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Feres Sabino

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Feres Sabino

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Discurso na Academia

13 segunda-feira fev 2023

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No dia 9 de fevereiro, na solenidade de posse na ACADEMIA DE LETRAS, CIÊNCIAS E ARTES DA ASSOCIAÇÃO DOS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS DO ESTADO DE SÃO PAULO, pronunciou-se o seguinte discurso:

A Academia de Letras, Ciências e Artes da Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo é o seu berço criativo, como centro de inspiração poética, de inspiração literária, cenáculo do silêncio, pesquisador da ciência, e hábitat das mãos inspiradas da música ordenadora de notas e sons, ou da arquitetura das estátuas e dos objetos.

Assim como o Conselho Deliberativo e os demais Conselhos praticam o exercício prioritário das fiscalizações dos negócios internos, essa singela e forte prática nos prepara para a fiscalização dos negócios públicos, nossa Academia, por sua vez, estende o mesmo braço de solidariedade associativa, como ensinamento do convívio social pacífico e respeitoso, encaixado na experiência da democracia sempre inacabada.

Honra-me falar pela representação que ora me designam.

Essa Academia trazendo para o seu seio ora a sensibilidade poética, ora o dono da prosa fluente, ora o pesquisador do silêncio exigido pela ciência, ora as mãos iluminadas que imprimem na pintura a natureza ou as paixões humanas, ora a coordenação das notas e dos sons da música, tem – essa Academia – a expectativa real de que o lugar de cada um se converte em campo de observação e percepção do país, com seu passivo social e suas desigualdades históricas, ora em reconstrução; e tem – essa Academia – a expectativa de que cada um capture, para construir sua superação, a tristeza e os sofrimentos do mundo, turbilhonado pelas injustiças e pelas guerras.

Afinal, nossa época converteu o mundo em uma aldeia, sentida na sua globalidade pela alma que chora, ri e espera com toda esperança na poesia: percebida – essa aldeia – pelo espírito fluente da prosa que interroga seu tempo; percebida – essa aldeia – pelos que debruçam a alma e o espírito, garimpando na ciência sua verdade; percebida – essa aldeia – nas mãos impressoras do instante do artista ou da música, como esperanto da arte.

Esse dever de solidariedade, que nasce pelo reconhecimento do outro, emerge mais forte como autodefesa, contra o individualismo desenfreado e neoliberal, que sorrateiramente conspira contra nossa humanidade de iguais.

Academia, campo sagrado de poesia, de prosa, de pesquisas sem arrogância, porque nunca na ciência o passo do compasso é definitivo, cada sucesso é sempre uma aproximação, sempre uma verdade provisória, no vagar da criatividade.

Entretanto, nossa Academia também traz o enigma saudável da convivência leal e nos ensina a lição da amizade e do companheirismo associativo, inspiração preambular do convívio democrático.

Como uma aldeia que é o mundo, somos cidadãos ou cidadãs dele, com o dever patriótico de cuidarmos e preservarmos nossa identidade e nosso sentimento de nação, enfrentando as questões da paz e da guerra, da justiça e da injustiça, da diversidade e das desigualdades sociais, com espírito crítico marcado pela altivez e pelo respeito.

Espero que cada instante nosso, na poesia, na prosa, na ciência, na pintura e na música, na arquitetura dos objetos, projete-se como oração de tolerância e de paz, no coração do homem, no coração da mulher, no coração da criança.

É o que penso. É o que digo.

Feres Sabino

Auditório da AFPESP – 9/2/2023

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Da glória negra

06 segunda-feira fev 2023

Posted by Feres Sabino in blog

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Nunca imaginei, relembrando o quanto a via na televisão, que, um dia, choraria por ela. Sim, a morte comove, independentemente de quem ela escolha e leve. Até a do adversário político merece respeito, pois deixa o espaço vazio, aquele mesmo que era o símbolo de sua trincheira, mesmo que dedicada ao fisiologismo. Afinal, ele morre, não leva consigo tudo que dedicou à matéria, e nos recorda que logo teremos vereda igual, sem nada levar, como é condição essencial desse anjo que aterroriza muitos. A morte dela, no entanto, está na sede daquelas pessoas especiais, que jorram humanidade em qualquer momento da vida, e quando chega a hora fatal e final há uma suave certeza de que ela foi convocada para novas missões.

