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Feres Sabino

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A destruição da linguagem

24 segunda-feira jun 2024

Posted by Feres Sabino in blog

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O fenômeno bolsonarista tem servido de muito estudo e reflexão, pois eclodiu como se fosse um ato repentino e fora de qualquer processo em curso.

Na verdade, a nostalgia – “um afeto que combina amargura da perda e a sensação de desencaixe com o momento no qual se vive” – predominante em franjas eloquentes da sociedade, em relação às políticas adotadas, encontraram no discurso desconexo, com louvações à prática da violência, e sua cuidadosa preparação do meio para se chegar a um passado glorificado, mas inexistente, como é o que prega o retorno à ditadura, como oásis de segurança e do conforto da cidadania.

O livro “Linguagem da Destruição: A democracia brasileira em crise”, lançado pela da Companhia das Letras, encerra três ensaios dos autores Heloisa M. Starling, historiadora, Miguel Lago, cientista político, e Newton Bignotto, filósofo, os três membros da universidade pública brasileira, e que fazem a análise do discurso sobre a realidade política e social sob a presidência do “negacionista”, que serviu para construir o caos. Analisar a linguagem oficial passa pela narrativa adotada para cada fato. E nesse ponto eleva-se, por exemplo, a conduta do governo durante a pandemia, entremeada de frases de comparações chulas, por parte do inelegível, pouco se importando com o número de mortes, muito menos com a pressa apressada da compra de vacinas.

O bolsonarismo não se enquadra nos conceitos tradicionais de nazismo, fascismo ou cesarismo tradicionais, mas fica nas suas cercanias, com aspectos novos, que não indicam nenhum projeto de governo capaz de dar segurança de propósitos aos adeptos desse movimento, cuja característica talvez desvele a dificuldade que o Bolsonaro teve em formar um partido político.

Se o nazismo no seu início procurou conquistar a opinião pública, melhorando as condições de vida, o inelegível nada fez nesse sentido, durante seu governo. Optando pela propaganda ideológica, com suas ideias desconexas, destrutivas de instituições e de pessoas, civis e militares, ignorando politicamente a intermediação dos partidos políticos, e com a preferência do contato direto com a população, através das redes sociais e do cercadinho que ocupava como tribuna, nas manhãs de sua saída do Palácio da Alvorada, quando inflava sua utopia regressiva.

O ataque calculado ao Supremo Tribunal Federal é o ataque ao Poder que estabelece limite na atuação das pessoas e dos demais Poderes. E essa volúpia integra o “projeto” anunciado desde o início por ele mesmo: veio para destruir e não para construir. É pedagógica a lembrança anotada por Bignotto: “O elogio que Bolsonaro fez da morte de trinta mil pessoas, no curso de uma operação policial no mês de maio de 2021 no Rio de Janeiro, mostrando que a morte é o centro gravitacional de seu poder” (p. 147).

O apelo ao confronto com os “comunistas” ressuscita um fantasma, muito querido pelas elites brasileiras, que lhes empresta o esqueleto e a alma, para assustar os incautos, porque ele não mais existe. Assim, recomenda-se não confundir espírito crítico com comunismo.

Esse ódio ao iluminismo dos Direitos Humanos canta frequentemente “O Brasil acima de tudo”, que, aliás, tem um longo percurso histórico, já que faz parte da “A canção dos alemães”, composta em 1841, quando da disputa territorial entre Prússia e França, e sua melodia é idêntica a uma composição de Joseph Haydn, feita em 1797. Os nazistas se apoderaram da canção, em 1930. Ela foi adotada no Brasil em 1966, introduzida na Brigada de Paraquedistas, por jovens oficiais que integravam um grupo paramilitar Centelha Nativista, que na origem adotava esse brado. “Grupo dessa natureza – como a Aliança Anticomunista Brasileira ou Grupo Secreto – foram gestados nos quartéis e órgãos de informação e segurança das Forças Armadas e consistiram no principal foco de ativismo das facções da linha dura, durante a ditadura iniciada em 1964. A Centelha Nativista era formada por capitais, majores e coronéis do Exército organizados em torno de repertório ideológico bem definido pela “segunda linha dura”. Alegravam proteger a “democracia” contra o marxismo e o comunismo, estavam dispostos a lutar contra a subversão, pretendendo resgatar os ideais da ‘Revolução de 64’, que entendiam terem sido traídos pelos governos dos generais” (Heloisa Murgel Starling, p. 109).

“O grupo Nativista abrigava-se na Vila Militar e dedicava-se ao ativismo político quanto à execução de ações armadas (idem p. 110)”.

