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O traidor como vítima de si

30 segunda-feira maio 2022

Posted by Feres Sabino in blog

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Um dia, numa viagem de avião para São Paulo foi feita uma pergunta ao senador Amaral Furlan, sobre aquele Prefeito de Campinas, que era do MDB, e foi expulso, por defender o Ato Institucional nº 5, e entrara na Arena, partido do senador. Ele foi fulminante:

– Nós da política amamos a traição e odiamos o traidor.

Essa lição da experiência veio à baila quando assistimos o infortúnio político do ex-governador de São Paulo, Doria. Como candidato a governador foi apadrinhado por Geraldo Alckmin, que era candidato a Presidente da República, naquela eleição de 2018. Naturalmente, o apadrinhado apoiaria o padrinho. Mas Doria não teve nenhum escrúpulo, e lançou a dobradinha da ocasião BolsoDoria, ambos venceram a eleição. Doria sai com a peja de traidor. Não foi só Geraldo Alckmin quem sentiu o golpe, pois as lideranças tradicionais do PSDB, que não o aceitaram, tiveram a sensação de que o Partido estava como um esqueleto sem alma. Recentemente, ele foi governador e com a força de seu cargo conseguiu ganhar as prévias para ser o candidato a presidente da república. Tão logo deixou o cargo para fazer a campanha ambicionada, sua base política se esfacelou, e o seu próprio vice, que assumiu o comando do estado de São Paulo, declarou ser favorável a um nome da chamada terceira via. Não se sabia quem, mas Doria não era. O suplício da rejeição, que tentou superar, internamente, ele não o conseguiu. Foi submetido a uma fritura pública incomum, e é rejeitado pelos partidos que convergem para uma terceira via. Se o atual governador colocou pá de cal no sonho presidencial de Doria, o fato é que nas pesquisas de opinião ele não saía do lugar.

É certo que o desempenho dele, desde o início da pandemia, foi o ponto forte do contraponto que fez contra o nome da assombrada dobradinha, cujo autor a definiu como “gripezinha”, verdadeiro anúncio de sua desastrada administração da crise pandêmica, tal como da sua gestão da política federal.

Mas, se a traição inicial contra seu padrinho Alckmin, atual candidato a vice-presidente da república, foi fruto de um erro no capricho da escolha partidária, o fato é que seu apadrinhado Doria fez dobradinha com o Bolsonaro na eleição de 2018, sendo eleito governador.

Ele fez a tal dobradinha, quando o PSDB tentava manter o mínimo de coerência com o espírito predominante de seus fundadores e de sua história. Entretanto, a intoxicação eleitoral foi de duplicidade corrosiva: contra o seu padrinho e contra o mínimo ético partidário. A cartilha política que se chama lealdade sofreu o estupro e daí saiu o monstro liberado pela deslealdade, para mastigar seu próprio pai.

O tamanho político de Doria não é maior, nem menor do que Bolsonaro. Ambos de seu jeito e maneira estão no mesmo patamar de mediocridade, levando de roldão o tal ministro da economia, que já teve uma leva enorme de colaboradores do ministério fugindo dele e do presidente, pela lerdeza com que não resolviam nada de substancial para o Brasil, mesmo que as soluções propostas fossem contrárias às da oposição política do Brasil.

Nenhum dos dois tem a elevação ética e política para aspirar ou governar o Brasil. Nenhum tem a mínima ideia de como a riqueza brasileira de solo e subsolo pode ser revertida, em benefício da população. Muito menos postura e compostura eles têm para ocupar o máximo cargo de magistrado político do país, que precisa de vocação de estadista. Não de um atacante de baixa categoria.

Por sua vez, Alckmin, que honrou seu posto como vice de Mario Covas, foi um sucessor que se não teve a largueza de visão, que tantos reclamavam, teve, sim, a atuação de dignidade, da compostura, e do equilíbrio, tanto como vice, como governador de São Paulo.

Se errou na escolha, de nenhuma forma ele merecia o tratamento de afoita deslealdade, que lhe destinou o apadrinhado, que ocupava um lugar de discrição máxima, em algum lugar do qual Alckmin o arrancou, fazendo-o seu sucessor.

O estigma de traidor acompanhou o infeliz, até o momento em que em verdadeiro clima de velório desistiu da sua candidatura a presidente. Esse estigma tem força de expansão, democratizando e intoxicando com seu malefício outras siglas partidárias e tantos políticos, que refletem a repulsa de parte da população. Ninguém confia nele.

