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Feres Sabino

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Arquivos Mensais: julho 2023

A vergonha histórica do racismo

31 segunda-feira jul 2023

Posted by Feres Sabino in blog

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Se a velhice é a carga pesada para as pessoas, para as mulheres e homens negros essa carga passa a ser pesadíssima, quando sobrevivem.

Esse assunto da primeira linha da gravidade ocupa uma reportagem da Folha de São Paulo, do último dia 10 de julho, que é sempre uma advertência, sempre uma proposta de redenção, é sempre um motivo de reflexão para expurgar de nosso meio, cultura ou estrutura pessoal, ou social, esse medo, esse fluxo de discriminação que muitos pensam ser natural, porque afinal negros e negras são diferentes, esquecendo-se de que diferentes eles o são, mas só na aparência.

O trabalho jornalístico é assinado por Laura Mattos e traz o depoimento de mulheres negras, poetas, as três, Célia de Lima (75), Adélia Martins (67) e Terê Cardoso (70), que trabalham no projeto Continuar “que promove ações culturais e educacionais para a terceira idade”.

São elas, na verdade, as vítimas que conseguiram sair da sombra sufocante da escravidão, adquirir a consciência crítica que as coloca num lugar do mundo e da sociedade do qual sabem e conseguem reverberar não só a crueza de sua experiência, como conclamar a humanidade, procurando atrair o que existe em nós de humanos e para começar a quitação de vez desse passivo histórico.

Se elas, poetas, são a carne viva dessa lembrança histórica, que está diariamente na nossa culinária e sua voz afro, está na música com seu ritmo às vezes alucinantes, às vezes pausados, está na nossa cultura e na nossa prosa machadiana, como está nas paredes de Mariana, tratadas com o mesmo desprezo com que se admira, mas não perdoa Aleijadinho, na suposta contradição de quem é como artista e quem foi como cor da pele.

Outra face da discriminação e da violência contra a mulher negra foi revelada pela pesquisa sobre a gravidez, mas quando ela deve ser interrompida. Quando se trata de mulheres brancas existem números, estatísticas, tem-se a informação adequada para ser avaliada e divulgada, podendo definir determinada política. Entretanto, o eloquente é inexistir quaisquer dados, qualquer percentual, em relação às mulheres negras. Ou seja, na faixa social que seguramente apresenta mais problemas, a gravidez é levada até o último minuto. Qual o motivo real dessa omissão? Será medo? Será vergonha? Será o difícil acesso aos serviços médicos? Ou será porque a inferioridade introjetada no espírito da descendência escrava, tão forte no painel de nossa convivência social, impede a mulher negra de procurar, regular e normalmente, a solução de seu problema.

Se a gravidez, que deveria ser interrompida e não o foi, é um problema que atinge a mulher negra de qualquer idade. Essa coerência cultural ou a imutável fixação estrutural incide até na velhice da mulher negra, ou branca, sendo que essa onda histórica atinge a saúde, corporal e psicológica, a situação econômica, a segurança e tudo o mais que engloba a vida em sociedade.

Nesse mundo de tantas guerras, essa de negar a própria formação histórica, que conflui o índio, o negro e o branco, tem a gênese de ser ora invisível, ora visível, mas contínua, lógica, brutal, tanto que para ela nunca existiu armistício: nasce negro ou negra, seu mundo é da violência.

Essa triste vergonha histórica está estampada nos números atuais do Anuário da Segurança Pública, pois, os registros policiais registram o quadruplo dos casos de racismo, entre 2018 e 2021, sendo que em 2022 houve uma alta de 31%, em relação a 2020. Os mortos pela polícia são a maioria negra.

A qualificação de racismo cultural ou estrutural para essa realidade política, social, econômica, pouco importa. O que ataca ou deveria atacar nossa consciência é a emergência da realidade histórica que nos faz um país negro ou pardo, com a imensa contribuição afro em nossa forma de ser, seja na cultura, no esporte, na culinária, na formação de nossa sociedade, que nega estupidamente essa gigantesca presença desigual em nossa formação miscigenada.

