Seguramente, a escolha foi um equívoco inadvertido. O pastor Malafaia, convertido em eficiente agente político da extrema-direita, cuja missão nesse mundo terráqueo é retirar, para seus adeptos, os obstáculos imaginários da trilha íngreme do Céu, escolheu o pastor Sóstenes para ser deputado federal, como sua voz, incumbindo-o de ser o virtuoso que venceria os corruptos de todo gênero. Sóstenes, por exemplo, liderou a vergonhosa derrota da PEC da Segurança Pública apresentada pelo governo para tornar mais eficiente o combate às organizações criminosas. Ficou claro o desconforto em aprovar tal Projeto, pois muitos deputados e senadores são alvo da Polícia Federal, que está apurando o vestígio de crime nos gabinetes desses usufrutuários dos bilhões das emendas parlamentares. Eles queriam garrotear a incômoda e atuante Polícia Federal.

O incompreendido Sóstenes é líder na Câmara do Partido Libertador, o PL. Diz-se que é o partido político de maior bancada na Câmara Federal.

A frequência verbal de Sóstenes é a da moral pública, em razão da qual todos, ou quase todos que não são de seu time, ou próximos a ele, constituem seres desprezíveis, indignos, corruptos, que não podem sentar-se à mesa do Senhor, que exige limpeza de alma e de espírito.

Sóstenes fala com tal convicção, como se ele acreditasse no que fala, pensando em ser o anjo designado para salvar as almas dos crentes, se possível com a transferência do patrimônio deles para a igreja, ou simplesmente conduzindo sua boa-fé. Ele faz com que muitos acreditem que Jesus foi contratado para ser propagandista de slogans moralistas que tanto mal fazem à saúde corporal e moral, e quase sempre material, das pessoas que simplesmente acreditam.

Sóstenes tanto “berrou” aos ventos sobre a corrupção dos outros, sem provas, que esses mesmos ventos levaram a Polícia Federal ao seu santuário, digo, ao seu apartamento, exatamente naquele armário…

Viu-se dentro do armário. Lá não foram encontradas as barrinhas de ouro que seus iguais, os pastores frequentadores do Ministério da Saúde, no tempo do estrategista militar Pazuello, hoje escondido na Câmara Federal. Essas barrinhas, exigidas pelos pastores do comércio clandestino, eram o preço das audiências que eles conseguiriam para os Prefeitos chegarem ao ex-Presidente da República.

Ali, naquele armário, a Polícia Federal se deparou com um “saco de lixo”, provavelmente aquele saco de 100 quilos, que guardavam, “abandonadas ali”, notas agrupadas e divididas em valores cujo total atingia aproximadamente quinhentos mil Reais. Uma fortuna num saco de lixo!

Sóstenes, o virtuoso, explicou a venda de um imóvel que lhe rendera aquele dinheiro, que ficou ali por falta de tempo para levar ao banco e fazer tudo dentro do normal, que é o cumprimento da lei. Afinal, corruptos são os outros!

Não, a versão do virtuoso pastor não bateu com a realidade das coisas. O fato é que ele guardara um dinheiro grande, que ele prometia levar ao banco se não fizesse novo negócio, e tivesse tempo para isso. O virtuoso é sempre muito ocupado com a própria virtude!

O dinheiro, enquanto ele “berrava” que corrupto eram os outros, não lhe sugeriu nenhum argumento óbvio. Só um saco de lixo!

O lixo em geral, para tantos, não representa uma fonte de riquezas, como quando reciclado, como riqueza ele é. O saco de lixo, certamente, para Sóstenes representa a casa de tudo que não presta, de tudo que deve ser rejeitado, de tudo que deve ser jogado naqueles “piscinões da sujeira geral”, para que a natureza, depois de não sei quantos anos ou séculos, desapareça com ele.

O dinheiro de Sóstenes foi colocado no saco de lixo, porque instintivamente, sabendo de sua origem eticamente podre, pois, para ele, o saco deve ser o destino de tudo que deve ser rejeitado, material malcheiroso e desprezível, um tal de sai-pra-lá-não-me-emporcalhe.

Por isso, eu não sei por que Sóstenes é considerado um corrupto, pregador da palavra do Senhor, e que escolheu um saco de lixo, que só não recebeu sua alma degradada porque o dinheiro era muito. Sóstenes corre o risco de queimar no inferno.