• Biografia

Feres Sabino

~ advogado

Feres Sabino

Arquivos de Categoria: blog

Jango redivivo

02 segunda-feira jul 2018

Posted by Feres Sabino in blog

≈ Deixe um comentário

Esteve na Feira do Livro e Leitura João Vicente, filho do ex-presidente Jango Goulart, nascido João Belchior Marques Goulart, que foi deposto pelo golpe civil-militar de 1º de abril 1964, quando uma pesquisa de opinião pública da época recentemente revelada conferia a ele o apreço e a legitimidade de mais de 60% da população brasileira.

A presença do filho nessa jornada de redescoberta política do pai, ainda tentando provar que ele morreu de morte matada, como exilado político, pode ser colocada no campo fértil do revisionismo histórico, que confere ao ex-presidente sua importância e respeito na cena política do Brasil como sucessor escolhido da herança social e política de Getúlio Vargas.

Jango teve o mais criativo e o mais competente ministério no provisório governo parlamentarista que foi adotado para que ele pudesse tomar posse como presidente após a renúncia de Jânio Quadros, a qual se seguiu o veto dos três ministros militares ao vice eleito diretamente.

Dentre os participantes daquela constelação ministerial formada no regime parlamentarista, estava Celso Furtado, que formulava com originalidade o subdesenvolvimento brasileiro, e era responsável pelo Plano Trienal, que objetivava a recuperação da economia do país. Esse plano foi contrariado pelos Estados Unidos e até pelas forças de sustentação político-parlamentares do governo. O retorno ao sistema presidencialista aconteceu por força do plebiscito realizado.

Essa oposição ao plano foi, na verdade, o anúncio do continuado cerco interno de forças populares, sempre querendo e indo além, e das forças não populares agregadas aos interesses econômicos, estratégicos e ideológicos norte-americanos, que acabaram por colocar o presidente em um isolamento político, sepultando as chamadas “reformas de bases” e a lei de remessa de lucros, que ousaria auditar as contas das multinacionais, até hoje sãs e salvas. Sua presença na assembleia dos marinheiros, inflada pelo agente provocador cabo Anselmo, da agência de inteligência norte-americana, deu o toque final à quebra da hierarquia militar, que foi fatal.

O discurso radicalizado (“reforma agrária na lei ou na marra”) era ameaçador e alimentou o golpe que sombreou, quando não ensanguentou, o país por vinte anos.

Na preparação dessa quebra violenta da ordem institucional, múltiplos foram os atores. Merecem referência dois núcleos formados juridicamente. Um deles é o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), cuja finalidade era preparar a ingovernabilidade do país elegendo deputados federais. Com dinheiro estrangeiro e de empresários nacionais, esse instituto pagou as despesas eleitorais de 300 deputados, elegendo 160. O IBAD foi objeto de investigação, por meio de comissão parlamentar de inquérito, presidida sucessivamente por Rubem Paiva e Ulysses Guimarães, e acabou por ser fechado pela justiça. O outro núcleo da preparação do golpe foi o Instituto de Pesquisas Sociais (IPES). Ambos foram de fato regidos pelo então coronel Golbery do Couto e Silva, que capturou as agências de comunicação de massa, enviando material preparado por especialistas, que potencializavam o terror do perigo comunista e a metátese da corrupção.

Com essa orquestração interna e internacional, hoje documentalmente comprovada, a figura de Jango, cuja vocação era marcadamente conciliadora, cresce. Ele não quer derramamento de sangue com eventual guerra civil. E aparece vencida a liderança hábil, conciliadora, progressista e democrática que as classes conservadoras tinham como suspeita, desde quando ele fora ministro do Trabalho em 1963 e abriu as portas do Ministério aos trabalhadores. Que escândalo! Trabalhadores no Ministério do Trabalho. Sua demissão foi depois de ter conseguido dobrar em 100% o valor do salário mínimo. Para a ideia conservadora, salário era fator de inflação.

A força e a fúria do período autoritário ou da ditadura não encontraram vestígio de corrupção na vida e no patrimônio do presidente Jango Goulart, que desde moço, quando se aproximou de Getúlio, já era um estancieiro bem-sucedido.

