O Padre Júlio Renato Lancellotti (27/12/48-SP), um dos maiores influenciadores do catolicismo brasileiro, com mais de dois milhões de seguidores, recebeu o decreto de proibição de suas missas veiculadas pela internet. A autoridade sancionadora foi o Arcebispo de São Paulo, quiçá pressionada pela extrema-direita, que jamais aceitou o trabalho efetivo do Padre, em favor da sua bíblica “opção preferencial”, envolta nos moradores de rua, drogados e na pobreza em geral. Ação apostólica rigorosamente praticando a essência da doutrina cristã, na qual a humildade fala da humildade e à humildade, encanta a coragem moral e celebra a sua força expansiva da irmandade de um só Pai.
Esse ato punitivo, cujas razões não foram publicadas, tem sua natureza ligada à perseguida e enxotada “teologia da libertação”, que marcou o grande retrocesso histórico, social e religioso, do que era a palavra redentora dos povos subdesenvolvidos.
Esse retrocesso segue de encontro à experiência de Celso Ibson de Sylos, ex-Diretor do Diário de Notícias de Ribeirão Preto, que pertencia à Arquidiocese, depois ligado ao Sindicato de Jornalistas de São Paulo, à época da liderança de Audálio Dantas, e depois assessor da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros, pois, há mais de 60 anos, Celso dizia até angustiado — “A Igreja precisa de uma televisão”, pois a propagação de fé com esse instrumento alcançaria milhões de pessoas, simultaneamente. E, agora, depois de quase sessenta anos, autoridade da Igreja restringe a ação apostólica do maior influenciador católico, caracterizando autêntica perseguição dos que se dedicam à bíblica “opção preferencial” dos desfavorecidos e dos pobres. Como se não houvesse, religiosamente, a disseminação da doutrina e da fé católicas.
Muitos próceres da Santa Madre não compreenderam – ou temem – a força explosiva de sua cartilha, que despreza as armas, fincando só e tão somente na pregação iluminada de sua palavra, e com ela conquistando as consciências, com a sonora síntese – “A Cesar o que é de Cesar, a Deus é o que é de Deus”, que provocou a ruína do império romano.
Criar limites à pregação da igualdade e à justiça social é o mesmo que homenagear a injustiça e a desigualdade, consagrando-as. E retirar o maior comunicador do catolicismo do universo ilimitado da comunicação é o mesmo que retroceder ao tempo em que os crédulos sonhavam com um “púlpito-universal” para anunciar a grande Boa Nova.
Só falta o retorno à celebração do latim, para que o povo, que não compreende esse ato de punição aplicada ao Padre Lancellotti, também não compreendesse nada da santa missa.
A Igreja, que no Concílio Vaticano II, teve um inesquecível pedido de perdão público pelas incompreensões históricas, em relação aos avanços científicos, seguramente não alberga em seus ensinamentos razão alguma para essa restrição à propagação simultânea da fé, para milhões de pessoas.
A Igreja precisa incorporar a coragem moral e religiosa deixada, como legado, na morte acontecida nas arenas romanas, e colocá-la em prática para saber enfrentar os poderosos dos dias.
A propósito, Celso Ibson de Sylos em depoimento ao Museu da Imagem e do Som de Batatais, em 1990, contou que fora enviado à Europa pelo arcebispo Dom Luís do Amaral Mousinho, para estudar Sindicalização Rural, e que, no leito da morte, ele recomendou que continuasse no trabalho da sindicalização, “com a Igreja, apesar da Igreja ou contra a Igreja”.