva, porque milhares de pessoas, que estariam surpreendidas e assustadas, na correria atropelariam umas às outras, pisoteando para ferir ou matar não se sabe quantas. Eram milhares. Felizmente não tiveram com que se surpreenderem nem se assustarem.

O porquê desse desatino ficou historicamente claro. Era preciso um ato trágico e sangrento para que a chamada linha dura do Exército, que temia a redemocratização que se aproximava, não perdesse o seu pasto de horror e ódio. E jogariam a culpa na esquerda. Mais grave das decepções, ainda, está em reportagem recente do jornal O Globo, segundo a qual o presidente Figueiredo e seu gabinete militar receberam, com um mês de antecedência, a informação dos preparativos desse atentado. Aliás, esse mesmo matutino carioca revelou a agenda do sargento envolvido no ataque, que expõe a rede de terror desse atentado.

Júlio de Sá Bierrenbach foi o militar que desventrou a mentira criada por uma minoria atrevida e violenta. Sua coragem moral só não impediu que os responsáveis diretos por essa montanha de falsidade fossem promovidos na hierarquia. Mas, isso lhe garante a gratidão dos brasileiros.

Para a memória dessa altivez morta, nada mais apropriado do que dizer, como homenagem, o que um militar responsável e cumpridor de seu compromisso com a pátria diz ao seu superior hierárquico quando retorna vencedor de um confronto justo: missão cumprida.

Compartilhar:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Email a link to a friend(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no X(abre em nova janela) 18+
  • Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
Curtir Carregando...

A colheita do Divo

18 quinta-feira jun 2015

Posted by Feres Sabino in blog

≈ Deixe um comentário

A Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto, quando escolheu o nome do seu patrono, se tivesse sido influenciada, assim, no delírio, pelo Dia dos Namorados, daria a Divo Marino mais um motivo para ser o eleito.

É difícil lembrar dele pela vida, até andando nas ruas à luz do sol, sem vê-lo com sua mulher, Anice, exatamente ao seu lado, como se ambos proibissem que a surpresa ou o prazer assaltasse um sem o outro, como se a lágrima fosse sempre dos dois, tal como o sorriso e a dor.

Raro é encontrar a prova provada dos amantes, que um dia, lá longe, um fez ao outro em silêncio e sem palavras, a jura de envelhecer juntos, esse sinal da eternidade na Terra que é o amor plural, feito singular.

Divo Marino é o patrono da Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto, e sua mulher, Anice, é a patronesse vitalícia dele.

Ambos, com as filhas e os netos, têm a felicidade de olhar a semeadura, que a comunidade reconhece com o esplendor do acontecimento cultural de nossa Feira e sua repercussão pelo mundo afora.

Ouço sempre o testemunho de sua grande compreensão e amizade.

Como escritor, foi pioneiro em flagrar o instrumento de comunicação de massa e seu efeito vitorioso em eleições com seu livro Populismo Radiofônico, uma explicação de um fenômeno municipal que tem vocação expansiva, pois ele é o mesmo em qualquer lugar do país. Sua arte se ocupou também, e muito, da criança, como um sopro milagroso de coração terno, escrevendo O Desenho Infantil e a Sexualidade, Influência do Meio Ambiente sobre o Desenho Infantil, Metodologia do Desenho da Criança e O Desenho da Criança. Na política, mostrou a raiz de sua preocupação e compromisso quando escreveu Orquídeas para Lincoln Gordon, o ex-embaixador norte-americano no Brasil de 1964, que a documentação histórica, liberada pelo seu país, revela o grau de sua intromissão, calculada e persistente, no golpe de 1964. No ano seguinte, o ilustre embaixador recebeu o título de Cidadão Ribeirão-Pretano.

Como artista plástico, fica o traçado leve de suas caricaturas e seus desenhos, cujas linhas revelam a personalidade múltipla de sua inspiração.