O filho João Vicente não falou da exumação do cadáver do pai, que comentara antes, quando perguntado face a face. Ele respondeu que encontraram substância estranha, mas em quantidade tão pequena, mínima, que impede um laudo conclusivo. As respostas pedidas aos Estados Unidos não vieram, e a Procuradoria-Geral da República, se dá importância à pesquisa do que realmente aconteceu, não insiste nas respostas como deveria.

A morte ocorreu, no dia 6 de dezembro de 1976, no município argentino de Mercedes, Corrientes, por ataque cardíaco, na versão oficial, e por envenenamento por agentes da Operação Condor, na versão iniciada pelo depoimento de integrante do serviço de inteligência uruguaio. Imediatamente, a ordem da ditadura era para que os veículos que acompanhassem o corpo do presidente falecido, rumo à cidade de São Borja, no Rio Grande do Sul, não parassem em lugar nenhum.

Eles pararam, a fila era crescente e ela seguiu, seguiu até o túmulo, que não encerra o movimento da história, que tem ânsia de verdade.

Compartilhar:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Enviar um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no X(abre em nova janela) 18+
  • Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
Curtir Carregando...

Consciência da vida, consciência do voto

25 segunda-feira jun 2018

Posted by Feres Sabino in blog

≈ Deixe um comentário

Um dia perguntaram a Eduardo Galeano, o grande literato uruguaio, o que é viver. Ele respondeu: “Viver não é ganhar, viver é ter consciência”.

Tendo-se consciência da vida, tem-se consciente do voto. E para este ano e para esta próxima eleição, essa consciência será responsável pelo surgimento quiçá de lideranças e fundamentalmente de políticas públicas que garantam, ou devam garantir, ao país desenvolvimento sustentável e humano.

Espera-se que o candidato vitorioso não se apegue a slogans, ou à palavra de ordem, ou a xingamento, ou a sorriso congelado, ou a um lançador de preconceito e ódio contra ideias e pessoas, como se o mundo precisasse de mais estupidez. O debate da vitória deve ser de programas, nos quais a ética e a moral pública nem precisem de palavras, estão neles pelo simples fato de serem eles.

Em cada narrativa, o Brasil precisa deixar claro, para nossa gente e para o mundo, o que quer de si mesmo. Afinal, rico de solo, rico de subsolo, rico de água, rico de florestas, rico de vento, rico de povo miscigenado e, infelizmente, riquíssimo em desigualdade social.

Esse rico e contraditório Brasil, que parece desossado na crise institucional que o assola, terá, com a legitimidade do voto, o retorno dos membros de Poder e de Instituição ao trilho da discrição e da legalidade, para cumprir sua função pública com eficiência máxima e rigor absoluto, sem o espetáculo para rádios, televisões e jornais, que desmoronam o prestígio da justiça com condenações antecipadas.

Na legalidade democrática, nenhum membro de qualquer um dos poderes ou de instituições pode pretender substituir, com ou sem arrogância, o que é da competência exclusiva da soberania popular. Hoje, tal equívoco acontece sob o pretexto de se acabar com a corrupção.

A corrupção é um mal tão nefasto e tão íntimo da convivência humana que ela precisa ser enfrentada por pessoas e instituições, com a etiqueta impressa do “sem parar”, e no sistema de liberdades democráticas exercidas ininterruptamente, e com as quais até os salvadores ocasionais da moral pública têm um papel a cumprir, mas sem espetáculo, com discrição e rigor funcional, ético e legal.

A consciência do voto, como reflexo da consciência da vida, poderá reconstruir o sentimento de nação, uma ideia que Bresser Pereira, economista, reclama com fervor cívico.

Compartilhar:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Enviar um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no X(abre em nova janela) 18+
  • Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
Curtir Carregando...

Essa feira, nossa feira

23 quarta-feira maio 2018

Posted by Feres Sabino in blog

≈ 1 comentário

Não é muita a repetição repetida de aplauso à realização da Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, na sua 18ª edição, aberta solenemente no último sábado pelo concerto da Bachiana Filarmônica Sesi-SP, que se dedica à divulgação expansiva da música erudita. A participação especial foi do maestro João Carlos Martins, seu regente e seu pianista. Ele traz no seu patrimônio longevo a doença degenerativa das mãos que o obrigou ao estudo e treinamento da regência de orquestra. Essa dupla função de pianista e regente leva em si uma proposta pedagógica, ou seja, para quem tem vocação de aprender eis aí um exemplo de esforço e de superação, e para todos que enfrentamos cada imprevisto da vida, degenerativo ou não, eis aí o mesmo exemplo. Deu um toque de intimidade com a cidade, berço natal de sua mãe.

