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Feres Sabino

~ advogado

Feres Sabino

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Discurso na Academia

21 segunda-feira nov 2022

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≈ 1 comentário

Senhor Presidente

Waldomiro W. Peixoto

Senhores, Senhoras.

Amigos do Rui Flávio, amigos nossos.

RUI FLÁVIO CHÚFALO GUIÃO, familiares.

“Somos a memória do outro”.

A tecnologia das redes sociais, esse instrumento do gênio da humanidade, tem tido o efeito perverso de querer corroer, incansavelmente, as relações humanas. Não querem se apropriar simplesmente delas, pretendem retirar delas aquela afetividade ou simpatia, que aproximam as pessoas. Indiretamente, é o culto do Ser despido de humanidade, despido de solidariedade.

A linguagem utilizada é sempre a da concisão, alheia a qualquer pensamento crítico ou criativo. É a notícia pela notícia, quando ela não é a notícia falsa. O passado não mais oferece um parâmetro pesquisado e concluído como ocorrência de atos e fatos, mas tudo fica sujeito ao liquidificador da especulação destrutiva de múltiplas interpretações, ou de negações peremptórias de evidências e de atos e fatos.

O melhor ensinamento – conforme opinião conjunta com Sérgio Roxo da Fonseca e Cezar Augusto Batista – para essa ameaça da síntese-destorcida da informação é extraído do livro “A morte da verdade: notas sobre a mentira na era Trump”, de Michiko Kakutani, Editora Intrínseca, 2018, no capítulo “Apropriação da linguagem”, quando retira e assume do livro de Victor Klemperer, “A linguagem do Terceiro Reich”, que ela “penetrava a carne e o sangue do povo”, por meio de expressões idiomáticas e estrutura de frases que foram impostas a eles em um milhão de repetições e internalizadas de forma mecânica”. E também um alerta tão desconcertante, quanto “1984″, de Orwell, “para outros países ou gerações sobre o quão rápida e insidiosamente um autocrata pode usar a linguagem como arma para suprimir o pensamento crítico, inflamar a intolerância e sequestrar uma democracia”.

É como se o vazio dos espaços de convivência pudesse invadir a humanidade das pessoas. E não o contrário.

Com essa inquietação existencial, procuro o conteúdo do universo, da Terra e neles das pessoas, na arqueologia do pesquisador franciscano, católico e francês, Padre Teilhard de Chardin (01/05/1881 a 10/04/1955), cuja sabedoria revelou a energia movedora de tudo que vemos e pensamos e somos: a energia do Amor.

Entenda-se que não é o Amor da descarga domingueira. Não. É, sim, o Amor fervilhante das catacumbas, que derrubou império com a assunção democrática da lição “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Essa mesma energia que nos faz semelhante uns aos outros.

O desenho pessoal dessa hipótese cientifica é de círculos concêntricos. E nela a relação de Amizade ocupa, quem sabe, o terceiro círculo concêntrico, com mínima diferença de energia em relação à fonte, trazendo seu atributo vertebral que é a lealdade e a fidelidade.

Bendigo a energia nascida da fonte do Amor, que se chama Amizade. Até porque, somos a memória do outro.

Nesta solenidade a força que me impele não é só a da Amizade, mas é ela, sim, cercada e assumida pelo espírito crítico do justo, com o esforço heroico da imparcialidade.

Eis a fonte da qual me socorro para falar de Rui Flávio Chúfalo Guião, advogado, empresário, vocação de historiador, que logo no início de sua idade adulta encontrou a mulher de sua vida, Cecília de Barros Cruz Guião, plural que se converte em singular, em cada filho ou filha.

Conhecemo-nos no antigo Ginásio do Estado, depois Instituto de Educação “Otoniel Mota”. Ele, intelectualmente disciplinado, colocava-se sempre – e com naturalidade – no primeiro ou segundo lugar, com as notas do aproveitamento das matérias. Estudante organizado, disciplinado. Seu perfil era de quem cuidava dos estudos sempre com dedicação. Humana, intelectual e culturalmente, o pai, João Palma Guião e sua mãe, Nair Chúfalo Guião, lhe propiciaram, além dos valores éticos e morais da família, a preparação cívica e social, que permitiria ao filho ocupar no seio da sociedade qualquer lugar de responsabilidade que o destino lhe reservasse.