Quem observou a eficiente discrição de Alckmin como vice, sempre o elogiou pelo espírito eficiente e cooperativo com o titular do governo, jamais praticando ato algum que pudesse colocar em dúvida sua lealdade e a maneira respeitosa como tratava especialmente seus partidários, sem desmerecer os que lhe faziam oposição.

A traição constitui o fantasma aterrador das pretensões de Doria, para qualquer ambição sua, no mundo da política.

E Alckmin, candidato a vice, oferece o seu patrimônio político ao adversário de ontem, para continuar sendo a pessoa equilibrada, declarando que qualquer diferença é aparada, quando se trata de defender a democracia, e que garantiu a ele uma vida política vitoriosa.

E em matéria de ética, Doria e Bolsonaro são irmãos siameses.

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7 a 1

23 segunda-feira maio 2022

Posted by Feres Sabino in blog

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Esse placar é a lembrança de uma derrota acachapante da seleção nacional do Brasil para a Alemanha. E a Copa se realizava aqui, em nosso campo e com a nossa torcida.

Esse mesmo placar é justamente o resultado da autorização dada pelo Tribunal de Contas da União, para privatização da Eletrobras. E o patrimônio público acumulado, durante anos, será oferecido à ganância privada.

Essa empresa estatal, tal como a Petrobras, tem seus lucros e dividendos voltados à finalidade social pelas quais elas foram instituídas, ou seja, devem ser revertidas em políticas que favoreçam e promovam a maioria da população brasileira. Elas não existem para engravidar monstruosamente de lucros a pança de investidores privados, que têm direito aos lucros, sim, mas iguais aos praticados internacionalmente.

Vê-se: toda empresa privada tem função social, que existe com a finalidade de lucro. Toda empresa estatal existe para levar às últimas consequências essa função social.

Mas, sob a continuada pressão do governo, o TCU acaba de autorizar a entrega danosa da Eletrobras à ganância privada. O comandante dessa entrega é o Ministro da Economia, que é pior que o presidente, pois aquele gosta de vender o patrimônio público por migalhas, enquanto o outro sabe atacar tudo menos o que interessa à população brasileira, jogando a culpa nos outros, escondendo o desastre, que está em sua política neoliberal, que não deu certo em nenhum país do mundo.

E o Ministro vende para pagar dívida púbica, prioritariamente, como financista que é, e que já causou péssima impressão aos economistas norte-americanos, que assistiram lá o seu despreparo, em palestra não recente.

Mas se o resultado de 7 a 1 no futebol foi assumido como um sinal de alerta, no plano jurídico emerge a competência jurídica, a integridade moral, a ética cidadã do Ministro Vital do Rêgo, que declarou os erros grosseiros no balanço apresentados, e que atacam o interesse nacional, periclitando com novas e prováveis dívidas do Estado brasileiro.

A Eletronuclear, que deve dois bilhões e setecentos milhões à Eletrobras, seria objeto de uma privatização, através de forma dissimulada, entregando irresponsavelmente a terceiros o centro da política nuclear do país. Não existe país que tenha entregado a terceiros a sua política nuclear. Eis como a força do “mito” apodrece o patrimônio público.

O Ministro Vidal do Rêgo refere-se ao valor da Usina de Itaipu como valor de bagatela.

A contradição nesse arraial da arruaça institucional é que o valor da energia elétrica está subindo tanto, como o da gasolina e dos combustíveis, que a Câmara dos Deputados, até ela, declarou, por conta de seu “burgomestre”, que vai intervir suspendendo atos do Poder Executivo. Essa promessa de intervenção anima qualquer investidor, nacional ou internacional, a investir na Eletrobras, ou no Brasil? Investidor quer negócio jurídico estável e seguro, num país sem arruaça institucional.

Essa miséria moral que assola o país não tem coragem de olhar a histórica atitude do Ministro da Guerra, general Canrobert Pereira da Costa, com seu manifesto público, durante a Constituinte de 1946, que evitou, concomitante com dois discursos do então deputado constituinte Goffredo da Silva Teles, a entrega da Amazônia brasileira a um Instituto internacional, no qual o Brasil não teria nenhuma regalia, nem mesmo uma versão em português do documento oficial da entrega.

O engodo de que a tarifa da energia elétrica será menor não encontra exemplo em país algum que privatizou suas empresas.

Não podemos viver com esse fantasma do 7 a 1, que nos advertiu sempre, e que agora representa a entrega vergonhosa do patrimônio público, representado por empresas que foram defendidas, por civis e militares, porque eram e são estratégicas para o país.

