Ele disse mais de uma vez que não é produtor musical. Falo do Sérgio Adas. Mas os amigos que ele fez na Holanda não acreditaram quando ele declinou, se esquivando pela primeira vez da nobre profissão. No entanto, ele prepara, ele articula, ele escreve, ele fala, como que deixando um exemplo de sua atuação competente, que se aposenta precocemente, sob ruidosos protestos.

E dessa vez foi a vez de exímio pianista holandês, que mandou as partituras, via e-mail, para que ele, Sérgio, escolhesse um exímio baterista e um exímio contrabaixista, para acompanhá-lo, com um piano designado, que só foi encontrado como propriedade de um pianista, na cidade de São Carlos.

Apesar desse disfarce provisório e final, a competência de produtor musical, lançou o convite, em nome de Mike del Ferro, célebre pianista de Amsterdã (Países Baixos), internacionalmente conhecido. Nele está indicada a dupla brasileira e ribeirão-pretana, Carlito Rodrigues (contrabaixo acústico) e Dudu Lazarini (bateria), que o acompanhou, “tocando jazz, música contemporânea e influências brasileiras”, ali no aconchego do Restaurante Toscana, que se prestou à exibição sonora do trio. No final o mérito indistinto, de cada um na sua, os três fraternalmente desapareciam na maravilhosa harmonia musical, da qual não escapou a de Tom Jobim “Chovendo na Roseira”.

A apresentação ficou maravilhosa com “um profundo apreço à improvisação e ao ecletismo musical”, sendo que o pianista tocou inclusive músicas suas.

A homenagem feita naturalmente na noite de duas horas acontecia no final de cada tempo musical, quando se perguntava se os três eram brasileiros ou se os três eram holandeses, pois era incrível como seus instrumentos construíam o êxtase que não tem limite, nem material, nem imaterial, impossível imaginar fronteira territorial por causa da música.

A música celebrada por um trio como esse lembra a obra humana, sempre coletiva, sempre mais de um e de muitos, colocando o corpo e a alma do ouvinte na trilha do desconhecido amorável, desejoso, ansiando pelo sem-fim do infinito.

A música constitui formidável descoberta para oxigenar o ambiente, despertar os sentimentos mais puros da alma humana, apronta para as juras de amor, faz com que os desconhecidos se tratem como amigos, estimula a vontade de cada um ser irmão ou irmã do outro, descobrem que no ruidoso mundo de hoje o abraço da fraternidade não está arquivado e que a paz não está morta.

A música é um isolante da maldade, apesar de o Sérgio Adas não ser produtor musical. Imagine se fosse!