No tempo colegial, participou da política estudantil, inclusive como Diretor do Departamento de Cultura do Centro Nacionalista Olavo Bilac, onde seu legado está descrito no primoroso relatório de atividades, que está no arquivo da escola e do tempo. Primoroso, sim, não só pela forma.

Na Faculdade de Direito da USP, lá do Largo de São Francisco, compartilhamos a mesma moradia durante o tempo de estudo universitário.

Fizemos política juntos. E nem por isso deixamos de ser diferentes, ora na motivação, ora nos métodos. Mas é dessa convivência duradoura de diferentes que trago a melhor compreensão, consciência e prática do que significa, humana e socialmente, o respeito às diferenças econômicas, sociais, culturais, étnicas, que me colocam atento ao passivo social do Brasil e a sua desigualdade histórica, que nos coloca no ápice mundial desse atraso e dessa vergonha.

Mesmo preparado pela vida estudantil, febril nos tempos em que a vivemos, passou rápido pelo escritório de advocacia do pai, para ingressar no mundo fabuloso da realização empresarial, na qual fez e faz sucesso, que aliás faria em qualquer outra função ou lugar. Claro, revelou-se líder em organismos empresariais, com representação no exterior, inclusive.

Atrasou, nem se sabe o porquê, em ocupar a cadeira da família nessa Academia. Afinal, o avô João Rodrigues Guião é o patrono da Cadeira nº 23, que o pai João Palma Guião ocupou de 03.05.1965 a 07.04.1985. É articulista semanal do jornal Tribuna. A sua temática revela sua cultura geral.

A obra do Rui Flávio Chúfalo Guião documenta traços do final da escravidão no montanhoso Vale do Paraíba e a transferência da sua agricultura para o nordeste do Estado de São Paulo. Por isso o seu livro sobre a sua família, sob o título “Forte Gente“, de 2014, ultrapassa limites, lança as raízes naquele tempo, projetando sua configuração na atualidade.

O compromisso com a linguagem, dentro da qual sonhamos e vivemos, nos impõe, no tempo presente, o mais forte vínculo com a realidade, examinando-a sempre com o imperativo do espírito crítico. Só com a conquista dessa consciência crítica é que se contribui para se avaliar o que é falso (fake News) nessa inundação de informações que ataca qualquer pessoa, criança ou adulta, no dia a dia de cada uma.

Meus amigos, Rui Flávio, para Teilhard de Chardin, “a Criação não é um ato consumado”.

“Somos a memória do outro”.

A Academia Ribeirãopretana de Letras, que em outubro completará 75 anos, é a memória da cidade e do mundo.

Bem-vindo, Rui Flávio Chúfalo Guião.

13 de setembro, 20h.

Dabi Business Park

Rua General Soares dos Santos, 100, Lagoinha, Ribeirão Preto.

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Convite à leitura

18 sexta-feira nov 2022

Posted by Feres Sabino in blog

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Meu primeiro livro DA PALAVRA AO FATO (Círculo das Artes) reúne artigos e discursos do período compreendido entre 1974 e 2004.

Nele a celebração é da palavra que, como ação, constitui a arma e a elegância do advogado e do jornalista. Viver, conviver, convencer, persuadir, amar, pressupõe o vínculo comunicativo da palavra. Reivindicar, orar, lutar, defender direitos e interesses, através da palavra, constitui o elo invisível da aproximação ou da comunhão de todos na sociedade.

Às vezes, a palavra serve à disseminação da falsidade, ou à confusão de conceitos, quando em nome da democracia a liberdade de expressão é usada para destruí-la, no reinado dos impostores. E é com a palavra e pela palavra que eles são desnudados, desventrados, condenados e punidos na infindável caminhada da civilização.

Pode-se dizer que tais artigos e discursos perpassam o tempo da militância da política partidária, o da advocacia, com a participação na política da classe, lê-se Ordem dos Advogados do Brasil, o tempo da Associação dos Advogados, o tempo da Procuradoria Geral do Estado, o tempo da Assessoria Jurídica do Governo, o tempo da Secretaria dos Negócios Jurídicos da Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto, o tempo de Diretor Executivo da Funap (Fundação Manoel Pedro Pimentel), direcionada à ressocialização da pessoa prisioneira, e, finalmente, da Academia Ribeirãopretana de Letras.