Como jornalista, hoje tem presença semanal em A Cidade, mas A Palavra foi o jornal, antes de 1964, que, ao lado de sua mulher, vibrava com sua consciência cívica, social e política nacionalista encarnada nas reformas de base, que prometiam a construção do país transformado e justo. O militarismo não suportava espíritos independentes e a expressão de sua liberdade, por isso A Palavra foi sufocada.

Homem de posição político-ideológica marcada, firme na defesa de suas convicções, inspirado da palavra escrita, artista de sensibilidade comovente, chega ao entardecer de seu tempo histórico com a calmaria reservada à idade.

O tempo revolto do debate, do dissenso democrático, a vontade de fazer rapidamente o que a geração atual precisa usufruir por direito próprio nesse país eterna promessa cede lugar à força do respeito coletivo.

A história de Divo Marino e de sua mulher, Anice, é a história do anseio que alcançou sua integração no entardecer, que ouve, já, os remotos ecos da travessia.

Compartilhar:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Email a link to a friend(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no X(abre em nova janela) 18+
  • Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
Curtir Carregando...

O futebol corrupto e a “bancada da bola”

03 quarta-feira jun 2015

Posted by Feres Sabino in blog

≈ Deixe um comentário

Nada relativo à corrupção na Federação Internacional de Futebol (Fifa) surpreende. Nada relativo à corrupção de dirigentes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) deve surpreender.

Em 2001, houve uma CPI inconclusa no Congresso Nacional, quando a chamada “bancada da bola” colocou um véu de proteção, frustrando qualquer consequência do imenso trabalho realizado. Um jornalista escocês, Andrew Jennings, premiado com o troféu Integridade em Jornalismo, apareceu no programa Panorama da BBC, em 2006, para denunciar a propina de milhões de dólares, que vinculava dirigentes da Fifa com empresas de marketing esportivo. Ela estava envolvida, já, em suborno de membros do colégio eleitoral convocado para a eleição de seu presidente. Desde então, esse jornalista não parou de investigar o mundo do futebol. No Brasil, o jornalismo esportivo, conscientemente crítico, jamais foi omisso à atuação de dirigentes da CBF.

Em 30 de setembro de 2013, surgiu uma entidade denominada Bom Senso Futebol Clube, que congrega jogadores de futebol com o objetivo de debater, sugerir e propor, junto ao governo federal, deputados e senadores, medidas para modernização de gestão e responsabilidade fiscal dos clubes. A sua atuação tem tido presença forte e consequência positiva.

Agora, a corrupção do futebol revelada internacionalmente, que prende um ex-presidente da CBF que foi deputado estadual e governador de São Paulo, é uma espécie de bomba atômica na cabeça coletiva de todos que colocam o véu de proteção da entidade, no Congresso Nacional, que se agrupa sob a etiqueta de “bancada da bola”.

Só o designativo “bancada da bola”, larga e fartamente veiculado pela imprensa, corporifica sua existência. A última dela, estonteante e imoral, refere-se ao parcelamento dos débitos tributários dos clubes. A tal bancada retirou a necessária contrapartida, ou seja, a garantia de pagamento, cuja fiscalização e execução não seriam dos representantes legais da Fazenda, mas da CBF, que aplicaria, aqui e acolá, sanções administrativas aos clubes inadimplentes. Houve o veto presidencial recente. Logo em seguida, o governo enviou ao Legislativo novo projeto, para garantir gestão moderna, organização funcional, responsabilidade de dirigentes e com contrapartidas para o parcelamento das dívidas dos clubes. A tramitação legislativa atual encontra-se com a “bancada da bola” enfraquecida pelo anunciado desmonte internacional da corrupção exposta.

Porém, essa corrupção, ajudada direta ou indiretamente pelos representantes do povo brasileiro, revela uma característica gravíssima de seu absurdo. Ela é realizada debaixo da bandeira nacional, com os símbolos verde-amarelo e o cântico de nosso hino, que emociona os milhões que compõem a torcida brasileira dentro e fora dos estádios.

Enquanto cantamos, nos emocionamos, torcemos e xingamos a desgraça, eles não largam o queijo podre da corrupção.

Compartilhar:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Email a link to a friend(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no X(abre em nova janela) 18+
  • Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
Curtir Carregando...