Se esse precedente explica a vertente golpista de militares, tem-se ainda a história do Partido Nazista da Alemanha que estendeu seus tentáculos para 83 países, instalando seções no exterior. A maior delas, com 290 integrantes oficiais, era a seção do Brasil. Tivemos o Partido Nazista do Brasil que funcionou de 1928 a 1938.

O ex-presidente Bolsonaro, com seu discurso desconexo e destruidor, propagando a utopia regressiva, que nunca existiu, seguramente encontrou eco no subterrâneo provindo da ditadura e que emergiu na vida nacional, com as sementes pervertidas do Partido Nazista do Brasil, e que a democracia, sempre ameaçada, tenta arrancá-las, como rebotalho, para limpar de vez os tropeços de nossa redenção, como país soberano, democrático e justo. Afinal, “… o comunismo é um fantasma retórico usado por demagogos de várias tendências políticas, como arma ideológica, sem nenhuma correspondência com o quadro geopolítico global” (idem p. 128 Newton Bignotto).

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Escolas da bitola estreita

17 segunda-feira jun 2024

Posted by Feres Sabino in blog

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“É na sala de aula que se forma o cidadão,

É na sala de sala que se muda uma nação…“

(Leci Brandão – Os Anjos da Guarda)

O Brasil está querendo fechar o beco da racionalidade, da inovação, do avanço científico, da tecnologia digital da formação humana, inventando a multiplicação de escolas cívico-militares, que devem ser chamadas de escolas da bitola estreita.

Houve quem dissesse que elas seguramente garantiriam o surgimento de um, ou mais, golpista, autoritário, pretensioso, salvador, cuja hipótese ilustra bem o tamanho da desgraça que o futuro nos reservaria, como consequência de nossa atuação covarde.

A liberdade de expressão, que tem limites no respeito às pessoas e às instituições, não pode ser garroteada por um espírito de frente unida, disciplinada para obedecer pessoas despreparadas na gestão de pessoas, e que escondem sob o vozerio autoritário a fraqueza de não saber e não poder, pela estreiteza da bitola fomentar os espíritos daqueles jovens, o criativo silêncio da explosão do encontro com o novo, a abstração das invenções, num ambiente de convívio democrático, que pressupõe diferenças.

O crescimento da pessoa como patriota, democrata, criativa, amante de seu país e defensora dele, não passa pelo trilho da bitola estreita da educação.

A rigor, os democratas e os patriotas devem recuperar a dignidade da Escola Pública, com recursos adequados ao melhor trabalho, pagando seus professores, ao invés de abrir frente de trabalho para quem não é do ramo, neste Brasil que precisa de teóricos de sua realidade objetiva, para alcançar sua redenção e sua soberania.

Não é possível admitir escola cívico-militar para dar trabalho e renda suplementar para quem esteja na reserva. Há muitas outras frentes de trabalho para que eles, dignamente, aproveitem sua experiência, sem causar danos, como  à frente da segurança pública. E o Rio de Janeiro está precisando desvendar seu enigma de criminalidade expansiva.

Nossas Instituições precisam ser invadidas pela teoria e pela prática democráticas, superando os dogmas ideológicos que alimentam a mediocridade nacional, colocando-nos aos pés de interesses geopolíticos e econômicos que ferem a real necessidade da população.

A Escola Pública prestigiada com recursos necessários e professores estimulados e valorizados como devem sê-lo, pois são eles os “Anjos da Guarda” das gerações que despertam. Essa Escola acontecida se afigura como exemplo de espaço democrático, que tanta riqueza ofereceu ao país, é nele que as crianças se socializam na relação com diferentes. A Escola que deveria ser a prioridade das políticas educacionais, que não pressupõem espírito de mercadores naqueles que são responsáveis por elas.

O Brasil com sua herança escravocrata sempre se apresenta como eterna promessa. E os alienados a repetem, admirando com seus olhares fixos, o estrangeiro rico e imperial.

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O enigma do Rio de Janeiro

10 segunda-feira jun 2024

Posted by Feres Sabino in blog

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O então governador Leonel Brizola sempre dizia que o Rio de Janeiro não produzia armas e nem drogas. Elas entravam pelas fronteiras e pelo mar, cuja responsabilidade era das Forças Armadas. É dele também a ordem para que a polícia militar, nas favelas, tratasse o pobre como tratavam os ricos, ou seja, invasão da casa só com mandado judicial.

Só em 6 de novembro de 2023, com duração até 3 de maio 2024, o Presidente Lula autorizou operação coordenada das três armas, com 3.700 militares para fiscalizar e vigiar portos e aeroportos do Rio de Janeiro e São Paulo, Santos, Guarulhos e Galeão, e Lago de Itaipu. Anunciou também a criação de um comitê de ações integradas da segurança pública.

