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Feres Sabino

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Feres Sabino

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A política e o futebol

13 segunda-feira jul 2015

Posted by Feres Sabino in blog

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Agora, especialmente com a corrupção desventrada na Federação Internacional de Futebol (FIFA), nada como ler Eduardo Galeano no seu Futebol ao Sol e à Sombra, que também se debruça sobre a ligação do futebol com a política. Mais ainda: essa obra do escritor uruguaio ganha atualidade em face da existência no Congresso Nacional da chamada “bancada da bola”, verdadeira trincheira de proteção de dirigentes e da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Esse vínculo entre futebol e política ele registra fartamente em seu livro.

“O futebol e a pátria [escreve ele] estão sempre unidos, e com frequência os políticos e os ditadores especulam com esses vínculos de identidade. A esquadra italiana ganhou os mundiais de 1934 e 1938 em nome da pátria e de Mussolini e seus jogadores começavam e terminavam cada partida dando vivas à Itália e saudando o público com a palma da mão estendida”. E, nessa época da ascensão do fascismo no mundo, sua vertente alemã seguiu a mesma regra, já que, “também para os nazistas, o futebol era uma questão de Estado”.

Essa ligação quase umbilical entre política e futebol está caracterizada pela sua absoluta necessidade de utilizar a camisa, as cores, a bandeira, o hino e a alma esportiva do país. Pode-se chamá-la até como uma espécie diferente de máfia, que seria a máfia patriótica. E, nem por isso, ou até por isso, milhões de pessoas nem sempre são consideradas como um sinal de identidade coletiva.

Na verdade, hoje o futebol perdeu aquele grau de espontaneidade gratuita de outrora para tornar-se um negócio multinacional de bilhões de dólares, que se submete às televisões, que decidem onde, como e quando jogam tal ou qual seleção.

É brasileiro o gênio criador dessa organização multinacional, João Havelange, que reinou por 25 anos depois de desalojar da presidência da FIFA, em 1974, na Suíça, o honrado Stanley Rous. E depois Havelange se tornou vítima do efeito perverso da corrupção, porque descoberta. E, a corrução, quando descoberta, humilha o “revelado” que dela se aproveitou, colocando-o no pelourinho da sanção ou censura pública, que tantas vezes é marcada de sincera hipocrisia, porque o “revelado” fica com o dinheiro que não deveria receber, às vezes até rindo.

Mas um efeito concreto aconteceu: Havelange afastou-se definitivamente da FIFA, mas nem tanto. Ele arrumou um lugar para seu ex-genro, Ricardo Teixeira, o monarca da CBF do Brasil, no auge da turbulência criada por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), em 2001. E, ainda, no seu lugar ficou o seu braço direito, que é o renunciante atual da presidência, Joseph Blatter, burocrata que nunca chutou uma bola, mas sucedeu o monarca como monarca. Havelange deixou a FIFA, uma entidade privada, que tem 208 países filiados, enquanto a Organização das Nações Unidas (ONU), tem 192.

Espírito centralizador e autoritário, Havelange declarou que, no futebol, o seu maior prazer é a disciplina. Talvez por isso identificava-se com o homem que foi ligado à ditatura de Franco, seu amigo, eleito em 1980 para a presidência do Comitê Olímpico Internacional com campanha financiada por duas multinacionais.

A ligação da política e do futebol está ilustrada em muitos atos e fatos, que envergonham a humanidade tal sua perversão. E Galeano a expõe com absoluto realismo, como a daquele time de Kiev, na Ucrânia, em 1942, que os nazistas sacrificaram, fiéis à sua política de superioridade de raça e extermínio.

Durante a ocupação, o conceituado time de Kiev foi desafiado a jogar com uma seleção de Hitler. Antes, porém, os jogadores foram advertidos: se ganharem, morrem. Todos morreram, porque venceram o medo com a vontade de serem dignos. Todos fuzilados, lá no alto do barranco, após a partida.

Entretanto, essa vinculação entre a política e o futebol tem nuances, vertentes e exceções fortes, como do time espanhol do Barcelona, que sempre foi considerado “mais que um time”. E com muita razão, pois a eclosão da Guerra Civil Espanhola, em 1936, levou o time a disputar partidas nos Estados Unidos e México, enquanto uma seleção basca andava pela Europa, ambas recolhendo fundos e fazendo propaganda em defesa e para os republicanos, que terminaram massacrados por Franco. Muitos desses jogadores, após a derrota da República, ficaram na França. A vitória franquista despertou na FIFA seu espírito sabujo e ela considerou exilados os tais jogadores, provocando forte indignação, que a forçou a rever seu ato mesquinho.

