Resenha por Sérgio Rizzi

Caiu-me nas mãos o livro “Da Palavra ao Fato”, de Feres Sabino. É obra que mostra o melhor de um escritor e orador. Trata-se de rica composição de artigos e discursos produzidos por ele durante um longo período de trinta anos.

A obra – como resume o autor – traz um olhar atento para um mundo em constante transformação e representa uma semente de paz e tolerância para ser cultivada nos corações.

A organização dos textos está creditada a Adriana Dalla Ono que, com sensibilidade, optou por escalonar os artigos e discursos numa síntese perfeita, distribuída entre os temas: Formação, Advogado, Procurador Geral, Justiça, Homenagens e Palavras.

No topo de seus valores, Feres Sabino coloca o Direito e a Justiça e, em particular, o faz como ensinou Orlando Gomes: com “muita sensibilidade para compreender os fatos da vida real em sua força criadora e sua palpitante atualidade”.

Os ensinamentos de Feres Sabino, nos temas da Formação, constroem um arcabouço de força nos artigos: na Pauta da Democracia e no Discurso sobre o Dia da Justiça.

Ao passarmos para a segunda parte do trabalho ali estão agrupados artigos e discursos sobre o Advogado. Dentre eles sobressai a história da fundação da Associação dos Advogados de Ribeirão Preto com a dedicação e os esforços de Sérgio Roxo da Fonseca e seus companheiros. Ainda nesta segunda parte figuram artigos veiculados nos jornais A Cidade, Verdade, Enfim e O Diário.

No ano de 1985, Feres Sabino assumiu o cargo de Procurador-Geral do Estado reconhecendo publicamente que chefiaria “um grupo de pressão, qualificado como miniconstituinte, na revelação da parcela nacional”, o que se mostrou na Constituição da República de 1988.

Neste trecho do livro cabe destaque ao discurso de Feres Sabino na posse de Zelmo Denari como Chefe da Procuradoria Fiscal. Reconheceu tratar-se de um Procurador dotado de sensibilidade singular, com “personalidade singular”, entrosado ao máximo com o espírito democrático da Procuradoria do Estado de São Paulo.

Uma das melhores visões do espírito de Feres Sabino vem do artigo “Lar Padre Euclides”, oportunidade de seu prenúncio: “a nossa casa é o nosso lugar” nela a “afetividade ganha dimensões múltiplas, na relação com pais, irmãos, vizinhos. Cresce-se na dependência. Descola-se dela para assumir a identificação de si, compreendendo a do outro”.

Na mesma linha desta seta espiritual do escritor tem lugar o artigo “Morador de Rua” com estes dois grandes enigmas: “Qual agasalho cobre um morador de rua? Qual a força da maldade capaz de marretar uma pessoa coberta e encolhida na madrugada até matá-la, segura de que as luzes da cidade não afastam suficientemente a escuridão da noite naquele canto discreto?”

A quarta parte do livro traz o título “Justiça”. De tudo que ali se vê exposto, na diversidade de referências, parece haver uma unidade. Parece que em todos eles há um apelo à racionalidade política. Um apelo a que todos tenham como norte “a coexistência dos contrários” tudo em nome da Justiça. Que corra uma onda de equidade e que nos altares do mundo todo figure a paz.

A quinta parte do livro nos mostra que Feres Sabino não é apenas um excelente escritor, dotado de um poder de síntese raramente encontrado e muito bem se coloca como orador que derruba muitos preconceitos contra a palavra oral, mas sobretudo é um sábio no valor da amizade.

Feres Sabino não é desesperançado quanto à evolução da humanidade pela vivência da amizade, ao reverso, reconhece que a humanidade, com a amizade, encontrará soluções cada vez mais promissoras e finalmente potentes, como todas aquelas que individualizou em seu livro.

Não sei se este livro entrará na lista dos mais vendidos, se terá êxito editorial e também na internet qual será sua acolhida, sei apenas que foi tão bem aceito pelo Círculo das Artes que lhe proporcionou uma belíssima edição e desejo que caia nas mãos do leitor como caiu nas minhas, como um presente de aniversário.

Sérgio Rizzi é sub-procurador do Estado aposentado, doutor em Direito Processual Civil pela PUC-SP e autor do livro “Ação Rescisória” (Editora RT)