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Feres Sabino

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Feres Sabino

Arquivos Mensais: abril 2018

Essa história se repete, mas não como farsa

01 domingo abr 2018

Posted by Feres Sabino in blog

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Orson Welles (1915-1985), cineasta, produtor, roteirista e ator, chegou no Rio de Janeiro em fevereiro de 1942 para filmar o Carnaval. Sua missão integrava um plano do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, que pressupunha realizar uma política de simpatia e amizade com os países da América Latina, em razão da conflagração mundial em marcha, que era a da Segunda Guerra Mundial.

Especialmente no caso do Brasil, essa política era necessária, porque a nossa situação geográfica era benéfica a qualquer parceiro da guerra, e o governo de Getúlio Vargas estava na gangorra da dúvida e da conveniência para definir de que lado o país entraria nela. Finalmente, venceu a posição do grupo liderado pela figura histórica do embaixador e ministro Osvaldo Aranha, sucumbindo a do general Góes Monteiro.

Talvez pelo volume de gastos, esse material nunca foi aproveitado totalmente. Talvez porque tinha “muitas cenas mostrando pessoas do tipo negroide dançando com ou muito próximas de pessoas mais clara”, como registra Ricardo Balthazar, no excelente trabalho que veiculou, na Ilustríssima da Folha de S.Paulo de 11 de fevereiro de 2018.

O curioso é que Welles estava fixado em um episódio da vida brasileira que lhe chamara atenção lendo reportagem em uma revista, lá no seu país, episódio esse que anos depois teria poucas diferenças em uma repetição com jangadeiros do mesmo Ceará.

O primeiro episódio foi o dos quatro jangadeiros que navegaram de Fortaleza ao Rio de Janeiro para tentar uma audiência com o então ditador Getúlio Vargas (1937-1945), para pedir leis de proteção aos pescadores do Brasil. Chegaram, mas não conseguiram audiência nenhuma.

A sedução de Orson Welles, no entanto, fez com que sua equipe convencesse os quatro cearenses a retornar ao mar com destino ao Rio de Janeiro, para uma filmagem do episódio. Infelizmente, durante a gravação, morre um dos jangadeiros, o Jacaré. Próximo da praia, a onda gigante virou o pequeno barco, e ele não teve a mesma sorte que os demais. Foi engolido e levado para o nunca mais.

Episódio semelhante aconteceu como capítulo da décima competição de jangadas, que levou o nome da mulher do presidente Costa e Silva (1967-1969), Iolanda Costa e Silva, nome com o qual acreditava-se facilitar a pretendida audiência presidencial. Que nada! Eles, que agora eram em número de cinco, ficaram no mesmo do igual. O então presidente também não os recebeu.

Nesse segundo episódio, o percurso de volta, entre Rio de Janeiro e Santos, teve a presença do repórter investigativo da rádio Tupi, já famoso, Saulo Gomes, que os acompanhou naquela jornada inesperada de sete dias, que deveria ser de três, sob a noite friorenta (ele sem agasalho), e o dia com o sol escaldante e salgado. Entre o mar e o céu, despencou um aguaceiro que danificou o aparelho de transmissão da travessia, como também o barco dançou samba, tango, frevo, naquele torvelinho de água revolta. Quando o avião localizou a jangada que navegava sem força, foi um alívio, e a chegada em Santos foi uma alegria só. O mar, o vento, a chuva, a noite e o sol enfraqueceram todos, não deixando de fora dessa debilitação física o repórter investigativo corajoso, que o livro que leva seu nome narra sob a coordenação sensível e competente de Adriana Silva.

Essa saga de pescadores talvez não acabe nunca, porque a televisão noticiou recentemente a história de pescadores que, há anos, aguardam a carteira de seu registro, desde 2012, sem a qual não podem pescar. Era o Ministério da Pesca e depois a sua conversão em Secretaria. Era, antes, vinculada ao Ministério da Agricultura, passou para o Ministério da Industria e Comércio, e finalmente a Secretaria ficou vinculada à Presidência da República. Outro problema é na escolha de seu titular, pois é preciso saber se a justiça está ou não no encalço do eventual escolhido. É o desenho real da burocracia do vai e vem, da gaveta trocada, da papelada transferida, tudo e todos que fazem do Brasil o caminho da espera, espera, espera, na qual todos ficam esperando, esperando só, no mar aberto da indignação crescente, que vai deixando a impaciência na cor vermelha.

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