Não constitui agressão à língua portuguesa um livro que descreve restaurantes, mesas, bebidas, vinhos e acompanhantes, e que seja definido como sendo de leitura saborosa, porque fluente, porque episódica, porque riquíssima nas possibilidades de criação que sugere.

Esse é o livro que está na praça, de autoria do Ministro aposentado do Superior Tribunal Militar, Flavio Flores da Cunha Bierrenbach, sob o título O lado Bom da Vida: Memorial Gastroetílico (Rota Cultural, 2025), que sob o pretexto de cada restaurante visitado no Brasil e no mundo, já fechado ou ainda aberto, e sua respectiva culinária, tornou-se um pequeno espaço para se falar inclusive dos países para os quais o Ministro viajou para conhecer lugares, pessoas, cultura, arte, sua história, geografia, língua, instituições e seus heróis. Essa culinária, e as suas circunstâncias, cujas características ficaram impressas em anotações guardadas e completadas por uma memória incrível e insuperável, não esmaecida com o passar de mais de oitenta anos, sendo que ainda fornece singelas vertentes para uma bela biografia.

Se a mesa é um símbolo de comunhão, a mesa de um restaurante agrega tantas e tais pessoas que, no ambiente invisível do convívio, há o potencial de entrechoques de biografias possíveis, que não fica difícil escolher aquela que deve ser escrita; com certeza a primeira deve ser de quem teve a ideia de guardar, anotar e escrever, e que certamente encontra algumas facilidades fornecidas pelo próprio texto.

Se menções curtas servem de pistas ao trabalho paciente e garimpeiro do biógrafo, o livro de culinária do Ministro Flavio é rico em episódios e nomes citados, inclusive e particularmente no rodapé, seja porque presentes à mesa, seja porque estiveram ligados ao seu símbolo, que é o da comunhão.

Tal a sacralidade da comunhão, em cujo conceito se encontra a tolerância, a amizade, o respeito, a dignidade que emerge com o passar do tempo, como é o caso do ex-governador Paulo Egídio que, adversário político muito antes, se converteu naquela pessoa que se sentou à mesa, naquela mesa de um restaurante. Igualmente, se registra em relação ao príncipe herdeiro do trono brasileiro, nosso colega da turma de 1964, que seguramente não discutiu as virtudes do Império com aquele republicano de vida pública alongada por mandatos parlamentares e pela ocupação da cadeira de magistrado, no Superior Tribunal Militar. Outro exemplo mencionado no rodapé, após indicação de cada nome, é o do chamado “Jardim da Infância”, se comparado com a idade do Ministro, e que o conheceram quando estudantes das Arcadas, aprendendo as trovas acadêmicas com ele, e com ele apreendendo a prática da Esperança de uma Escola tão brilhante e iluminada quanto o seu passado de glórias, quanto de paz e justiça para o nosso país e para o mundo. Herdaram o dever atuante da Associação dos Antigos Alunos.

A prosa em cada mesa de cada restaurante, mas especialmente a do Santo Colomba, serviu de motivação para que a experiência do Flavio, que é riquíssima, fosse animada pela comunicação de atos e pessoas que lhe serviram para melhor compreender o enigma da vida.

Além do Bom, o Melhor da Vida, porém, é ter a consciência de que a construção de seu passado foi e é feita com dignidade, de tal maneira que possa contar, sorrindo, à mesa de qualquer restaurante, como em qualquer esquina do mundo e da vida.

Não se esquece nesse final de registrar que a abertura do livro conta com a palavra de José Carlos Dias, defensor dos direitos humanos, bandeira tão cara na vida do Ministro Flavio, fazendo-o parceiro de mesmas trincheiras, durante toda a vida. Ponto digno de lembrar é que à mesa do Circolo Italiano o trio, José Carlos Dias, Flavio Bierrenbach e Almino Affonso, fizeram o parto da Carta aos Brasileiros, com a redação final do prof. Goffredo da Silva Telles, e lida no Jardim de Pedras da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, que colocou a pá de cal na ditadura.

Finalmente, há uma lembrança histórica, no denso rodapé. O Papa Pio XII, consagrado em 1939, foi Núncio Apostólico no Brasil.