Atualmente, ocupo parte de meu tempo ouvindo palestras ou entrevista s sobre geopolítica, inicialmente, com Pepe Escobar, esse jornalista brasileiro de cultura admirável, enriquecida pela experiência de mais de trinta anos na Europa e na Ásia, Eurásia. Recentemente, nem sei por que e nem como, apareceram na minha tela do YouTube, as entrevistas feitas por Pascal Lottaz, suíço, professor em Tóquio, que preside os “Estudos de Neutralidade”, com interrogações inteligentes de historiadores, cientistas, políticos aposentados, políticos na ativa, embaixadores aposentados, militares, jornalistas de diferentes nacionalidades, por exemplo, Noruega, Espanha, Rússia, França, Brasil, Estados Unidos, Suíça e outros, que revolvem o passado da Europa e do mundo, para contribuir com a compreensão da realidade desordenada do hoje.

Pode-se dizer que a guerra, na Ucrânia, guerra de procuração outorgada pelos Estados Unidos, à OTAN, tem como antecedente intensa propaganda de hostilidade à Rússia, acrescentada ao ressentimento deixado pela União Soviética, o que intoxica o diálogo da paz.

Essa propaganda, agravada em 2014, intensificou o martelo do ódio e, de repente, não mais que de repente, a nova administração norte-americana altera sua política, lançando a Europa na casa da irrelevância, inverte o papel de atacante disfarçado atrás das linhas, para tentar acabar com a guerra, que tanto estimulara, causando a maior confusão mental e política aos seus parceiros, que, na verdade, são os vassalos europeus, que se conscientizaram, de repente, do papel indigno que assumiram, para levar a Europa à situação de grave crise econômica, com o direito de gritar esperando revivência de grandeza histórica perdida.

A Paz, que traz o pressuposto de consenso, está ameaçada até por sabotagem de quem se encontra excluído do banquete da discussão, proposto pelos Estados Unidos à Rússia, para reinserção da Paz na gramática política do mundo.

É atribuído à Napoleão – ninguém conquistará o mundo e o dominará, sem que se submeta à colossal da Rússia. Assim, pode-se dizer que ela constitui o histórico “objeto de desejo” de muitos países. Afinal, seu território além de imenso, é riquíssimo em tudo que falta aos países desejosos de sua destruição. Torna-se inverossímil assim o argumento de que ela é expansionista, já que nada falta ao seu território imenso com 12 (doze) latitudes, e até com subsolo, inexplorado em sua grande parte.

Uma realidade não narrada como antecedente da guerra foi, a partir de 2015, a proibição da língua russa no território ucraniano, pelas comunidades russas, o que causou um levante generalizado com repressão violenta, sendo que os soldados russos se recusaram a participar dessa violência. Também a Rússia declarou que não aceitaria a expansão da OTAN, prometida antes de que tal expansão não haveria, que colocaria mísseis à porta de sua fronteira, e que não aceitaria a Ucrânia como membro da OTAN, organização militar que deveria ter desaparecido quando naufragou o Pacto de Varsóvia. No entanto, a expansão da OTAN continuou próxima à fronteira russa, ao mesmo tempo em que fazia da Europa um reino de vassalagem.

Essa guerra já era para ter acabado na reunião de Istambul, Turquia, há dois anos, mas o Reino Unido e os Estados Unidos, na última hora, disseram que não haveria acordo nenhum.

Essa fotografia atual traz consigo a consequência de erros ocidentais, que compõem o chamado “efeito bumerangue”, por analista dos “Estudos de Neutralidade”, pois foram tantas as guerras, os conflitos, que hoje se tem a certeza de que o Ocidente sempre precisou de um inimigo.

A América precisa voltar a ser a América, no discurso da soberba imperial, no entanto, seu governo atual reconhece que o mundo não é mais unilateral, e que a política de “guerras eternas”, para alimentar seu complexo “industrial-militar”, não mais pode ser assumida como política exterior do império.

A situação atordoada e patológica dos europeus combate os que procuram analisar as razões e as consequências nefastas da guerra, taxando-os russófilos, aliás, como aqui no Brasil, quando se faz a análise crítica do governo anterior, encontra-se o grito inconsciente e gratuito de “comunista”.

O estranho é que a elite europeia, mesmo assistindo a seus países caírem na inflação, terem suas economias comprometidas, suas indústrias em estágio de perigo de retrocesso, repeliu o gás da Rússia, para pagar muito mais caro comprando-o dos americanos, ainda assim querem continuar a guerra impossível de ser vencida.

A liderança europeia foi emprenhada pela propaganda do ódio e pela proposta guerreira, para, de repente, terem consciência do desprezo dos seus senhores por ela. A inimiga histórica precisa ser amiga. E nós, incautos, quase idiotas, não aprendemos que entre países o que importa são os interesses econômicos e as políticas nacionais de redenção.

De tantas lições para pensarmos muito, fica a afirmação da professora da República da Macedônia, que a compreensão da realidade atual do mundo de hoje não será encontrada nos livros, mas sim construída no debate de tantas ideias e experiências ventiladas mundialmente pelos “Estudos de Neutralidade”.

O melhor da geopolítica é que compreendemos melhor a política nacional, as pressões que sofremos e a necessidade de um “projeto de nação” para melhor nos situar no jogo universal das grandes potências.