A feira tem sido uma fonte irradiadora de incentivo e de política pedagógica, não só para os estudantes, mas para todos que lá frequentam. Entre uma e outra feira, realizam-se inclusive projetos de arte em bairros, ampliando os que vão frequentá-la na próxima.

A feira reúne um grupo organizador de clara competência sob a coordenação-geral da jornalista Adriana Silva e seus diretores, assim como a Fundação Pedro II, a prefeitura, os governos estadual e federal, o sistema Sesc-Senai e um sem número de pessoas jurídicas, de universidades e empresas privadas.

É uma iniciativa agregadora, que lança com a sua realização um significado de convergência público-privada em prol do interesse superior da educação, da conscientização e da transformação possível com o hábito incentivado da leitura e do livro.

Uma notícia auspiciosa é sobre o índice dos que leem na cidade. O ribeirão-pretano lê mais do que a média nacional, de acordo com pesquisas realizadas nos dois últimos anos. Não se pode cometer injustiça deixando de creditar à realização sucessiva da feira, com a atração que ela promove e propicia, a sua responsabilidade e seu mérito nesse avanço do olhar que se abre curioso para novas dimensões de conhecimento próprio e da vida e do mundo. Tanto que foi percebida a existência dos “filhos da feira”, como revela Adriana.

É um momento de lucidez solidária, que naturalmente revela o quanto podemos, acreditando que com os outros, reunidos, é mais fácil e mais prazeroso realizar qualquer propósito, especialmente esse de animar a prática da leitura, cujo destinatário não tem idade.

No domingo, estava ali, naquele palco improvisado defronte do relógio da Praça XI, Miriam Fontana contando a história “A Ema e o Sonho”. A ema de pernas longas, ela a descrevia, fazendo coreografia, recolhendo suas asas, saltitando, tentando e conseguindo fazer-se ela para duas crianças e adultos que a assistiam. Lindíssima a reação das crianças, que a acompanhavam, que respondiam às suas perguntas, que completavam suas frases. Uma história de criança, que fazia sorrir os adultos.

Na outra sala, Moçambique era trazida pela apresentação dos que falaram sobre Mia Couto e sua literatura de poesia e prosa, ou de prosa poética, vivenciada pela realidade da exploração colonial, que só resulta em miséria e morte, em uma terra que explodiu em guerra civil depois de sua dita libertação.

Só dá para assistir o encantamento de uma ou outra experiência ou debate ou exposição. Você deve escolher, lembrando o óbvio de que quem escolhe exclui.

Mas dá para falar do patrono da feira, que é o advogado Sergio Roxo da Fonseca, que a cidade conhece muito bem como homem de bem, que o Ministério Público de São Paulo conhece, porque lhe serviu com dedicação absoluta, inclusive premiando-o por poesias e contos em concursos realizados, e que gerações e gerações de estudantes seguramente se beneficiaram com sua formação humanista, em Ribeirão, lá em Franca, e em toda tribuna que ocupou e dela falou.

E dá, ainda, para indicar os homenageados locais, como Camilo Xavier, cujo coração fala poesia, e Heloisa Martins Alves, professora de língua portuguesa, professora de quem quer ser professor(a), e tem três livros publicados. Coordena o projeto Combinando Palavras, da qual é cocriadora, lá na escola estadual Otoniel Mota.

Não falta nada para enobrecer a cidade nessa realização de solidariedade e dedicação. Só que as autoridades da cidade, políticas ou não, precisam estar de corpo presente, especialmente na noite da abertura, para que elas não se apequenem pela ausência.

Só uma sugestão dita pessoalmente à Adriana, sempre receptiva: o país que for escolhido deve ter seu embaixador como hóspede oficial do município, antecedido por convite empenhado ‒ e tanto quanto possível pessoal ‒ da autoridade política da cidade, inclusive.

