O fato comum, entre todos nós, é a projeção de que viemos de uma mesma fonte, sendo dela que nasce o sentimento de nossa solidariedade. Essa afinidade é o que mais nos enternece quando esse fato ocorre. Trata-se da morte, que pode acontecer em qualquer idade ou tempo, mas que nem por isso nos preocupa, e mesmo assim é o fato em razão do qual sempre há muita emoção e choro.
Para muitos espiritualistas, a morte é aceita, já que para eles a passagem é para um limbo de leveza e eternidade, e ainda acreditam que aquela energia da pessoa morta possa retornar à terra, para completar sua evolução, numa reencarnação consentida.
Mas, a morte causa indignação em muitos, mesmo assim.
Se pudemos criar a imagem humana-divina de quem deveria sobreviver no tempo, ultrapassando o limite de qualquer idade, e ainda por escolha nossa, eis que a escolha permitida seria de determinada classe de pessoas, com tais e quais predicados que excluiriam parentes, salvo os iluminados por um dom artístico. Evidentemente, nessa faixa de blindados pelo divino não estariam os fazedores das leis absurdas que desgraçam a população, os mentirosos de todo gênero, os aprendizes de ditadores que falseiam tudo que é real, os torturadores ou seus sequazes, ou admiradores, nenhum deles é ou seria abençoado pela força energética do bem e da paz.
A minha categoria distintiva, que teria um lugar definitivo no mundo iluminado dos humanos é a dos cantores e dos artistas.
Essa ideia vem de longe.
Era jovem quando criei na minha mente essa possibilidade de eternidade, quando assisti na televisão um cantor-pianista, negro, norte-americano, que fazia sua apresentação em São Paulo. Tal a sua emoção que, ao piano, cantava sua música, derramando lágrimas e lágrimas, que nunca mais pude esquecer. Logo em seguida, soube que morreu, num desastre de automóvel, lá no seu país, no estado do Texas.
Desde aquele dia resolvi manifestar minha indignação com a morte, quando um artista tivesse morrido.
Afinal, o cântico popular é um cântico do povo, e muito mais do que isso, é o cântico que reúne mais de um povo, porque a música é o esperanto da arte, justamente a linguagem que salta quaisquer fronteiras em busca da fraternidade do fraterno.
Os outros artistas, quando não eternizam o hoje, traçam as linhas gerais de um futuro que virá ou que sonhamos.
Portanto, a morte dessa cantora magistral, voz de cristal, que é a de Gal Costa, ou a de Rolando Boldrin, o Sr. Brasil, trazem-me a lembrança de que um dia prometi protestar, mas que, depois, sabendo da inutilidade desse protesto, resolvi substituí-lo por uma oração, porque afinal todos retornam para os azuis donde vieram, e para os quais voltaremos. Como a Gal e o Sr. Brasil.