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Feres Sabino

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Feres Sabino

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A grande mentira revogada

27 segunda-feira maio 2024

Posted by Feres Sabino in blog

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Há mais de dez anos, não sei bem se foi na antiga Relojoaria Ferreira ou em frente à famosa esquina da Única, ali na confluência da rua Álvares Cabral com a rua São Sebastião, em Ribeirão Preto, ouvi, mais de uma vez, uma história de corrupção, que como tal corroía a imagem do presidente Lula e de seu filho Lulinha.

Hoje, essa mentira revogada pode oferecer a cada pessoa honesta, de direita ou esquerda, o bom senso de assumi-la como lição, para se prevenir com cada divulgação atual nessa sociedade cansada de mentiras.

A história era contada por corretor de imóveis rurais, proprietário no Pará, cujo vizinho declarava que tais e quais fazendas da região pertenciam ao Presidente e ao seu filho, cujo nome deles, porém, estariam encobertos por um outro ou outro laranja, ou laranjas.

Ele contou, e repetia. Era, e é, personalidade de muita simpatia pessoal, que ressoava a boa-fé, além de uma convivência sorridente, que sempre teve o meu respeito. Ele acreditou e contava, eu o ouvia, como cidadão e advogado, e aguardava as provas desse fato tão retumbante, que não poderiam ficar escondidas, indefinidamente. Afinal, na política a fome vingativa de opositores ultrapassa qualquer limite. Também emergiram os adversários que, grosseira e descaradamente, utilizaram-se dos aparelhos do Estado para defesa de interesses pessoais e familiares e milicianos, que poderiam perfeitamente descobrir fato tão óbvio.

Um exemplo internacional ilustra a eficiência de uma investigação, pois, em relação ao sanguinário ditador chileno Pinochet, depois de sua morte, descobriram-se cento e vinte contas bancárias esparramadas pelo mundo. Mais ainda, tem-se opositores por preconceito enraizado e elegante, que desprezam o retirante vitorioso que não pôde frequentar escolas e universidades para adquirir a arrogância de um procurador da república ou de um juiz suspeito e parcial de Curitiba, e por isso corrupto, antipatrióticos, eternamente lambuzados pela fraude traidora da lei, da justiça e da pátria. E, ao contrário, o retirante aprendeu, na vida, o que sabe ensinar sobre o Brasil real. Explicar o Brasil Real? Um escândalo!

Hoje mais do que nunca precisamos recordar essa mentira, porque parte do tempo aderiu ao falso, quiçá provisoriamente, quando a mentira ganhou mais força e mais velocidade, a ponto de paralisar a atuação necessariamente saneadora do Presidente Arthur Lira, que atrasa a lei para sanear a internet desses abusos que já estavam mais do que discutidos na Câmara, há mais de dois anos.

E essa história na verdade se esparramou pelo Brasil. E mesmo que uma vez a Folha de São Paulo tenha publicado reportagem sobre investigação infrutífera da Polícia Federal sobre o filho, que durara 10 anos, ainda assim, a história dessa mentira estava arraigada no imaginário popular. Poucos leem jornal, mas muitos e muitos ouvem o rádio ou assistem à televisão, e permanecem com a mentira estonteante da publicidade farta, e não sabem da revogação judicial dela, porque não é veiculada com a mesma força de eficácia pela mesma imprensa. E a Constituição Federal tem como princípio e fundamento o valor ético-jurídico da dignidade da pessoa humana, e assim a densidade jurídica da honra impõe reação máxima contra o crime de difamação, de calúnia e de injúria, praticado contra ela.

No entanto, as desculpas apresentadas por quem injuria, calunia, difama, ou seja, ofende a honra e a dignidade das pessoas e de seus familiares, não apagam da lembrança da totalidade das pessoas que ouviram inicialmente as ofensas, pois a verdade não interessa tanto ao espetáculo da imprensa, que geralmente alcança maior audiência com escândalos, inclusive mentirosos.

O tempo passou. E o cantor popular Amado Batista repetiu a história, só que desta vez houve consequências judiciais. O pai e o filho o processaram. E, a Carta Capital, via Google, no dia 22 de junho de 2022, veiculou a matéria sob o seguinte título: “Amado Batista pede desculpas na Justiça por declarações contra Lula”.

O artista apoiador do presidente Jair Bolsonaro, segundo o site The Intercept Brasil, “foi multado em R$ 1,24 milhão pelo Ibama por desmatamento em sua fazenda em Cocalinho, na divisa de Mato Grosso com Goiás”.

E neste site a retratação está assim redigida:

“O cantor e compositor Amado Batista entrou para a lista — cada vez mais extensa — de artistas que reconheceram ter espalhados Fake News sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua família, a quem Batista acusou de ter grandes propriedades rurais: ‘Apesar de ter dito que Fábio Luiz Lula da Silva era latifundiário e dono de cabeças de gado no Mato Grosso e no Pará, reconheço que essa informação chegou ao meu conhecimento a partir de meros boatos irresponsavelmente difundidos na sociedade’.”