Mas essa ditadura pode contar com um time para selar seu cartão de apresentação favorável. A equipe de futebol do Real Madrid, deslumbrante. Era um exemplo da raça, “apesar de parecer a legião estrangeira”.

Só que um time, mesmo que fabuloso, equiparado a um cartão de apresentação de uma ditadura, ou de todas as ditaduras, não contamina o momento sublime desse esporte, que é o gol.

E o gol escolhido para esse final de conversa foi de “Heleno de Freitas, que tinha pinta de cigano, cara de Rodolfo Valentino, e humor de cão raivoso. Nas canchas, resplandecia”.

E esse seu gol aconteceu em 1947, quando jogava pelo Botafogo, naquele jogo com o Flamengo. “O corner foi batido. Heleno saltou, matou a bola no peito, e curvou-se para trás, para ultrapassar a selva de pernas que o separava do gol adversário. Conduziu a bola no peito, até atravessar a floresta e marcar o gol histórico. O adversário não poderia tirar a bola do peito sem fazer falta”. Gol.

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Os dois tempos do direito

08 quarta-feira jul 2015

Posted by Feres Sabino in blog

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A Faculdade de Direito da USP de Ribeirão Preto viveu uma noite de gala quando homenageou Tercio Sampaio Ferraz Jr., professor titular de filosofia do direito da USP de São Paulo, já aposentado, conferindo-lhe o título de professor emérito.

A celebração iniciou-se com abertura de peças clássicas, executadas pela virtuose de alunos da Faculdade de Música, sob a regência do professor Rubens Ricciardi.

Não bastasse a honraria concedida por justiça à inteligência e à produção intelectual do protagonista da filosofia no campo do direito no Brasil, a direção de nossa escola ainda teve a feliz ideia de convidar o professor Celso Lafer para saudar o companheiro, já que se acompanham e dialogam e, às vezes, trabalham juntos, desde o momento em que a turma de 1964 se definiu, conviveu e sonhou, lá na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.

Duas inteligências e duas culturas que se dedicaram à cátedra universitária e a honraram, como também à advocacia, que também dignificam. Um e outro tiveram sua experiência no espaço público da administração federal, o que seguramente serviu para dar à reflexão o conteúdo de realidade, que torna qualquer teoria fácil de ser comunicada e compreendida, já que enraizada na terra fértil que sempre se oferece à mutação, especialmente para o gênio inventivo e criador.

Celso Lafer situou a obra de Tercio em uma vertente ilustrada por tantos autores, que grifaram a representação do homenageado e sua capacidade de pensar originalmente o homem, as coisas e o mundo em permanente transformação.

Tercio, na sua fala, esgotou-se em simplicidade ao tratar com facilidade da diferença entre o direito que aprendemos há cinquenta anos, quando tudo estava hierarquizado e se aprendia o acesso direto à farmácia das regras jurídicas para escolher o remédio à solução dos problemas.

Na verdade, lembremo-nos de que os princípios de direito eram de recorrência esporádica, quase como as encíclicas papais para os católicos. Hoje não. Os princípios são invocados a qualquer hora, diante de qualquer questão, para tornar mais flexíveis as regras, que tinham uma fixidez, transtornada pela velocidade do tempo e do modo.

Se antes se dizia que era assim, agora com certeza se diz que não é bem assim, já que a aplicação de tal regra pode ter outra dimensão à luz de um princípio; e o princípio irradia-se por toda a ordem jurídica, dando nova luminosidade à compreensão dos comandos legais. Estamos diante de uma realidade transformada e em transformação, configurada por uma sociedade de consumo presidida pela globalização neoliberal.

Hoje não se escolhe a coisa por sua essência – diz Tercio –, como um veículo pelo seu motor. Não. Escolhe-se fundamentalmente o modelo por sua aparência, pela cor, por exemplo. Enfim, somos dominados pela paixão do que não é essencial.

Dir-se-á pelo apego quase patológico à aparência.

E esse direito novo, que se contrapõe tão fortemente ao direito que Tercio, Celso e todos nós aprendemos há cinquenta anos, invade os bancos, a alma e a inteligência jovem da novel Faculdade de Direito de nossa cidade, como esperança para construção de uma nova disciplina da convivência justa, humana e social.

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