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Voltar para casa

24 segunda-feira jul 2023

Posted by Feres Sabino in blog

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Foi o tema da reflexão que o meu irmão “de fé camarada” Marcos Zeri Ferreira apresentou no ambiente teosófico, e que foi irradiado pelo meio virtual, através de muitas redes sociais, disponibilizada pela Sociedade Teosófica.

Sua ilustrada palestra apresentou dois caminhos para as duas casas, uma a que se vive, outra para a qual voltaremos, com o apagar de nossas luzes de vida. A primeira é a do corpo, da alma, do espírito, que compõe a individualidade humana, que se pensa ser a única no universo, quando a própria ciência cria dúvidas profundas quanto a isso.

Essa inflexão, chamada de primeiro caminho, é para o si mesmo. Uma rota sempre inacabada de autoconhecimento e descoberta, que faz da pessoa um centro crítico de si, sem ignorar e desprezar as circunstâncias da vida, mas sem demorar nelas ou retê-las como imposições. É uma libertação que procura o êxito espiritual sem se distanciar delas e sem desprezá-las como fonte de criação. Essa evolução acaba dando uma forma de compreensão que aprofunda mais e mais a curiosidade do conhecer-se, e que a pessoa faz para descobrir, distante do apego material, imposto na atualidade da sociedade de consumo, como em outras épocas em que se produziram outros atrativos à vontade e à ambição. Dedica-se a um espiritualismo crítico de si em si e segue adiante no caminho de retomada plena da sua “casa”.

Existem mil caminhos para essa andança de volta ao si mesmo. Os padres do deserto e os eremitas talvez sejam um ápice desse esforço gigantesco para se atingir uma dimensão espiritual, que sintomaticamente se revela riquíssima na magreza do corpo, e no olhar brilhante de quem conseguiu voltar e assumir sua “casa” corporal e espiritual, fazendo nela a faxina da redenção. Marcos ilustra com as vertentes espirituais da história sua palestra do “voltar para casa”, digo eu, para essa sua casa.

Mas lembra que a partícula infinitesimal que está nas estrelas está nos homens, nas mulheres, nas crianças, nas plantas e nos animais, que estabelece uma invisível interligação entre tudo e todos que existe, como uma sinfonia universal drasticamente traída pelo império da razão, que coloca em nível inferior ou ignora a percepção e a intuição, que fazem os dominadores de si até adivinharem as coisas e o mundo.

Essa é a segunda rota para uma hipotética segunda casa para a qual necessariamente se volta ou voltará.

Lembro-me do que escrevo celebrando, respeitosamente, a morte de quem morreu: ele (ou ela) retornou para os azuis donde veio e para os quais voltaremos.

Marcos Ferreira insiste na interligação entre o visível e o invisível, entre o oculto e o aparente, entre o silêncio e o ruído, em razão do que a volta para si com suas conquistas e redenções é, na verdade, a única casa dos dois caminhos, das duas vertentes da vida.

Quando se tem a humilde coragem ou a coragem humilde de procurar a primeira casa, na verdade, você está construindo o alicerce da outra, já que você leva o que é, e ser como ser humano, abandonando o corpo inerte para ocupar a outra casa, que é a mesma casa, vivenciada agora na dimensão da essência espiritual.

Nela, a pessoa responde por seus atos praticados na terra, como ensina a religião católica, ou retorna para se aperfeiçoar e se purificar, se precisar, em reiteradas reencarnações, como ensina a doutrina espírita.

O fato é que a reflexão é sobre a harmonia do universo, que é a dona da interligação necessária entre o ser humano, os animais e as plantas, decorre, como lição, de correntes religiosas e humanistas, que se ocupam da solidariedade como lei natural da convivência entre os humanos, as coisas, os animais e as plantas.

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Farda não é fantasia

18 terça-feira jul 2023

Posted by Feres Sabino in blog

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O espetáculo do depoimento do ajudante de ordem do ex-presidente da república, na Comissão Parlamentar de inquérito, constituiu uma espantosa vergonha, que durou oito horas de silêncio fardado.