Posts recentes

  • A soberania do Brasil e o espírito de vira-lata
  • A traição da fé
  • A PAZ, rediviva ou ressuscitada
  • A escumalha parlamentar na fase pré-natalina
  • Os vampiros do dia e da noite

Arquivos

  • janeiro 2026
  • dezembro 2025
  • novembro 2025
  • outubro 2025
  • setembro 2025
  • agosto 2025
  • julho 2025
  • junho 2025
  • maio 2025
  • abril 2025
  • março 2025
  • fevereiro 2025
  • janeiro 2025
  • dezembro 2024
  • novembro 2024
  • outubro 2024
  • setembro 2024
  • agosto 2024
  • julho 2024
  • junho 2024
  • maio 2024
  • abril 2024
  • março 2024
  • fevereiro 2024
  • janeiro 2024
  • dezembro 2023
  • novembro 2023
  • outubro 2023
  • setembro 2023
  • agosto 2023
  • julho 2023
  • junho 2023
  • maio 2023
  • abril 2023
  • março 2023
  • fevereiro 2023
  • janeiro 2023
  • dezembro 2022
  • novembro 2022
  • outubro 2022
  • setembro 2022
  • agosto 2022
  • julho 2022
  • junho 2022
  • maio 2022
  • abril 2022
  • março 2022
  • fevereiro 2022
  • janeiro 2022
  • dezembro 2021
  • novembro 2021
  • outubro 2021
  • setembro 2021
  • agosto 2021
  • julho 2021
  • junho 2021
  • maio 2021
  • abril 2021
  • março 2021
  • fevereiro 2021
  • janeiro 2021
  • dezembro 2020
  • novembro 2020
  • outubro 2020
  • setembro 2020
  • agosto 2020
  • julho 2020
  • junho 2020
  • maio 2020
  • abril 2020
  • março 2020
  • fevereiro 2020
  • janeiro 2020
  • dezembro 2019
  • novembro 2019
  • setembro 2019
  • agosto 2019
  • julho 2019
  • junho 2019
  • maio 2019
  • abril 2019
  • novembro 2018
  • outubro 2018
  • agosto 2018
  • julho 2018
  • junho 2018
  • maio 2018
  • abril 2018
  • março 2018
  • fevereiro 2018
  • janeiro 2018
  • dezembro 2017
  • novembro 2017
  • outubro 2017
  • setembro 2017
  • agosto 2017
  • julho 2017
  • junho 2017
  • maio 2017
  • abril 2017
  • março 2017
  • fevereiro 2017
  • janeiro 2017
  • dezembro 2016
  • novembro 2016
  • outubro 2016
  • setembro 2016
  • agosto 2016
  • julho 2016
  • junho 2016
  • maio 2016
  • abril 2016
  • março 2016
  • fevereiro 2016
  • janeiro 2016
  • dezembro 2015
  • novembro 2015
  • outubro 2015
  • setembro 2015
  • agosto 2015
  • julho 2015
  • junho 2015
  • maio 2015
  • abril 2015
  • março 2015
  • fevereiro 2015
  • dezembro 2014
  • julho 2014
  • junho 2014
  • maio 2014
  • abril 2014
  • março 2014
  • dezembro 2013
  • novembro 2013
  • setembro 2013
  • agosto 2013
  • julho 2013
  • junho 2013
  • maio 2013
  • março 2013
  • fevereiro 2013
  • janeiro 2013
  • agosto 2012
  • junho 2012

Categorias

  • blog

Meta

  • Criar conta
  • Fazer login
  • Feed de posts
  • Feed de comentários
  • WordPress.com

Blog no WordPress.com.

  • Assinar Assinado
    • Feres Sabino
    • Junte-se a 58 outros assinantes
    • Já tem uma conta do WordPress.com? Faça login agora.
    • Feres Sabino
    • Assinar Assinado
    • Registre-se
    • Fazer login
    • Denunciar este conteúdo
    • Visualizar site no Leitor
    • Gerenciar assinaturas
    • Esconder esta barra
%d