O tempo atual traz contradições profundas. A maior delas é a da mensagem cristã que confronta com tantos que, em nome dela, praticam infâmias, mentiras, violências, torturas e morte. Frequentemente, como atos de governo.

A infâmia e a violência, quando praticadas por quem não tem responsabilidade de função pública, afetam o espaço sagrado de individualidades conviventes, oprimem os do seu lar e projetam para fora o falso figurino do devoto do amor ou a exalação da maldade. Mas quando a pessoa é responsável pelo governo das políticas públicas, o respeito à fé cristã se torna um apanágio de falsário.

Cristo foi um perseguido político. A matança das crianças, em tenra idade, o procurava. Ela inaugura, na era da cristandade, a ordem desumana e brutal do que seria um Estado terrorista.

A pregação do respeito ao outro tem origem na mesma fonte, que nos torna solidários, ou que deveria nos tornar, quando a competição da inveja e da ambição ou da obsessão do poder não destroem esse sentimento de unidade e de igualdade.

Apesar de tão prolongada pregação de amor ao outro, durante mais de vinte séculos, o cuidado com o outro para uns é um imperativo da alma, para tantos é um descuido total, que leva à estonteante invisibilidade que esconde a realidade que os ataca. O outro não é visto.

Quando se analisa o Poder político, a lição da matança de crianças recém-nascidas, vê-se como as palavras bíblicas não servem de inspiração, já que elas afrontam o Poder político, na perversão brutal do que seria, e é, um Estado propenso ao terrorismo.

Se Cristo salvou-se da matança no início de sua vida, no final dela, os soldados identificaram-no pelo gesto traidor de um dos seus.

Entre o tempo de seu calvário até o momento de sua crucificação, fica a lição, que se finda na humilhação redentora. É um exemplo para os sofredores de todo sofrimento, que ganha o tempo sem tempo.

Não se compreende a confusão das lições religiosas com o interesse pragmático da política de conveniência de interesses privados, com pastores exigindo barra de ouro para seus favores criminosos. A palavra do Mestre do humano e do divino torna-se um incômodo para quem se torna um profissional do ódio, e o incauto não distingue essa mistura tóxica com que a esperteza apresenta a política misturada com religião.

O propagador do ódio nunca diz “eu sou o propagador do ódio”, tal como aquele déspota não diz “Eu sou um ditador”. Sempre se utilizam da palavra democrata, democracia, como se amor e ódio fosse aquilo que os aprendizes de ditadores falaram sobre a democracia. Ela seria um estágio para se chegar à democracia. Estágio, sim, compreendido como campo de batalha da coragem moral, que quer conquistar a luz contra a escuridão. Pior, quando abusam do direito que a democracia garante, para destruí-la, como a liberdade de expressão sem limites. O ditador ou seus aprendizes não toleram limites.

A paz sugerida por Cristo não é a paz dos cemitérios. É a paz da justiça. A promessa de paz que fez tremer o império, lá no início da jornada. O império reagiu, como terrorista, com a ideia revolucionária em propagação descontrolada – “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, com o clamor amplificado pelas catacumbas.

O Natal não é só a criança na manjedoura. Ela simboliza, sim, a lembrança doce que nos faz amar as crianças como elas são e como poderão ser. Natal, no entanto, celebra a manjedoura, mas no ventre dela tem a fuga para sobreviver à matança. Natal celebra a manjedoura, mas no ventre dela há pregação no templo e a expulsão dos mercadores, há o pão e o vinho partilhados, há a pregação às multidões, os milagres, a ceia, a traição, a prisão, o julgamento pelo grito assanhado da multidão. Há a abjeta covardia de Pilatos e o calvário com a sua tortura continuada e a sua humilhação. E, finalmente, a crucificação e depois de três dias a ressurreição.

Natal celebra a manjedoura, que agasalha o patrimônio de uma vida humana e divina, breve, que celebramos, sabendo ser essa data – A TEIMOSIA HISTÓRICA DO AMOR.

Feliz Natal!