O Brasil é um imenso mercado consumidor, e os laboratórios nos procurarão para vender as vacinas. Esse foi mesmo o raciocínio e o discurso de nosso presidente para justificar a inércia do governo, quando a desgraça do vírus já atingia números alarmantes de morte e de dor. Ele não percebeu que o mercado da vacina obrigatória é mundial, que o mundo todo precisa dela, porque a crise sanitária é mundial, e que haveria, obviamente, falta de vacinas.
Mas o ensaboado ministro da saúde, na CPI, explicou que a vacina não foi comprada porque a Anvisa não a tinha aprovado. Ora, a questão não é essa, senhor ministro. Na verdade, trata-se da qualidade do negociador da compra. Se a pessoa for do quadro do Itamaraty, historicamente democrático, ela saberá negociar. E, como ela estudou, ela sabe que, juridicamente, a reserva da vacina poderia ter sido feita, sob a condição da aprovação da Anvisa, se já não estivesse aprovada por agência estrangeira de igual finalidade. Com isso, o Brasil, seguramente, não ficaria com o olhar de paisagem, sem vacinas, ou teria maior número delas, porque estaria em lugar privilegiado na fila de sua reserva.
Sem dúvidas, cabe um esclarecimento, e assim ele é feito: – quem tiver alma de chipanzé não pode ingressar em nenhuma relação internacional, especialmente de compra e venda, porque quebrará todos os vidros, claro, das vacinas, onde quer que eles estejam. E ainda com a ressalva de que, no ano passado, a protuberância na área internacional era daquele chanceler, cuja cabeça pertence à idade média, e cuja brilhante inteligência está apavorada com fantasmas de movimentos revolucionários da metade do século XIX, tremendo só de pensar na revolução russa de 1918, apesar de a Rússia, ainda poderosa, ter tido seu espaço geográfico-espacial despedaçado. Hoje, ele está recolhido na área apropriada do serpentário do Palácio do Planalto, na qual a fabriqueta do ódio está instalada, como gabinete.
Se cada declaração oficial consagra percepção nanica da realidade gravíssima do país e do mundo, seguramente, acontece no contexto de uma atuação incrivelmente incompetente do governo. Reforçada pelo formidável e inadequado, quando não dissimulado, ataque à China, justamente nosso maior parceiro comercial e fornecedor não de agora, mas de muito antes, e com a Índia, de insumos para muitos remédios.
O Brasil, devagarinho, toma consciência da intensidade e do tamanho do erro cometido na última eleição presidencial, quando a vitória inédita ocorreu por força do silêncio do candidato, que não se dispôs, como ainda não se dispõe, ao debate democrático, que é o que mais necessita o Brasil de ontem, de hoje e de amanhã.
Se o silêncio, ajudado por lamentado e lamentável atentado à sua vida, foi a marca pessoal do candidato presidencial, que durante trinta anos foi eleito pelo voto eletrônico, não nos esqueçamos da massificação da mentira e do ódio das redes sociais, que deixou o rescaldo do chamado “gabinete do ódio”, e que os ajudou na campanha.
Ora, diante dessa realidade que nos trouxe o rebotalho político à cena nacional, quando o ministro da defesa aconselha, com aquele ar de ameaça dissimulada, que se deve respeitar o programa que saiu vitorioso das urnas, nossa perplexidade interroga – Mas qual programa? É uma fala oca daquilo que é o que mais se precisa na vida pública e privada: a verdade. O programa ora em curso é o de vender, por preço de banana, o patrimônio do povo brasileiro. E com o beneplácito de tal autoridade? Estado fraco não terá exército forte, e o Brasil é territorialmente imenso. Exército forte mantido por potência estrangeira confunde-se com exército de ocupação. O Estado do Brasil precisa ser forte e democrático.
Mas a mentalidade atacante contra o Supremo Tribunal Federal, que teria sido o culpado pela inércia do governo, em face de sua decisão sobre prefeitos e governadores no resguardo da autonomia federativa, seguramente, representa a incompetência ou a má-fé de um governo incapaz, já que o Tribunal Constitucional declarou o que está escrito na Constituição, e que o presidente tantas vezes jurou, nas sequentes posses como vereador e deputado, e que tantas e sequentes vezes violou sem guardar, nem mesmo, o pudor da aparência.
Acontece o que deveria ter acontecido, até antes. A Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a Covid-19 emerge porque é da responsabilidade do Governo Federal a coordenação das políticas públicas, especialmente em época de crise sanitária, e elas não foram efetivadas, primeiro pelo negacionismo infantojuvenil da propalada gripezinha, com a consequente ausência de Coordenação Nacional, não havendo levantamento real dos recursos materiais e humanos disponíveis de forma centralizada, o que impossibilita o planejamento coordenado entre União, estados e municípios, com a sabotagem oficial da orientação científica. E, com um gravame, já que a simbologia do cargo transmite imitação, e o presidente se esmera em desqualificar as regras restritivas, recomendadas mundialmente, não promovendo publicidade intensa sobre a necessidade da vacina, da máscara e do isolamento, um figurino usual para o mundo todo. Tal atitude comprometeu aquilo em que o Brasil foi exemplar, na construção de excelência do sistema de vacinação nacional das outras vacinas, via SUS.
O país vive um tempo inimaginável, por ter inclusive um presidente que conversa ameaçando, como fez com o governo de Alagoas, que não se dobrou. Foi ameaçado com investigação da Polícia Federal, agora instrumentalizada como meio de vingança política? O governador é filho do relator da CPI. Fora a inefável e frequente contribuição do palavrão ao discurso político, à falta de vocabulário apropriado.
Os governistas da CPI querem esvaziar a incúria, a negligência, a irresponsabilidade do presidente da República, como curandeiro, receitando cloroquina, e com a ordem dada ao Exército para compra volumosa do produto de ineficácia médico-científica. Cloroquina tem efeitos colaterais, diz a ciência.
Lá na CPI, o senador, médico e professor universitário, deu lição singela. Ele disse que todo papelório trazido para glorificar a cloroquina não pode substituir a ciência, porque o consumo da cloroquina, em determinado estágio, poderia perfeitamente ser substituído por um copo de água, que serve como eventual cura, e sem efeitos colaterais.
O presidente da República, que está apavorado com a CPI do Senado Federal, não pode se esquecer do Tribunal Penal Internacional, pois sua atuação pode até ampliar o conceito jurídico de genocídio. Por violação dos direitos humanos já existe motivo de processo com a garantia do direito de defesa ampla, que é um direito humano.
A “gripezinha” descoberta pelo presidente é um vírus político que o contaminou, e que agora desfila na CPI como prostituta barata.