A morte não deixa levar, mas não pode influir no que se deixa. É aqui que a pessoa cresce com a projeção de seu mérito, de seu trabalho, de seu esforço e da cor da sua pele.

Glória Maria, toda reconstruída por centenas de depoimentos, nos revela a sua importância no trabalho da televisão, repleto de naturalidade, que foi das entrevistas pessoais e famosas, nacionais e internacionais, até a guerra, como a das Malvinas.

Venceu, no seu espaço, a massa viscosa e cruel do preconceito racial, que não fica emancipado com a sua vida ou a do Pelé, mas denunciam a sua existência enraizada culturalmente, a ponto de fazer com que alguns negros não tolerem negros.

O nome dela é Glória Maria, que o Brasil genuflexo celebra sua trajetória, reconhecendo seu valor pessoal dedicado ao pioneirismo da afirmação social e racial.

Prendo-me ao trabalho jornalístico assinado pela jornalista Cristina Padiglione, na Ilustrada da Folha de S.Paulo do dia 3 p.p. Dele se pode retirar episódios do racismo declarado, que intoxica a vida política e cultural do país, como projeção real e concreta da escravidão, que vigorou em nossa história social por 300 anos, e do qual não conseguimos nos libertar.

Está nesse texto a presença de Glória Maria, como acompanhante do filho caçula de Roberto Marinho, José Roberto Marinho, de quem foi namorada, e com quem morou, quando jovem. Eles foram ao evento do Country Club. “Era o clube inteiro olhando para aquela mesa… Eu me sentia como um macaco no zoológico, todo mundo ali, esperando a hora para dar uma banana”, confirmou ela o episódio, no programa de Pedro Bial.

Não é exagero registrar essa mentalidade colonizadora das elites brasileiras, que não compreendem a importância histórica da contribuição cultural africana em nosso dia a dia. É a culinária, é a música embelezada e esfuziante, são as artes, a literatura, o campo universitário, o esporte.

Essa mentalidade colonizadora é coerente no seu absurdo, porque tem a consciência e a visão voltadas para o exterior, não querendo compreender a riqueza e a diversidade nacional, para compor uma verdadeira democracia racial, não se escondendo no artifício do “branqueamento”, cujo surgimento só revela o preconceito de não querer ter preconceito, mas até nisso sem convicção. Essa subordinação aos interesses econômicos e estratégicos estrangeiros, elite para elite, impede que o Brasil tenha seu projeto de desenvolvimento, assuma sua história com a confluência do indígena, do branco e do negro, e depois com tantas etnias compondo nossa formação.

E, quando se fala em elite colonizadora, não se pode esquecer da militar, que tem sua contribuição na vida de Glória Maria, em desprezo pronunciado pelo General João Figueiredo, que a chamava de “negrinha”. E segue: “Quando ele foi indicado, a gente foi fazer a famosa fala dele na Vila Militar em que ele dizia ‘para defender a democracia, eu bato, prendo e arrebento’”.

Glória Maria, a democracia resistiu, recentemente, à violência da barbárie, mas seu pioneirismo continua vitorioso e iluminando o mesmo palco das diferenças sociais, políticas e culturais, e até as mesmas bestas que não sabem vê-las e combatê-las com altivez.