Felizmente, A Aeronáutica, do Exército e da Marinha passaram a atuar em ações de combate à criminalidade nesses locais. Os ministros da Justiça, e o da Defesa, apresentarão plano de modernização de atuação da Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Penal, Exército, Aeronáutica e Marinha, visando melhorar a atuação em portos, aeroportos e fronteiras.

Depois de tanto tempo, lê-se uma providência efetiva, em termos de segurança pública, apesar do curto prazo de sua duração. Mas, honestamente, serve de ponto de referência para um avanço maior, como é necessário que aconteça.

Não há dúvida mais de que o Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa do Brasil, está há muito tempo assaltado pela bandidagem. Há bairros inteiros submetidos à violência de milícias, que exigem taxas da população sobre o consumo do gás, do transporte, do funcionamento do comércio, de loteamentos clandestinos e construções de prédios que desmoronam, e que foram construídos por conta de “rachadinhas” de políticos corruptos. É uma vergonha nacional.

Muitos governadores não resistiram ao assédio permanente do dinheiro fácil e foram cassados, quando houve confluência de interesses, entre a parte boa e a parte podre deles.

De qualquer forma, a bandidagem tem representante em muitos escalões do Estado, como revela a investigação da morte da vereadora Marielle e seu motorista, investigação boicotada, frustrada, e recuperada em seu rumo pela Polícia Federal. Mas durante anos, houve troca de delegados, troca de promotores, contratação de advogado e investigadores para desviarem a investigação.

O Rio de Janeiro é uma cidade que reúne em seu território guarnições significativas das nossas Forças Armadas. Assim o Exército, assim a Marinha e assim a Aeronáutica. As três armas possuem seu setor de inteligência. Temos o setor de inteligência da Marinha, o setor de inteligência da Aeronáutica, o setor de inteligência do Exército. Creio ter cada uma um setor de polícia. Ainda temos a inteligência da polícia civil e a da militar. Há exagero de inteligência desperdiçada. Por isso não é possível a bandidagem passar ao largo de uma, ao largo de outra, ao largo de outra, sem que seja percebida por nenhuma, ou que seja ignorada por todas, apesar da desfaçatez pública com que a bandidagem se apresenta. É justamente sobre o setor de inteligência que a Agência Pública veicula agora, em seu site o que nos envergonha ainda mais: “A AGÊNCIA Pública descobriu que informes, relatórios e outros documentos de inteligência, produzidos pelos interventores militares, no Rio de Janeiro em 2018, não existem nos arquivos públicos, e que nem mesmo as autoridades parecem saber totalmente o que foi descoberto à época”. Fica a pergunta ainda sem resposta; “…o que os militares descobriram sobre esse crime (Marielle), sobre grupos milicianos e sobre outras facções criminosas que operam no estado?”.

Onde está realmente a inteligência de nossos setores civis e militares que não chegam a lugar algum nessa violência que pode ser equiparada a uma guerra civil oculta? Não é preciso dizer que necessitamos de militares e de suas instituições, fortes o suficiente, não para dar golpe nelas, mas para defender a democracia, a longa fronteira seca do Brasil, nosso mar, nossos rios e florestas, nossa segurança.

Para isso procura-se um brasileiro, militar ou civil, competente, honesto, democrata e patriota, consciente, com grupo organizado, preparado ética, moral e tecnicamente para enfrentar efetivamente essa bandidagem, que ofende os principais elementares da convivência social, agride a legitimidade de nossas instituições, ofende a solidariedade federativa e a soberania nacional.

Tantos militares se dedicam tanto a combater o que não existe como o “comunismo”, aliás já está até fora de moda, que a reaquisição da racionalidade, somada ao aprofundamento da realidade local e nacional, poderia dar um sentido de força à democracia, que tantos ameaçam, aproveitando-se dos direitos e vantagens que ela própria, democracia, lhes destinam.

E existe a prática do boicote da política de segurança pública para, desta vez, não dar ao Presidente Lula, hoje cercado politicamente pela extrema-direita, o crédito de que sua política representa a racionalidade dos racionais e com sucesso.

O Rio de Janeiro oferece verdadeiro enigma, com a paralização de instituições que dizem não ser delas a competência constitucional para tal atuação, quando a legitimidade de todas está sendo corroída, diariamente e há anos.

O Rio de Janeiro tem o mérito negativo, ou melhor, demérito histórico de ter exportado sua violência, até o centro do poder político brasileiro.

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