Se a personalidade se projeta por dimensões da vida social, o fato é que o centro dela, na pessoa do Ministro aposentado do Superior Tribunal Militar (STM), Flavio Flores da Cunha Bierrenbach, está dominado por profunda coerência e dignidade. Determinação e coragem constituem a marca de sua vontade e inteligência criativa, deixadas por onde passou e passa.
Na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em 1964, atraiu a sanha da direita política, no fatídico ano de 1964. Com o passar dos anos, tantos que a compunham se aninharam na mesma linha de pensamento e de ação que ele sempre teve e esteve, em prol da democracia. Foi representante dos alunos na Congregação. Já como Ministro reviveu a Associação dos Antigos Alunos, que celebra o patrimônio acumulado de amizade e de saber, em revivescência de colegas, amigos, professores, que se projetaram na vida do país, como literatos, advogados, juristas, professores, juízes, políticos, cientistas e ex-Presidentes da República. Tornou-se Presidente de honra da Associação Rediviva.
A história tida como alma adormecida surge, na atividade associativa, como um projetor de atitudes criativas e de ideias.
No seu tempo de política partidária, e na época da ditadura, seu escritório de advocacia, num sábado, foi alvo de um tiro anônimo, assim como disparos posteriores atingiram seu veículo. “Não procure descobrir o autor, porque a situação pode piorar”, disse-lhe o famoso delegado.
Quando se assistia os incêndios florestais, ele pregava a necessidade de aviões de combates a incêndios, aproveitando a experiência internacional desses desastres. Uma pequena empresa reuniria, em seu sonho, pessoas que pudessem concretizar tal ideia.
É aviador, e por isso não só foi dono de aviões de pequeno porte, como conhecia tudo das novidades da aviação ou da história dos grandes combates da 2ª Guerra Mundial. Quando viajamos em avião de carreira, ele sempre ficava ao lado da janela, pregado e olhando o céu e as nuvens, como um estreante. Lia e escrevia sobre esse tema que atraiu sua curiosidade preferente desde sempre. Seu espírito aventureiro conseguiu voar o melhor e o maior avião militar do Reino Unido, assim como conheceu de perto as geleiras dos polos.
Poliglota, fez mais de 100 (cem) viagens para o exterior, em muitas foi com representação oficial, como ao Timor-Leste, que tanto desejava que a Petrobras explorasse seu petróleo das águas profundas.
A Carta aos Brasileiros, que anunciava o enterro da ditadura, lida em 1977, no território livre da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, o teve como um de seus mentores. A segunda Carta desse ano de 2022, debruçada sobre a arruaça institucional do país, em nome do Estado Democrático de Direito, encontrou sua voz forte e libertária, no púlpito sagrado da democracia, naquele mesmo lugar de história e tradições.
Congressos e eventos, ora participante, ora palestrante, tiveram a sua presença atuante, sempre compromissada com a democracia. Ele trabalhou, como assessor do Ministério a Justiça, e até compôs a comissão que elaborou o Código do Consumidor.
Foi vereador, deputado estadual, deputado federal e relator da Proposta, que seria votada pela Assembleia Nacional Constituinte, função da qual foi afastado, pois seu relatório histórico defendia uma Assembleia desligada do parlamento ordinário, assim livre e soberana, com a sua finalidade específica de elaborar a nova Constituição, e só. “Quem tem medo da Constituinte” foi o livro resultante dessa rica experiência como deputado.
Sua arguição no Senado Federal, para ser alçado ao Superior Tribunal Militar, foi convertida no testemunho dos representantes de todas as bancadas partidárias, exceção de uma, que festejaram sua passagem luminosa por tantos caminhos da vida nacional.
É um agregador, diz dele, o nosso amigo e colega de turma de 1964, o embaixador Synesio Sampaio Goes Filho, que prefaciou (Os voos do Flávio), como piloto que é, o livro que ele Flávio, em 202 páginas, agrupou artigos publicados em revista especializada sobre aviação, aviadores, novidades e histórias, e que ganhou o título de ASAS E IMAGINAÇÃO pela editora Rota Cultural.
Na noite do lançamento, seu agradecimento, após a linda saudação de Almino Affonso, foi encerrado com um pedido novo, sobre matéria que tem ocupado a preocupação do mundo: o meio ambiente.
Ele pediu que todos os ajudassem na divulgação da necessidade de um Tribunal Internacional Ambiental, nos moldes do Tribunal Penal Internacional.
Sua amizade irmã é um orgulho.