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A encalacrada cúpula do MPF

30 segunda-feira jan 2023

Posted by Feres Sabino in blog

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O governo Bolsonaro, no dia a dia de seu mandato, desde a liberação das armas, até o anúncio arrogante de que não cumpriria nada do que decidira o Supremo Tribunal Federal, até o achincalhe pessoal de ministros, já repetia sua personalidade autoritária, revelada em mais de trinta anos de mandato federal. A ida afrontosa, e ilegal, para encontrar e estimular manifestantes à porta do quartel, até discursando ali. A visita afrontosa ao acampamento da mineração ilícita e ilegal, em terras indígenas. A negativa da eficiência das vacinas, desacreditando o sistema vacinal do país, que era exemplar. A ameaça reiterada do que aconteceria aqui, se o voto impresso não fosse aprovado. O padrão da prometida barbárie anunciada era o que acontecera lá nos Estados Unidos quando a “manada” atacou o Congresso norte-americano. Arrastar os comandantes das Forças Armadas à fabricação de cloroquina, e ainda fazê-las auditar ilegalmente as eleições, e impedir que declarassem o rigor do resultado, deixando aquela dúvida, parceira da fabricação do descrédito. E o silêncio estridente, depois da eleição, à espera do grande dia, que se consumou no dia 8 de janeiro, como pior do que nos Estados Unidos. E finalmente a descoberta do decreto, papel timbrado, declarando o Estado de Defesa tão logo a “baderna” obtivesse sucesso. Tudo isso e muito mais, não pode ser qualificado como atos preparatórios de um decreto prontinho para ser publicado?

Esse decreto deve ser analisado, ligando-o à cadeia de tantos atos e fatos anteriores que envergonham o país, porque conspiratórios contra a democracia incipiente que queremos e podemos construir. O decreto prontinho para instaurar o Estado de Defesa no TSE, anular as eleições, e que a Polícia Federal encontrou na casa do ex-Secretário da Justiça e ex-Ministro da Justiça do governo anterior, é prova material indiscutível.

O então presidente, desde o primeiro dia de seu mandato, atacou a Constituição, porque não aceitava limites legais à sua arrogância autoritária. Violou tantos e tantos artigos da legislação infraconstitucional, e repetidas vezes atacou a Constituição que civis em função pública e militares juram cumprir. Tantas e tais violações que serviram de base à apresentação de mais de cem pedidos de impeachment junto ao Presidente da Câmara Federal.

Entretanto, o assunto é o tal decreto que, prontinho, até escrito em papel timbrado, só aguardava o acontecimento máximo do ataque terrorista à sede dos Poderes da República, para então ser publicado, e finalmente o ex-Presidente ou outro qualquer que estivesse de plantão assumisse o Poder, em nome da ala podre dos militares.

A grande encalacrada em que se encontra, especialmente a cúpula do Ministério Público Federal, é dada pela inércia continuada, diante do que o ex-presidente falava e fazia.

Uma hipótese. Se houvesse renúncia do Procurador-Geral atual, e outro assumisse a função e o cargo, o novo poderia elencar tantos e tantos crimes, em tese, cometidos pelo ex-presidente, revelando com essa atitude inércia calculada anterior da sua instituição, que não condiz com a responsabilidade de suas funções?

Ora, se a cadeia de preparação do golpe, que culminaria com a publicação do Decreto do Estado de Defesa, é longa e rica em atos e fatos de exorbitância e abuso, não se pode pretender que um documento que se encaixa cuidadosamente, como parte final do golpe, possa ser considerado isoladamente.

O Decreto prontinho, prova irrefutável, não pode ser considerado um documento solitário, desligado, perdido no ar, e a cúpula do Ministério Público Federal não pode considerá-lo como um documento coincidente com uma cadeia de atos precedente e públicos, que sempre pregaram a intervenção militar, o descredito dos Poderes da República e o instrumento formal que a democracia oferece, para sua própria revitalização, que são a urna secreta e o voto.

Entretanto, não é somente a cúpula do MPF que está encalacrada, já que a verdade emergiu, para vergonha de todos nós.

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