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Feres Sabino

~ advogado

Feres Sabino

Arquivos Mensais: junho 2021

A sabedoria do olhar

21 segunda-feira jun 2021

Posted by Feres Sabino in blog

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Uma vez, um jovem visitou um senhor idoso que ficava sentado na varanda de sua casa, olhando seu jardim, contíguo à rua.

Era um antigo fazendeiro que entregara, há mais de vinte anos, a administração de seu patrimônio rural aos filhos, que faziam de tudo para não o preocupar com o assunto que fosse.

A visita tendia mais ao silêncio do que ao diálogo. Era uma singela homenagem feita a um homem bom, um respeito ao velho senhor.

De repente, ele falou atiçando os filhos:

— Está faltando água lá na fazenda.

— Não, pai. Não está faltando água, não. O senhor está preocupado à toa.

— Está sim. Está faltando água lá na fazenda.

— Por que o senhor está achando isso, que faltaria água na fazenda?

A resposta surpresa veio com a voz fraca e sábia:

— Toda vez que aparece, aqui no jardim, aquele inseto, é porque falta água lá na Fazenda.

Outra lição, mais recente, foi a observação do engenheiro agrônomo, diante da capa de proteção da pequena piscina de sua residência.

A capa de cor azul que a cobria, depois de dias, revela com sua retirada a presença de algas.

A capa foi trocada por uma de cor preta, e não mais surgiram as algas.

A explicação foi simples: as plantas crescem mais com a cor azul incidindo sobre elas.

Esse diálogo da natureza consigo mesma é tão ignorado quanto se torna objeto de violência e destruição por parte de homens ignorantes e insensíveis. Aliás, essa energia sutil intercomunicativa, invisível, ocorre em profusão no complexo ecossistema da natureza.

Essa maravilhosa sutileza dimensiona a brutalidade dos destruidores das plantas, das árvores e dos animais e dos insetos, que habitam as florestas. E a floresta Amazônica aparece como paradigma na estatística da estupidez, em razão do desmatamento desenfreado e recorde e com a mineração invadindo terras indígenas e reservas florestais, ignorando que é a umidade amazônica que forma as partículas de água, que ameniza o clima do sul e do sudeste do Brasil, regando a agricultura de nosso vitorioso agronegócio, com as chuvas transportadas pelos chamados “rios voadores”. Se um homem, que frequentou o mundo rural, desde criança, foi capaz de perceber o invisível diálogo com um tipo de inseto que surge para anunciar a falta de chuva em terra distante, qual é a densidade da sabedoria indígena acumulada em milhares de anos de intimidade com a natureza?

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O General, meu candidato

18 sexta-feira jun 2021

Posted by Feres Sabino in blog

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A história nos dá um exemplo de punição de insubordinação militar, digno de ser lembrado, para que seja ele comparado com o ato de igual natureza, atual, que resultou em nada, e com seu processo escondido sob o manto do sigilo por cem anos.

O ato de ontem e de hoje está no contexto de uma ameaça à institucionalidade do país, mas o ato histórico lembrado foi do Ministro da Guerra, Henrique Batista Duffles Teixeira Lott (1894-1984). Ocorreu assim:

Juscelino (36% dos votos) e Jango compuseram a chapa presidencial vencedora, na eleição de 1955, na qual concorreram com Juarez Távora (30% dos votos) e Ademar de Barros (16% dos votos).

A tensão política que levara Getúlio Vargas ao suicídio, que desarmara, provisoriamente, a arrogância de civis e militares golpistas prosseguiu, sendo que o braço político do golpismo, a União Democrática Nacional (UDN), sabia que não chegaria ao Poder pelo voto e, nas trevas sob a liderança de Carlos Lacerda, conspirava com militares da Escola Superior de Guerra.

A vitória da dupla JJ era contestada, e desta vez o argumento golpista era de que Juscelino não conseguira se eleger com maioria absoluta, ou seja, 50% mais 1. Argumento do pós-derrota.

Era Ministro da Guerra o General Henrique Teixeira Lott, anticomunista, nacionalista e legalista radical. Para ele, “o único desejo do Exército era preservar a legalidade e o regime democrático”.

A campanha contra a vitória subia de temperatura. Café Filho, vice-presidente , assumira o posto, imediatamente após a morte de Getúlio.

No funeral do General Canrobert Pereira da Costa falaram os Ministros militares. Surpreendentemente, o Coronel Jurandir Mamede, sem constar do cerimonial, pronuncia um discurso desafiador da hierarquia e da disciplina militar. Homenageia o general falecido e inadequadamente refere-se à “perpetuação dessa mentira democrática como uma “pseudolegalidade imoral e corrompida”, que consagra a decisão de um Presidente da República com “uma vitória da minoria”.

O Ministro da Guerra e outros generais e oficiais que cultivavam o respeito à hierarquia, com rigor absoluto, queriam a punição do Coronel e a defesa da legalidade.

Carlos Luz como substituo de Café Filho, internado em hospital, convoca Lott para ir ao Palácio e deixa-o esperando por duas horas, num chá de cadeira intolerável. O Presidente interino lhe diz que não haveria punição de Mamede, e Lott entrega o cargo. O substituto já estava na sala ao lado, era o General Fiuza de Castro. A posse fica para o dia seguinte, ele precisa redigir o Boletim de despedida. Sai, vai para casa. Insone, liga para o general Odílio Denys, que na madrugada reunia-se com outros militares que não aceitavam a insubordinação, e muito menos o golpe. Encontram-se em seguida, no Ministério da Guerra, e articulam com os comandantes das regiões e militares.

Os golpistas abrigam-se no cruzador Tamandaré, para voltaram de Santos, antes de lá chegarem. Carlos Lacerda pediu asilo na embaixada de Cuba.

O Coronel Jurandir Mamede foi preso pela insubordinação e indisciplina.

Lott convoca as lideranças políticas dizendo que o problema não pode ter solução unicamente militar, era precisa a solução política. O Congresso vota o afastamento de Carlos Luz, instaura o estado de sitio, só revogado com a posse de Juscelino e Jango. Café Filho renuncia.

O general Lott, quando candidato a Presidente da República, em 1960, concorrendo com Jânio Quadros, recebeu meu voto consciente, porque era nacionalista, legalista e defensor radical da Constituição. Sua nota circular aos comandantes das tropas disse que as Forças Armadas “estavam coesas e unidas, isentas de partidarismo e atentas em seus deveres, impedindo que a nação caminhe para a anarquia e a ditadura”.

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