Recentemente, saudando o ingresso de Rui Flávio Chufalo Guião, na Academia Ribeirãopretana de Letras, o que muito me honrou, tive o ensejo de me referir à figura humana extraordinária, que ocupou tanto o enlevo intelectual de minha juventude. Pierre Teilhard de Chardin, um jesuíta que atraiu minha curiosidade, porque como católico, ele caminhava em rota paralela à do Vaticano.

Ficara o ensinamento de que a energia dirigente do mundo e das coisas era o Amor, e que para ele, um intérprete seu dissera: “Para Teilhard, a Criação não era um ato consumado”.

Lembrei que lia tudo sobre ele, preparando-me para ler sua obra fundamental “Fenômeno Humano”, prática preliminar que usara para ler “Memórias do Cárcere” de Graciliano Ramos.

Acontece que a leitura da frase “Para Teilhard, a Criação não era um ato consumado”, criou um verdadeiro bloqueio, que não me permitiu ler mais nada sobre o gênio espiritual francês. Tinha a sensação de ter compreendido a mensagem fundamental. Que bloqueio pretensioso!

Logo em seguida ao da citação do discurso, preveniram-me sobre entrevista do Frei Beto, que se referira à Teilhard, imediatamente procurada e conhecida.

Frei Beto declara a impressão forte causada nele, lá na década de sessenta, pela obra de Teilhard, que entusiasticamente não só leu tantos livros dele, como foi o tradutor de alguns.

E adiciona informações preciosas que aumentam a vontade de retornar àquela rota de descoberta do grande cientista e pensador. Uma delas refere-se à perseguição da Igreja à espiritualidade criativa daquele padre.

A sorte – diz – Frei Beto que ele, Teilhard, não entregou a sua obra à Igreja. Fê-lo, sim, na pessoa de uma mulher, amiga dele, belga, que após a sua morte (1881-1955) entregou ao mundo tudo o que fora o patrimônio científico-espiritual do cristão perseguido em vida.

Teilhard, francês, sacerdote cristão e católico, ordenado em 1911, era filósofo, teólogo, cientista, paleontólogo. Na qualidade desse último atributo esteve presente a descoberta, no período de 1923 a 1927, do Homem de Pequim, fósseis de uma subespécie do Homo Erectus, que recentemente foram datados de 750 mil anos atrás.

O pensamento que revoluciona a espiritualidade cristã é o da visão integrativa do cosmos, da terra e das coisas. Nela está inserta a integração entre ciência e teologia, com linguagem estranha à ciência e umedecida de misticismo. Ciência e fé cristã, a síntese de quem assumira ideias evolucionistas.

Foi professor de geologia no Instituto Católico de Paris, em 1920. Depois, proibido de lecionar, enfrentou um quase exílio, na China, por vinte e cinco anos, onde escreveu sua obra-prima “O Fenômeno Humano”. Como escritor escreveu livros e centenas e centenas de artigos.

Reabilitado pela Igreja, seus ensinamentos aparecem em documentos papais mais recentes, inclusive do Papa Francisco, como verdadeira reabilitação de seu saber e fé.

Frei Beto, inspirado nele, escreveu sua Sinfonia Universal – A cosmovisão de TEILHARD DE CHARDIN.