Prestigiar é o verbo da democratização da feira, que é nossa.

Compartilhar:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Enviar um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no X(abre em nova janela) 18+
  • Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
Curtir Carregando...
← Posts mais Antigos
Posts mais Recentes →

Posts recentes

  • O lixo do pastor
  • A soberania do Brasil e o espírito de vira-lata
  • A traição da fé
  • A PAZ, rediviva ou ressuscitada
  • A escumalha parlamentar na fase pré-natalina

Arquivos

  • janeiro 2026
  • dezembro 2025
  • novembro 2025
  • outubro 2025
  • setembro 2025
  • agosto 2025
  • julho 2025
  • junho 2025
  • maio 2025
  • abril 2025
  • março 2025
  • fevereiro 2025
  • janeiro 2025
  • dezembro 2024
  • novembro 2024
  • outubro 2024
  • setembro 2024
  • agosto 2024
  • julho 2024
  • junho 2024
  • maio 2024
  • abril 2024
  • março 2024
  • fevereiro 2024
  • janeiro 2024
  • dezembro 2023
  • novembro 2023
  • outubro 2023
  • setembro 2023
  • agosto 2023
  • julho 2023
  • junho 2023
  • maio 2023
  • abril 2023
  • março 2023
  • fevereiro 2023
  • janeiro 2023
  • dezembro 2022
  • novembro 2022
  • outubro 2022
  • setembro 2022
  • agosto 2022
  • julho 2022
  • junho 2022
  • maio 2022
  • abril 2022
  • março 2022
  • fevereiro 2022
  • janeiro 2022
  • dezembro 2021
  • novembro 2021
  • outubro 2021
  • setembro 2021
  • agosto 2021
  • julho 2021
  • junho 2021
  • maio 2021
  • abril 2021
  • março 2021
  • fevereiro 2021
  • janeiro 2021
  • dezembro 2020
  • novembro 2020
  • outubro 2020
  • setembro 2020
  • agosto 2020
  • julho 2020
  • junho 2020
  • maio 2020
  • abril 2020
  • março 2020
  • fevereiro 2020
  • janeiro 2020
  • dezembro 2019
  • novembro 2019
  • setembro 2019
  • agosto 2019
  • julho 2019
  • junho 2019
  • maio 2019
  • abril 2019
  • novembro 2018
  • outubro 2018
  • agosto 2018
  • julho 2018
  • junho 2018
  • maio 2018
  • abril 2018
  • março 2018
  • fevereiro 2018
  • janeiro 2018
  • dezembro 2017
  • novembro 2017
  • outubro 2017
  • setembro 2017
  • agosto 2017
  • julho 2017
  • junho 2017
  • maio 2017
  • abril 2017
  • março 2017
  • fevereiro 2017
  • janeiro 2017
  • dezembro 2016
  • novembro 2016
  • outubro 2016
  • setembro 2016
  • agosto 2016
  • julho 2016
  • junho 2016
  • maio 2016
  • abril 2016
  • março 2016
  • fevereiro 2016
  • janeiro 2016
  • dezembro 2015
  • novembro 2015
  • outubro 2015
  • setembro 2015
  • agosto 2015
  • julho 2015
  • junho 2015
  • maio 2015
  • abril 2015
  • março 2015
  • fevereiro 2015
  • dezembro 2014
  • julho 2014
  • junho 2014
  • maio 2014
  • abril 2014
  • março 2014
  • dezembro 2013
  • novembro 2013
  • setembro 2013
  • agosto 2013
  • julho 2013
  • junho 2013
  • maio 2013
  • março 2013
  • fevereiro 2013
  • janeiro 2013
  • agosto 2012
  • junho 2012

Categorias

  • blog

Meta

  • Criar conta
  • Fazer login
  • Feed de posts
  • Feed de comentários
  • WordPress.com

Blog no WordPress.com.

  • Assinar Assinado
    • Feres Sabino
    • Junte-se a 58 outros assinantes
    • Já tem uma conta do WordPress.com? Faça login agora.
    • Feres Sabino
    • Assinar Assinado
    • Registre-se
    • Fazer login
    • Denunciar este conteúdo
    • Visualizar site no Leitor
    • Gerenciar assinaturas
    • Esconder esta barra
%d