A reportagem finaliza dizendo: “Antes desse episódio, outras celebridades já haviam se retratado e pedido desculpas a Lula e a sua família. Foi o caso da atriz Regina Duarte”.

E a repetição dessa retratação é um serviço de interesse público, porque mentirosos e mentiras circulam livremente na sociedade, e precisam ser condenados por um serviço exemplar de saneamento básico.

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O governador desventrado pelas águas

20 segunda-feira maio 2024

Posted by Feres Sabino in blog

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As desgraças grandes não revelam só espíritos altivos, solidários, dedicados, que servem de exemplo e agregam mais esforços para atacar a tragédia que envolve a tantos e a muitos.

E as grandes verdades aparecem aos olhos inclusive daqueles que se sentem mal em olhar, analisar e ver.

Vamos perguntar singelamente a qualquer espírito e personalidade honesta: o divino mercado, que em tempos normais é defensor implacável da economia do “deixa-fazer”, naquele espaço livre sem qualquer regulamentação legal, território do mais forte que engole o mais fraco, neoliberalismo pleno, onde é que ele, divino mercado, se encontra, nas grandes calamidades, nas pandemias?

O povo brasileiro ouviu nesses famosos programas de rádio ou televisão, onde economistas enterram o Brasil diariamente, direta ou indiretamente, e tantas vezes disfarçadamente, por acaso, o povo ouviu falar que o “divino mercado” resolve o problema do Rio Grande do Sul ou de qualquer outra tragédia. Afinal, o “divino mercado é Brasil”. Aliás, muito forte. Já que se liga ao mercado internacional, pois ele é também das armas e das matanças coletivas, da destruição da natureza.

Se, em tempos normais, o divino mercado se aborrece com medidas de democratização dos benefícios sociais próprios do Estado de bem-estar, por coerência, em tempos de calamidades, não se sente obrigado a zelar pela população aflita, apavorada, sofredora, pois ele é a encarnação do neoliberalismo, que nega a solidariedade contida em qualquer política pública da democracia. Mas nisso ele, mercado divino, talvez seja sincero: nada pessoal, só uma questão de continuar defendendo a exclusão social.

Mas essa ideia de exclusão está esparrada no território pátrio, graças à emergência de um rebotalho político, que se ergue como negacionista, negando as drásticas mudanças climáticas, que estão sendo mais frequentes e mais violentas, como negam a ciência e a inovação, como estupidamente negam a necessária e cuidadosa relação com a natureza, para que o cuidado com ela preservem as árvores das derrubadas dos desmatamentos, e que os verdes controlem as águas quando elas despencam, levando na enxurrada tudo que não se aprendeu com desastres anteriores e iguais.

O fato é que essa do Rio Grande do Sul tem levado pessoas, crentes do negacionismo, a dizer claramente que o problema não é decorrente da política, nem de mudanças climáticas.

Ora, se tudo depende da política, a natural prática da convivência social, entre pessoas e entre elas e o Estado, num país sob a regência e a responsabilidade social de seus políticos, a matéria, o assunto, a tragédia só pode ser política e, sendo política, emerge no entremeio da desgraça do Rio Grande do Sul a figura do seu governador, adepto do neoliberalismo, que no primeiro ano de seu primeiro governo, claro com a Assembleia apoiando, revogou mais de 400 (quatrocentos) artigos do Código Ambiental do Estado, esfolando a natureza de tal jeito que ela resolveu se vingar de tanta alienação, pois essa tragédia não foi a primeira, nem as do ano passado o foram. Mas esse simulacro de estadista foi além, ele fez um discurso para o mundo dizendo que as doações recebidas estariam prejudicando o pequeno comércio do Rio Grande do Sul. Essa declaração revela uma espécie de infantilismo político, de quem está perdido, no meio da desgraça, o zumbi da desgraça. Mas nessa falta de planejamento para esse grave problema junta-se o Prefeito de Porto Alegre, que tinha no orçamento do ano passado 400 (quatrocentos) milhões de Reais para aplicar em obras de prevenção de enchentes e nada, nada fez ou gastou.

A atenuação dessa estupidez só acontecerá se ele, governador, conseguir formar um movimento para revogar as emendas parlamentares de seus iguais, pois são 50 bilhões, que poderiam melhorar o caixa do Governo, retirando do imprevisto de sua aplicação, sem planejamento, e ainda convencer a famosa bancada ruralista cujas propostas são sempre para destruir a natureza, em favor da economia do desmatamento, da criação de gado, da mineração. Mas não fica por aí, porque ainda precisaria convencer os negacionistas de extrema-direita que a divulgação de notícias falsas é a demonstração do antipatriotismo, da falta de caráter e de moral pública, engolidos e negados por quem se apresenta, sendo rebotalho, como talento novo.

No começo da crise, o PSDB atual, que sugere memória saudosa, longe do espírito da cooperação nacional, antecipou uma crítica descabida ao governo federal. Foi desmentido e não deu mais, e rolou pela ribanceira que tentava subir.

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120 anos

13 segunda-feira maio 2024

Posted by Feres Sabino in blog

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Durante toda minha vida, nunca soube definir a minha reação diante da venda ou desaparecimento de uma empresa privada, que tinha raízes na cidade.

