A história nos dá um exemplo de punição de insubordinação militar, digno de ser lembrado, para que seja ele comparado com o ato de igual natureza, atual, que resultou em nada, e com seu processo escondido sob o manto do sigilo por cem anos.
O ato de ontem e de hoje está no contexto de uma ameaça à institucionalidade do país, mas o ato histórico lembrado foi do Ministro da Guerra, Henrique Batista Duffles Teixeira Lott (1894-1984). Ocorreu assim:
Juscelino (36% dos votos) e Jango compuseram a chapa presidencial vencedora, na eleição de 1955, na qual concorreram com Juarez Távora (30% dos votos) e Ademar de Barros (16% dos votos).
A tensão política que levara Getúlio Vargas ao suicídio, que desarmara, provisoriamente, a arrogância de civis e militares golpistas prosseguiu, sendo que o braço político do golpismo, a União Democrática Nacional (UDN), sabia que não chegaria ao Poder pelo voto e, nas trevas sob a liderança de Carlos Lacerda, conspirava com militares da Escola Superior de Guerra.
A vitória da dupla JJ era contestada, e desta vez o argumento golpista era de que Juscelino não conseguira se eleger com maioria absoluta, ou seja, 50% mais 1. Argumento do pós-derrota.
Era Ministro da Guerra o General Henrique Teixeira Lott, anticomunista, nacionalista e legalista radical. Para ele, “o único desejo do Exército era preservar a legalidade e o regime democrático”.
A campanha contra a vitória subia de temperatura. Café Filho, vice-presidente , assumira o posto, imediatamente após a morte de Getúlio.
No funeral do General Canrobert Pereira da Costa falaram os Ministros militares. Surpreendentemente, o Coronel Jurandir Mamede, sem constar do cerimonial, pronuncia um discurso desafiador da hierarquia e da disciplina militar. Homenageia o general falecido e inadequadamente refere-se à “perpetuação dessa mentira democrática como uma “pseudolegalidade imoral e corrompida”, que consagra a decisão de um Presidente da República com “uma vitória da minoria”.
O Ministro da Guerra e outros generais e oficiais que cultivavam o respeito à hierarquia, com rigor absoluto, queriam a punição do Coronel e a defesa da legalidade.
Carlos Luz como substituo de Café Filho, internado em hospital, convoca Lott para ir ao Palácio e deixa-o esperando por duas horas, num chá de cadeira intolerável. O Presidente interino lhe diz que não haveria punição de Mamede, e Lott entrega o cargo. O substituto já estava na sala ao lado, era o General Fiuza de Castro. A posse fica para o dia seguinte, ele precisa redigir o Boletim de despedida. Sai, vai para casa. Insone, liga para o general Odílio Denys, que na madrugada reunia-se com outros militares que não aceitavam a insubordinação, e muito menos o golpe. Encontram-se em seguida, no Ministério da Guerra, e articulam com os comandantes das regiões e militares.
Os golpistas abrigam-se no cruzador Tamandaré, para voltaram de Santos, antes de lá chegarem. Carlos Lacerda pediu asilo na embaixada de Cuba.
O Coronel Jurandir Mamede foi preso pela insubordinação e indisciplina.
Lott convoca as lideranças políticas dizendo que o problema não pode ter solução unicamente militar, era precisa a solução política. O Congresso vota o afastamento de Carlos Luz, instaura o estado de sitio, só revogado com a posse de Juscelino e Jango. Café Filho renuncia.
O general Lott, quando candidato a Presidente da República, em 1960, concorrendo com Jânio Quadros, recebeu meu voto consciente, porque era nacionalista, legalista e defensor radical da Constituição. Sua nota circular aos comandantes das tropas disse que as Forças Armadas “estavam coesas e unidas, isentas de partidarismo e atentas em seus deveres, impedindo que a nação caminhe para a anarquia e a ditadura”.