Nunca faltou general para golpear as instituições democráticas do país. Nada de generalizar. Henrique Batista Duffles Teixeira Lott (1894-1984) é o símbolo da defesa histórica da democracia, e tantos outros que defenderam o monopólio estatal do petróleo e a Petrobras, como empresa estratégica do Brasil. Lott garantiu a posse de Juscelino Kubitschek.
Mas desta vez está acontecendo o inimaginável. Os militares que estão no governo estão corroendo a legitimidade das instituições. Ora contra o Supremo Tribunal Federal com artilharia de ataque, que intoxica a opinião pública, como se erro fosse motivo de destruição por míssil autoritário, e como se eles não errassem, e não tivessem na intimidade da instituição o que humanamente acontece nas outras.
Agora, a vocação guerreira volta-se descaradamente contra as urnas eletrônicas. Após ter indicado o general Herbert Garcia Portella do Centro de Defesa Cibernética do Comando de Defesa Cibernética, como representante das Forças Armadas, na Comissão de Transparência das Eleições, instituída pelo Superior Tribunal Eleitoral, o Ministro da Defesa, que tem se mostrado submisso à vocação autoritária presidencial, quer ser o substituto do general técnico. O interesse é o de politizar a Comissão e criar os embaraços suficientes para intoxicar o povo sobre a inidoneidade das urnas. É a primeira vez que um Ministro se rebaixa para participar de uma Comissão de um outro Poder.
É absolutamente inconcebível que, após tanto tempo, trinta anos, de utilização das urnas eletrônicas em eleições livres, festejadas no mundo, como opção de avanço, comparece esse pequeno time de fardados, querendo deslegitimar as eleições, apresentando essa jogada suspeita.
O golpe agora é deslegitimar as eleições, que permitiria mais fácil ataque à incipiente democracia, que dia a dia periclita no fio de seu equilíbrio, onde a mediocridade governamental se sustenta com mentiras, ousadia, o manto de sigilo sobre informações que a cidadania tem o direito de saber.
É uma quadra vergonhosa da história brasileira.
Os atentos militares ficam silenciosos sobre as milícias do Rio de Janeiro, que criaram e espalharam raízes, e estão aumentando seu arsenal, com as facilidades criadas pelo governo federal para importação das armas, propiciando a formação de verdadeiros “exércitos paralelos”.
Mas o perigo fabricado não é das milícias, nem o retorno das doenças, para cuja erradicação o sistema de vacinação nacional merecera reconhecimento, como sarampo e poliomielite, e tantas outras; não, o perigo não está no envenenamento da população com mais de 500 agrotóxicos liberados, inclusive os rejeitados nos Estados Unidos; o perigo não está no orçamento secreto que dá R$ 30 bilhões para alegrar os deputados, conduzidos como gado pelo Presidente da Câmara dos Deputados, não; o perigo não está nos salários astronômicos recebidos pelos generais do governo; o perigo não está no presidente enganando o povo, agredindo Ministro e o Presidente da Petrobras, para desacreditá-los perante a opinião pública, como se eles fossem pessoalmente os culpados pelo preço das gasolinas e seus derivados, quando a responsabilidade é dele e de seu “bando”, com sua política neoliberal.
O fascismo vem devagar, como o 02 falou na televisão, e no Brasil está mais do que claro que ele avança. E o grupo de generais do poder não suporta a ideia de sua destituição. Vão fazer o diabo para garantir o ex-capitão, no lugar onde está. Afinal, ele os comanda e nunca os respeitou, ele é manifestamente alérgico aos controles e limites legais, só pensando nas garantias da família e dos amigos e, ainda, no grupo que o suporta no governo. Todos ganhando bem e nada faltando no banquete do poder.
Num país em que a arruaça institucional é gerada pelo próprio chefe da nação pode-se esperar o que senão mais arruaça?
Eis o que o Brasil atravessa graças à generosidade da anistia, que tantas vezes defendi como “o desarme do ódio”. Desse jeito, lá adiante, com tudo que haveremos de passar, a anistia, como jeitinho de esquecer, inclusive de barbaridades, poderá ser substituída facilmente por decisão de maior eficácia histórica, na perspectiva da construção democrática.