As desgraças grandes não revelam só espíritos altivos, solidários, dedicados, que servem de exemplo e agregam mais esforços para atacar a tragédia que envolve a tantos e a muitos.

E as grandes verdades aparecem aos olhos inclusive daqueles que se sentem mal em olhar, analisar e ver.

Vamos perguntar singelamente a qualquer espírito e personalidade honesta: o divino mercado, que em tempos normais é defensor implacável da economia do “deixa-fazer”, naquele espaço livre sem qualquer regulamentação legal, território do mais forte que engole o mais fraco, neoliberalismo pleno, onde é que ele, divino mercado, se encontra, nas grandes calamidades, nas pandemias?

O povo brasileiro ouviu nesses famosos programas de rádio ou televisão, onde economistas enterram o Brasil diariamente, direta ou indiretamente, e tantas vezes disfarçadamente, por acaso, o povo ouviu falar que o “divino mercado” resolve o problema do Rio Grande do Sul ou de qualquer outra tragédia. Afinal, o “divino mercado é Brasil”. Aliás, muito forte. Já que se liga ao mercado internacional, pois ele é também das armas e das matanças coletivas, da destruição da natureza.

Se, em tempos normais, o divino mercado se aborrece com medidas de democratização dos benefícios sociais próprios do Estado de bem-estar, por coerência, em tempos de calamidades, não se sente obrigado a zelar pela população aflita, apavorada, sofredora, pois ele é a encarnação do neoliberalismo, que nega a solidariedade contida em qualquer política pública da democracia. Mas nisso ele, mercado divino, talvez seja sincero: nada pessoal, só uma questão de continuar defendendo a exclusão social.

Mas essa ideia de exclusão está esparrada no território pátrio, graças à emergência de um rebotalho político, que se ergue como negacionista, negando as drásticas mudanças climáticas, que estão sendo mais frequentes e mais violentas, como negam a ciência e a inovação, como estupidamente negam a necessária e cuidadosa relação com a natureza, para que o cuidado com ela preservem as árvores das derrubadas dos desmatamentos, e que os verdes controlem as águas quando elas despencam, levando na enxurrada tudo que não se aprendeu com desastres anteriores e iguais.

O fato é que essa do Rio Grande do Sul tem levado pessoas, crentes do negacionismo, a dizer claramente que o problema não é decorrente da política, nem de mudanças climáticas.

Ora, se tudo depende da política, a natural prática da convivência social, entre pessoas e entre elas e o Estado, num país sob a regência e a responsabilidade social de seus políticos, a matéria, o assunto, a tragédia só pode ser política e, sendo política, emerge no entremeio da desgraça do Rio Grande do Sul a figura do seu governador, adepto do neoliberalismo, que no primeiro ano de seu primeiro governo, claro com a Assembleia apoiando, revogou mais de 400 (quatrocentos) artigos do Código Ambiental do Estado, esfolando a natureza de tal jeito que ela resolveu se vingar de tanta alienação, pois essa tragédia não foi a primeira, nem as do ano passado o foram. Mas esse simulacro de estadista foi além, ele fez um discurso para o mundo dizendo que as doações recebidas estariam prejudicando o pequeno comércio do Rio Grande do Sul. Essa declaração revela uma espécie de infantilismo político, de quem está perdido, no meio da desgraça, o zumbi da desgraça. Mas nessa falta de planejamento para esse grave problema junta-se o Prefeito de Porto Alegre, que tinha no orçamento do ano passado 400 (quatrocentos) milhões de Reais para aplicar em obras de prevenção de enchentes e nada, nada fez ou gastou.

A atenuação dessa estupidez só acontecerá se ele, governador, conseguir formar um movimento para revogar as emendas parlamentares de seus iguais, pois são 50 bilhões, que poderiam melhorar o caixa do Governo, retirando do imprevisto de sua aplicação, sem planejamento, e ainda convencer a famosa bancada ruralista cujas propostas são sempre para destruir a natureza, em favor da economia do desmatamento, da criação de gado, da mineração. Mas não fica por aí, porque ainda precisaria convencer os negacionistas de extrema-direita que a divulgação de notícias falsas é a demonstração do antipatriotismo, da falta de caráter e de moral pública, engolidos e negados por quem se apresenta, sendo rebotalho, como talento novo.

No começo da crise, o PSDB atual, que sugere memória saudosa, longe do espírito da cooperação nacional, antecipou uma crítica descabida ao governo federal. Foi desmentido e não deu mais, e rolou pela ribanceira que tentava subir.