A Câmara Federal e o Senado Federal terão novos presidentes. O deputado federal Baleia Rossi e a senadora Simone Tebet, pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro), disputam nessa eleição. Essa sigla foi retomada seguramente para projetar melhor a sua história, como exemplo, no dia a dia do país, por meio da capilaridade associativa da sociedade civil, que jamais assumiu e nem foi acionada para divulgar a teoria e a prática da democracia.

O deputado Luiz Felipe Baleia Tenuto Rossi, mais conhecido como Baleia Rossi (9/7/1972), filho do ex-deputado Wagner Rossi, que foi também secretário de Estado, deputado estadual e deputado federal, logo declarou o mantra da independência do Poder Legislativo.

Os senadores candidatos, Braga e alguns outros, tentaram o apoio do presidente Bolsonaro (vejam-se só!), oferecendo o presumido sacrifício de Baleia Rossi e de qualquer candidato à disputa da Câmara Federal para que um deles ocupasse a cadeira de presidente do Senado Federal.

Firmada a candidatura na Câmara, em seguida no Senado, aparece o nome unânime da experiente senadora Simone Nassar Tebet (Três Lagoas, 22/2/1970), do Mato Grosso do Sul. Ela é filha do ex-senador Ramez Tebet, falecido em 2006, o qual ocupou o cargo que hoje ela disputa.

No entremeio dessa disputa, morre o ex-deputado Alencar Furtado, líder do MDB em 1977, cassado pela ditadura por crime de opinião, em ato do ex-presidente Ernesto Geisel. O motivo aconteceu num programa partidário de rádio em que ele, acompanhado de Franco Montoro, Ulisses Guimarães e Alceu Colares, fez uma declaração-síntese do que representava a ditadura no Brasil. Aquela verdade feriu os donos do poder da época, quando só era permitida a existência de dois partidos, Arena e MDB, para legitimar a desgraça da ditadura.

Esse fato histórico-síntese gerado pelo MDB, tido como uma confederação de oposições, precisa ser relembrado dia e noite, visto que foi nesse partido que estava imantado o espírito rebelde do país. Ele ficou como depositário desse patrimônio material e imaterial da luta pela democracia no Brasil, mesmo depois que tantos lutadores se ligaram a outras siglas partidárias, levando individualmente sua digna história.

Assim, é esse MDB, depositário desse patrimônio da luta coletiva no âmbito da política partidária, que não pode simplesmente ser arquivado para uso ocasional. Esse patrimônio é mais do que uma simples diretriz de prática política. Ele constitui o conteúdo de uma pedagogia “da” e “para” a construção democrática, que é sempre inacabada como conquista histórica.

Esse partido tem a obrigação ética, político-social e moral de contar, permanentemente, em verso e prosa, o que foi essa luta; o que representou para o país o exílio de seus líderes, de seus cérebros; a pressão e morte de estudantes; a destruição simbólica da UNE; a morte da secretaria do Conselho Federal da OAB; as explosões das bancas de jornais; a tentativa de lançamento de bombas no Rio de Janeiro e a perseguição do militar-aviador, herói que se recusou a obedecer tal ordem; a bomba do Riocentro e a impunidade; a representação sindical garroteada; a tortura e seus torturadores; a corrupção; a desapropriação dos predicados da Magistratura e a repressão à liberdade de imprensa. A tortura, como mercadoria de exportação para o Chile, a matança nos países do Cone Sul, com a operação Condor. Uma exibição da barbárie nativa em todos os tons.

E, após a reabertura democrática, com a generosa Lei da Anistia, assiste-se com perplexidade o seu efeito perverso, encarnado no oráculo presidencial de Brasília e sua descompostura diária que, ora por vez, defende essa barbárie. Dela saíram ilesos dos porões os militares torturadores para servirem ao tráfico de drogas no estado do Rio de Janeiro ou do Espírito Santo, quando não à milícia que já recebeu condecoração oficial do oráculo presidencial e filho.

O MDB tem a responsabilidade histórica de responder a cada agravo do oráculo presidencial referindo-se, imediatamente, ao seu patrimônio de lutas. Para isso, conta especialmente com a história que custou o mandato de Alencar Furtado, e que a jornalista Carolina Freitas transcreve em seu artigo no jornal Valor, em homenagem a esse patriota. Ele foi cassado porque disse claramente:

“O programa do MDB defende a inviolabilidade dos direitos da pessoa humana para que não haja lares em pranto. Filhos de órfãos de pais vivos – quem sabe – mortos, talvez. Órfãos do talvez e do quem sabe. Para que não haja esposas que enviúvem com maridos vivos, talvez, ou mortos, quem sabe? Viúvas do quem sabe e do talvez”.