E a Eletrobras teve lucro de R$ 5,7 bilhões, segundo o jornal Valor Econômico de 11 de maio do corrente ano, e com a seguinte manchete “Lucro das estatais rende R$ 46 bi em receita ao governo”.

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As urnas e a arruaça institucional

16 segunda-feira maio 2022

Posted by Feres Sabino in blog

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Nunca faltou general para golpear as instituições democráticas do país. Nada de generalizar. Henrique Batista Duffles Teixeira Lott (1894-1984) é o símbolo da defesa histórica da democracia, e tantos outros que defenderam o monopólio estatal do petróleo e a Petrobras, como empresa estratégica do Brasil. Lott garantiu a posse de Juscelino Kubitschek.

Mas desta vez está acontecendo o inimaginável. Os militares que estão no governo estão corroendo a legitimidade das instituições. Ora contra o Supremo Tribunal Federal com artilharia de ataque, que intoxica a opinião pública, como se erro fosse motivo de destruição por míssil autoritário, e como se eles não errassem, e não tivessem na intimidade da instituição o que humanamente acontece nas outras.

Agora, a vocação guerreira volta-se descaradamente contra as urnas eletrônicas. Após ter indicado o general Herbert Garcia Portella do Centro de Defesa Cibernética do Comando de Defesa Cibernética, como representante das Forças Armadas, na Comissão de Transparência das Eleições, instituída pelo Superior Tribunal Eleitoral, o Ministro da Defesa, que tem se mostrado submisso à vocação autoritária presidencial, quer ser o substituto do general técnico. O interesse é o de politizar a Comissão e criar os embaraços suficientes para intoxicar o povo sobre a inidoneidade das urnas. É a primeira vez que um Ministro se rebaixa para participar de uma Comissão de um outro Poder.

É absolutamente inconcebível que, após tanto tempo, trinta anos, de utilização das urnas eletrônicas em eleições livres, festejadas no mundo, como opção de avanço, comparece esse pequeno time de fardados, querendo deslegitimar as eleições, apresentando essa jogada suspeita.

O golpe agora é deslegitimar as eleições, que permitiria mais fácil ataque à incipiente democracia, que dia a dia periclita no fio de seu equilíbrio, onde a mediocridade governamental se sustenta com mentiras, ousadia, o manto de sigilo sobre informações que a cidadania tem o direito de saber.

É uma quadra vergonhosa da história brasileira.

Os atentos militares ficam silenciosos sobre as milícias do Rio de Janeiro, que criaram e espalharam raízes, e estão aumentando seu arsenal, com as facilidades criadas pelo governo federal para importação das armas, propiciando a formação de verdadeiros “exércitos paralelos”.

Mas o perigo fabricado não é das milícias, nem o retorno das doenças, para cuja erradicação o sistema de vacinação nacional merecera reconhecimento, como sarampo e poliomielite, e tantas outras; não, o perigo não está no envenenamento da população com mais de 500 agrotóxicos liberados, inclusive os rejeitados nos Estados Unidos; o perigo não está no orçamento secreto que dá R$ 30 bilhões para alegrar os deputados, conduzidos como gado pelo Presidente da Câmara dos Deputados, não; o perigo não está nos salários astronômicos recebidos pelos generais do governo; o perigo não está no presidente enganando o povo, agredindo Ministro e o Presidente da Petrobras, para desacreditá-los perante a opinião pública, como se eles fossem pessoalmente os culpados pelo preço das gasolinas e seus derivados, quando a responsabilidade é dele e de seu “bando”, com sua política neoliberal.

O fascismo vem devagar, como o 02 falou na televisão, e no Brasil está mais do que claro que ele avança. E o grupo de generais do poder não suporta a ideia de sua destituição. Vão fazer o diabo para garantir o ex-capitão, no lugar onde está. Afinal, ele os comanda e nunca os respeitou, ele é manifestamente alérgico aos controles e limites legais, só pensando nas garantias da família e dos amigos e, ainda, no grupo que o suporta no governo. Todos ganhando bem e nada faltando no banquete do poder.

Num país em que a arruaça institucional é gerada pelo próprio chefe da nação pode-se esperar o que senão mais arruaça?

Eis o que o Brasil atravessa graças à generosidade da anistia, que tantas vezes defendi como “o desarme do ódio”. Desse jeito, lá adiante, com tudo que haveremos de passar, a anistia, como jeitinho de esquecer, inclusive de barbaridades, poderá ser substituída facilmente por decisão de maior eficácia histórica, na perspectiva da construção democrática.

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