Os artigos ou discursos não se sucedem cronologicamente, a sequência é temática.

Convido-o à leitura.

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O mascate da atualidade

14 segunda-feira nov 2022

Posted by Feres Sabino in blog

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Agora, ele quer vender as praias brasileiras. É o ministro da economia, o Paulo Guedes, aluno da Escola neoliberal de Chicago, que esteve muito próximo daquele general Pinochet, lá no Chile, e que se arvora no redentor do Brasil, prometendo salvá-lo e fazê-lo grande, desde que ele seja desossado.

Ele aplica o dinheiro dele, que não é pouco, grande financista, lá no exterior, porque a confiança dele no país periclita mesmo tendo sido ele eleito como posto Ipiranga do governo, centralizando tantas pastas, mas vendo dezenas de colaboradores seus deixá-lo, deixando-o fazer as vezes de frentista do tal posto. O patrimônio público, acumulado em anos de sacrifício do povo brasileiro, esteve e está sob a égide da pressa apressada, para cumprir a missão nada patriótica da alienação rápida, e quando se quer vender rápido já se sabe que o preço é muito menor.

Mesmo quem não é economista sabe que é quase impossível desenvolver-se comercialmente dependendo somente do dinheiro do agiota. Assim mesmo tem acontecido, ente os órgãos dominados pelo império, que favorecem de tempos em tempos o crédito, para ele ser aproveitado sem cautelas mínimas, e eis que de repente a dívida torna-se impagável, descontrola a economia interna, o país devedor não tem em regra condições de sair dessa armadilha, e torna-se vítima de todas as pressões.

Portanto, o nosso mascate da atualidade, defensor e arauto do neoliberalismo autoritário, não concebeu políticas públicas de redenção, para propiciar poupança interna, única capaz de sustentar um desenvolvimento nacional, diz autônomo, não se esquecendo a peculiaridade da conexão forte com o mercado internacional, especialmente com a globalização financeira.

Mas, para se chegar a essa concepção o Estado, livre e soberano, a autoridade sobre seus territórios é insubstituível, não só sobre as praias. E se a agricultura é insuperável, a expansão industrial deve ser razão e fruto dessa expansão.

Mas a responsabilidade de nossas elites, civis, empresariais e militares, parecem ignorar o tamanho e a diversidade de nosso território, com a multiplicidade de problemas, desenhado pela desigualdade social, que gera a contradição do país que pode alimentar o mundo, com a exuberância de sua agricultura, mas é incapaz de matar a fome de sua população.

Se cada brasileiro fizesse uma pergunta, como essa – o que é desigualdade social? – a resposta começaria com nosso histórico e secular passivo social que recusamos assumir para uma autêntica organização de um Estado, incentivador de políticas sociais, com a sociedade civil e a organização do capital e das finanças como esferas complementares e necessárias de um verdadeiro programa de desenvolvimento.

Nós bendizemos o ponto em que chegou o nosso agronegócio. Particularmente, lamenta-se que ele não tenha feito justiça às pesquisas que o levaram ao caminho dessa expansão de autoria dos homens e mulheres da Embrapa, que precisa desse reconhecimento, desse prestígio e dessa valorização, e ainda para que um país corresponda às necessidades de sua reorganização soberana é preciso de indústria, que desde 1980 está emagrecendo, emagrecendo.

O discurso de imposto único, assim como a pregação verborrágica do Estado que precisa ser tirado do cangote do povo, é uma pregação até irresponsável, pois não está instruído pela realidade rica em diversidade de um Brasil imenso, na extensão do território e nas suas riquezas insondáveis, e fundamentalmente nas suas necessidades sociais. No fundo, o debate é entre o chamado Estado mínimo, que não existe no mundo, e o Estado de bem-estar, que no caso do Brasil está celebrado no solidarismo da Constituição de 1988, que está sob ataque permanente do neo-liberalismo.

Assim, a pregação da venda do território nacional, como essa nada original invenção ministerial, faz com que esse país no qual nada falta de luz, água, vento e tudo mais, e que pode alimentar o mundo não consiga alimentar seu povo. Por quê?

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