A Comissão Parlamentar de Inquérito da covid-19, instalada no Senado Federal do Brasil, se ocupa de capturar a verdade documental, testemunhal e indiciária da condução irresponsável do governo federal no agravamento da crise sanitária do país, cujo volume de mortes há muito está atraindo para si um conceito jurídico assombroso, que é o do genocídio.
Talvez, a incúria do governo central, que recusou por seis (6) vezes a oferta do laboratório Pfizer, tenha desenvolvido a maior frente de trabalho, que ele conseguiu incentivar, qual seja a dos coveiros, somada à próspera indústria dos caixões funerários.
Eis a imagem fúnebre, ajudada pelo Presidente Bolsonaro, da qual não se estranha sua atitude, porque o sentido de morte com ele supera o da vida, e não só pelas mãos armadas do povo, pois até como deputado, já se revelara cultivador e defensor da tortura, reverenciando o governo militar, do qual ele destaca, até como herói, seu torturador-mor. E a tortura é aquele método que apodrece o torturador e humilha o torturado, como vestibular da morte matada.
O Presidente obteve, ainda assim, o apoio de seus adeptos ou apaniguados, que seguramente não leram, ao menos, os livros didáticos de Elio Gaspari: 1. A ditadura envergonhada; 2. A ditadura escancarada; 3. A ditadura derrotada; 4. A ditadura encurralada e 5. A ditadura acabada. Para não dizer que a ignorância da verdade histórica dispõe, para se revogar, de centenas de outros livros, inclusive os volumes do Brasil, nunca mais, de Paulo Evaristo Arns. Mesmo assim, leu-se e se lê o absurdo do discurso atual, endossado por decisão do Poder Judiciário, segundo a qual a ditadura é uma etapa da democracia.
Nesse ambiente de crise político-institucional estimulado diariamente pelo Presidente da República, vive-se a tragédia da crise sanitária e diante dela a incompetência auto-reconhecida pelo próprio governo, porque só culpa os outros, sem saber de seus deveres constitucionais, até concorrentes com Estados e Municípios. Foi preciso o Supremo Tribunal dizê-lo. E tanto o Presidente abusou que os demais poderes, Legislativo e Judiciário, definiram a existência da Comissão Parlamentar de Inquérito, como direito da minoria parlamentar que o Presidente do Senado Federal postergava e o Supremo Tribunal Federal determinou que desse seguimento ao requerimento de sua instalação e o consequente funcionamento.
Ganha relevo primeiramente o testemunho, desastrado e mentiroso do ex-Secretário de Comunicação do Palácio do Planalto, Fábio Wajngarten, que semanas antes dera uma entrevista à revista Veja. Tal entrevista acabou por desacreditar de vez o ex-Secretário, que procurou contradizê-la, no entanto, o áudio da entrevista foi ouvido ali, na hora, como também foram exibidas as publicações oficiais feitas, à época, pela SECOM (Secretaria de Comunicações), que ele dirigia. Apesar disso, esse fato não pode ser considerado o auge do dia, já que isso nem coube ao pedido de prisão, em si, que foi requerida pelo Relator, e secundado por senador do Espírito Santo, professor de direito, delegado de polícia durante vinte e cinco anos que, indignado, justificava com a lei e os documentos a prisão do mentiroso que estava depondo.
Evidentemente que ele poderia sair preso, se o Presidente da Comissão decretasse. Mas o auge do dia foi alcançado pela decisão dada a esse pedido, apesar de que poderia mesmo ser decretada.
A prisão não foi decretada, conferindo-se à altiva decisão a consagração do dia: “Eu não sou carcereiro de ninguém”, dizia o Presidente da Comissão. E olhando para o depoente, prosseguia: sabe que há desdobramento dessa Comissão, que o senhor poderá ser processado, com base em recomendação do relatório final, mas mais grave do que a prisão é a perda da credibilidade que seu depoimento mentiroso lhe angariou. Qual será a consequência de sua atuação lá na escola de seus filhos?
Essa atitude do Presidente, Omar Aziz, equilibrada e prudente, carente no Brasil governamental de hoje, e que foi apoiada pelo próprio Relator, deu a densidade do respeito parlamentar, desestimulou qualquer cisão, fortaleceu sua autoridade, e se contrapôs à onda daqueles fanáticos que querem desacreditar o trabalho da Comissão, para a qual interessa a verdade, somente a verdade. Afinal, a gripezinha presidencial será um sucesso, logo chegando a quinhentos mil mortos.
Agora, estimular o bando para gritar na rua “Abaixo à verdade da Comissão, vivam nossas mentiras?”, não é suficiente para fazer o vinho tornar-se milagrosamente água.