Senti-me, ainda jovem, lesado, como se tivesse parte naquela sociedade. Ao menos em duas ocasiões, que se repetem quando destroçam a Petrobras, vendem a Eletrobras e privatizam a Sabesp, todas empresas lucrativas, cujos lucros poderiam abastecer as políticas públicas.

Foi assim que me senti quando a Companhia Cervejaria Paulista foi vendida. Essa sensação não era por causa do guaraná delicioso que ela fabricava, ou pela famosa cerveja preta, a Niger. Era algo assim… quase umbilical.

De igual maneira, e ainda mais forte, foi a lesão causada pela venda da PRA-7 do “seo” Bueno, que construiu o prédio ali naquela esquina, como emissora de vanguarda e famosa no interior do país, e que tinha um auditório que recebia os parlamentares federais. Lembro-me da Frente Parlamentar Nacionalista, cujos deputados vinham ali discutir problemas reais do país, o que alimentou a conformação de minha consciência política e cidadã. O Brasil tinha uma inteligência que revelava algumas descobertas e pensava um projeto e o futuro da nação. Por exemplo, soube que as areias monazíticas das praias do Espírito Santo eram roubadas, com a desculpa de que a estabilidade do navio estrangeiro dependia daquele calado. Foi objeto de CPI, tendo como relator Dagoberto Sales, do partido do Ademar. Hoje, a utopia regressiva faz apologia à ditadura, ignorando sua estreiteza e sua violência macabra.

Agora, quando a campainha da minha casa tocou para me entregarem um volume primoroso da celebração de 120 anos de existência do Grupo Santa Emília, nascido da reestruturação da Diederichsen, a minha reação é diametralmente oposta.

A fluente narrativa do livro do Presidente, agora do Conselho, Rui Flávio Chúfalo Guião, ilustrada por fotos inesquecíveis, surpreende-me fazendo emergir o sentimento de admiração e até de parceiro orgulho. O seu crescimento, que foi se diversificando em vertentes comerciais bem-sucedidas, esparramadas por outras cidades, mostra como uma empresa majoritariamente familiar absorveu na sua trajetória, e na medida correta, pessoas que se somaram ao crescimento que foi acontecendo, acontecendo, até chegar a esses 120 anos. É por isso que revela como um critério da invejável prosperidade da empresa o seu maior acervo: as pessoas. Ele confessa: “Para isso trabalhamos, para que ela seja uma comunidade e um centro de desenvolvimento de pessoas, permitindo que elas cresçam como profissionais, cidadãos e indivíduos”.

Impressionou-me sempre a maneira como ali a família se juntou para ocupar os cargos diretivos e, particularmente, a maneira como os filhos foram preparados para a sucessão dos mais velhos, que longe de chegarem de repente, prepararam-se no trabalho para continuarem a construção do que assumiram ou do que, um dia, assumirão quando os pais, ainda na ativa, decidirem se afastar de vez e para sempre.

Quando digo que o sentimento é oposto àquele que confessei, em relação aos fatos acontecidos em priscas eras, é porque, também nessa comemoração de 120 anos, o Grupo Santa Emília traz na sua direção o Rui e a Cecília, que os conheci ainda no Ginásio do Estado, sendo que os vi desde namorados, casados, e pelo resto da vida.

O Rui Flávio, filho único, mereceu de seus pais a atenção e o cuidado que se dedica ao filho único. A linha familiar era de advogados, e ele se preparou, intelectual e culturalmente, para ser não só advogado, porque poderia escolher qualquer outro espaço de trabalho, ou carreira, que estaria preparado para ter sucesso e vencer.

Por sua vez, casado com Cecília Penna de Barros Cruz e Guião, ele foi arrastado a ocupar uma função na empresa que fora Companhia Comércio e Indústria Antônio Diederichsen, e ambos seguramente com a forma dialogante de administrar fizeram a complementação da idade do Grupo, agora denominado Santa Emília.

Seu fundador, Antônio Diederichsen, era homem de firmeza e determinação, e seu coadjuvante Manoel Penna não deixou por menos o valor de sua contribuição, e é dele a frase que anuncia o que a experiência lhe ensinou, oferecendo-a ao autor, Rui Flávio, logo na abertura de seu livro, como uma antevisão da maneira como um patamar empresarial foi transferido para outro, sucessivamente. Diz ele: “A vida é uma constante transferência”.

Minha convivência com o Rui, iniciada nos bancos ginasianos, foi muito próxima durante todo o curso de direito, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, quando moramos em pensão e depois em apartamento.

Sempre disse que somos tão diferentes que com essa convivência prolongada aprendi a respeitar os diferentes e as diversidades. Diferentes que somos.

Por isso e por tudo, é bom saber que em uma data tão expressiva – seus 120 anos – o Grupo Santa Emília tem hoje no seu Conselho não só pessoa competente, preparada para o que foi e é a sua governança empresarial, mas fundamentalmente um amigo-irmão, que venceu exemplarmente, como chefe de família, empresário e cidadão.

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