Quando se diz vergonha espantosa é tanto mais espantosa já que traz a transmutação de símbolos e de vestimentas, os quais só nos trazem a ideia de decência, de honradez, de compromisso superior ao de qualquer outro cidadão. Compromisso esse formalmente jurado, em defesa da democracia e da inteireza da pátria, como são os juramentos dos servidores do Estado, sejam civis, sejam militares.

Se o civil não traz nas suas roupas a visão exuberante de seus compromissos com o seu país, o militar vive de sinais seus, exclusivos, para demonstrar não só o compromisso, a sujeição e o respeito, tal como a continência à bandeira, para exibir clara e inquestionavelmente a primazia de dar até a sua vida em defesa da pátria. É por isso que existe farda como sinal, é por isso que a continência é exclusiva como celebração devotada à bandeira verde e amarela.

No entanto, de repente, longe da respeitabilidade que deve inspirar e inspira nossas Instituições democráticas, eis que a instituição militar parece ter confundida a farda com a fantasia do cordão dos puxa-sacos fascistas. Qual a finalidade dessa exibição desnecessária? É para causar frisson, medo aterrador a quem iria questionar a mudez golpista, mentirosa e covarde? Alguma demonstração de força indomável ao distinto público?

Por isso, não se compreende como o comando do nosso Exército teria autorizado o uso da farda por essa figura que não foi escolhida, designada, para fazer o que fez, ferindo os princípios da decência, da ética e da moral.

Pouco importa que seu pai seja general da reserva. Motivo de mais rigor na cobrança da decência militar. Pouco importa que a família esteja exigindo que o Exército coloque o seu prestígio para ameaçar o Ministro Alexandre de Morais, para que ele solte o filho do general da reserva. O Exército, que não é casta, deve, como todos os membros das instituições democráticas brasileiras, expurgar de suas fileiras o que exista de espírito endiabrado do golpismo, não tolerando jamais que a farda seja usada como demonstração de prestígio protegido de quem, no mínimo, participou da construção da falsidade dos documentos das vacinas, ou batalhou para apossar-se das joias sauditas, indicativas de propina, apreendidas pela decente representação da Receita Federal.

Farda não é fantasia.

Farda é a prova palpável de que aquele que a veste está ali porque se propôs a dar a vida à nação, uma entrega absoluta e total, e não se pode acreditar que exista leniência com quem fere os princípios fundamentais, jurados, de sua carreira.

Não se compreende por que as pessoas que se dedicaram quatro anos a preparar o clima e o plano do golpe contra a democracia, agora não se dispõem a falar a verdade, e corajosamente apresentar suas razões e defender-se perante a nação, revelando sua escolha para ser militar, falando claramente do que se dispôs a fazer, e o que fez, independentemente do que seu pai possa pensar ou querer.

Adolf Hitler, que no fundo é o pai espiritual dessa malta golpista, sem que ela saiba ou assuma, teve coerência quando preso, na primeira manifestação de massa de seu movimento e Partido, frustrado em 1923. Ele foi preso, seu movimento comprometido, sua liderança ficou abalada. No entanto, mesmo preso, quando no Tribunal, ele fez a sua própria defesa judicial. E falou claramente sobre sua ideologia estúpida e suicida. Pois é, foi dessa tribuna que ele conseguiu revigorar a força de sua liderança abalada, para depois de dez anos empolgar o Poder e colocar fogo no mundo. Ele era um louco que sonhou como um louco, para morrer como um rato. Tantos de nossos pracinhas, na 2ª Guerra mundial, morreram para e nessa profilaxia da estupidez e da morte.

Assim, os golpistas nativos deveriam assumir a loucura dessa indecência fascista, tal como o seu pai espiritual, defendendo os motivos de sua traição da pátria democrática. E assumi-la corajosa e heroicamente.

Mas não pensem em anistia, pois, historicamente fatídica para o Brasil; os fascistas a têm como incentivo para continuar a ser o que se recusam a deixar de ser, fascistas.

O Brasil merece mais e melhor.

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