Pode-se dizer que a Academia Ribeirãopretana de Letras, hoje presidida pelo escritor Waldomiro W. Peixoto (1950-), agrega, como núcleo, o Proyecto Cultural SUR, que, fundado por poetas, esparramou-se pelo mundo, vibrando a veia da criação literária, como fator de ligação, entre pessoas e entre nações. Assim, a amarração profunda do humano faz-se pela palavra. No tempo de seu Festival, cada núcleo promove, simultaneamente, um encontro ou um seminário ou um Sarau, integrando-se nessa imensa participação. Celebra-se nela a fonte de seu surgimento e lança ao mundo sua proposta, repetida e renovada, de Paz.
A nossa Academia, no dia 31 de maio promoveu um Sarau sob o título “A PALAVRA NO MUNDO E SEU PODER NA CONSTRUÇÃO DA PAZ UNIVERSAL”, em que os participantes, membros ou convidados, apresentaram textos próprios ou fizeram a leitura de textos ou de poesia ou prosa.
O significado da proposta pode ser compreendido pela citação de G.W. Friedrich Hegel (1770-1831), que ensinou “(…) as ações se revelam também como discursos, porque atuam também sobre as representações. Porém, os discursos são atos entre os homens e atos essencialmente eficazes. Por meio dos discursos são empurrados os homens à ação, e esses discursos constituem então parte essencial da História”.
No texto que apresentei, há referência à proibição oficial do uso da linguagem neutra, surgida para escapar da indução do binômio feminino-masculino que implicitamente sugere superioridade de um em relação ao outro. Por exemplo, a pretendida linguagem neutra não recomenda que se escreva “Os diretores da Escola”, ela recomenda “A Direção da Escola”.
Com isso apresento-lhes o texto que li naquela noite de celebração pela Paz. Ei-lo:
A palavra é ação. Quando o romano Cícero (106-43 d.C.) falava, o povo dizia “como fala bem!”. Quando o grego Demóstenes (384-322 a.C.) falava, o povo dizia “Marchemos!”.
Mas nesse instante em que a nossa Academia celebra o tema “A palavra no mundo e seu poder de construção da Paz”, proposto pelo Proyecto Cultural SUR, cuja representante no país é a nossa Rosa Maria Cosenza, cumpre-me o dever de indicar o muro de aço erguido atualmente contra a inteligência e a inspiração que pressupõem liberdade criadora.
Em recente vídeo, o Secretário de Fomento de Políticas Culturais do antigo Ministério da Cultura, o mesmo que assinou, no ano passado, a Portaria que proíbe o uso da linguagem neutra, nos projetos financiados pela Lei Rouanet, discursou afirmando que a verba de um bilhão e duzentos milhões de Reais, derivada do Fundo dessa Lei estimulante da criação cultural, seria investida no fomento à cultura das armas. Elas não serviriam somente para nos defender do bandido da rua, mas especialmente das políticas que atacariam a liberdade, entenda-se as políticas do Estado Democrático de Direito. Vê-se, assim, que em nome da liberdade de expressão, essa heresia autoritária, inacreditavelmente, foi declarada em palanque filmado.
Não constitui teoria de conspiração alguma, portanto, registrar que a palavra livre defronta-se com a política oficial do Brasil, que atualmente sufoca a cultura nacional, através dos servidores da estupidez e da maldição autoritária.
A percepção dessa realidade é aterradora, pois, se um dia celebrei a palavra como verbo da verdade pessoal e coletiva, também disse, em outra ocasião, que a Música é o esperanto da Arte, pois, como toda manifestação da Literatura, ora como pedido de socorro, ora como expressão de felicidade, ora como resistência ou como a dor do coração humano, ou como esperança rediviva ou como jura do amor eterno enquanto dura, todas essas expressões invocam a solidariedade humana, ou o deserto delas.