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Feres Sabino

~ advogado

Feres Sabino

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A virtude da violência

19 domingo ago 2012

Posted by Feres Sabino in blog

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A única virtude da violência é aquela que permite não se esquecer nunca dela, só para que a repudiemos sempre, permanentemente.

Dessa vez foi na Favela da Família. O cumprimento de uma ordem judicial ultrapassou o limite, e a desocupação determinada pela justiça realizou-se num espetáculo de violência, que não corresponde ao respeito devido às pessoas, revestidas pelo valor ético e jurídico da dignidade de cada uma. Esse valor (dignidade) constitui a tônica, a unidade de todas as leis e todos os atos oficiais, porque está lá, como fundamento e princípio do pacto social, que é a nossa Constituição.

Nesse contexto, a moradia, consagrada como direito social, não foi garantida anteriormente àquelas pessoas, e essa duríssima realidade de discriminação as levou ao ajuntamento naquele terreno de terceiro, para viver a vida daquele jeito: em regra, sem emprego, sem ou com pouca renda, mesa, quando a tem, é escassa, com as crianças circulando por aquelas corredeiras de esgoto, às vezes necessitando fazer o chamado “gato”, para ter energia em casa. Aliás, essa prática do “gato” não é exclusiva de pobre, não. Seguramente, ali, na favela, a grande maioria vive construindo no dia a dia um sentimento de solidariedade, que a pobreza, mais do que qualquer outra situação, desperta no ser humano. Com o tempo, muitos ajudam muitos reciprocamente para atenuar os problemas comuns. Nasce uma comunidade.

Pois essa comunidade foi o alvo da Polícia Militar, com alguns de seus membros deitando o cacete, não lembrando em nada a instituição que, em caso de sequestro, designa o mais hábil, o mais labioso, o mais competente para estabelecer um diálogo com o bandido.

Não é a primeira vez que se tem uma ordem judicial para esse fim. São tantas e tantas as vezes que essa brutal realidade aconteceu, que uma lição básica já deveria ter se impregnado na consciência de aplicadores e executores da lei, como aliás já aconteceu em tantos lugares, e também  no Recife. Lá, há muito tempo o fato social das invasões de terrenos jamais desacreditou a Justiça, com seus ritos e suas regras imperativas, com a adoção da prática do diálogo. A sentença judicial ficaria suspensa durante um período, enquanto o trabalho de convencimento e também de solução do problema acontecia, como manda o bom senso. Esse tal de bom senso às vezes é confundido com o princípio jurídico que condena qualquer desproporção, que é o princípio da razoabilidade.

Para uma atuação razoável − como o povo diz, de bom senso − necessita-se do Poder Público Municipal. Ele deve caminhar conjuntamente com a ordem judicial, visando à desocupação pacífica, que não seja de um local ruim para um local péssimo. Talvez, fosse preciso de mais tempo – a justiça levaria em conta esse tempo. Assim, os favelados conheceriam a maneira como o Estado, de forma convergente, Poder Judiciário e Poder Municipal agiriam para resolver a questão. E, com a certeza de que não seriam enganados, os favelados acreditariam, estariam predispostos a cooperar.

Não é fácil, sabe-se. Entretanto, a única atuação que não se espera é da absoluta omissão do Poder Executivo Municipal.

Se fosse convidado a planejar a desocupação pacifica da área, o Poder Municipal estaria cumprindo a óbvia finalidade constitucional do trabalho estatal convergente. Se não fosse convidado, ele teria a obrigação intransferível de estar dentro do problema, desde o momento em que seus agentes detectarem a existência da favela, até a sua remoção para lugares dignos de serem denominados de moradia.

Houve a desocupação e em vez de um problema, criaram-se centenas.

E a Justiça é para resolver, não para criar problemas…

Publicado originalmente em O Diário, em 19 de julho de 2011

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A USP e a Polícia Militar

19 domingo ago 2012

Posted by Feres Sabino in blog

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Se o convênio da Universidade de São Paulo com a Polícia Militar foi uma decisão da sua congregação, o erro foi coletivo. Se a decisão foi de seu reitor, o erro é pessoal.

No entanto, a gravidade máxima dessa decisão revela-se pelo precedente estabelecido e pela falta de criatividade.

Imaginar que a melhor e a mais bem conceituada universidade da América Latina não concebeu uma ideia alternativa para instrumentalizar o policiamento interno do campus, cenário de alguns delitos graves, é quase cair no lugar comum de nossos parlamentos, que perderam sua criatividade, além daquela minoria que projeta o que há de duvidoso na ética de nossos representantes.

A Universidade, porém, é o espaço consagrado da liberdade da criação, da produção intelectual, da pesquisa e da reflexão e lá a experiência de seus docentes, e particularmente a de seu reitor, professor de Direito, não poderia deixar que a tendência do pragmatismo geral − “chamem a polícia!” − invadisse predominantemente o espaço universitário, que sempre foi considerado o espaço da liberdade, tal como o “jardim de pedras”, o pátio interno da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco nas palavras poéticas e saudosas do professor Goffredo da Silva Telles Jr., e que compõe o “território livre das arcadas”. Afinal, essa tal ideologia do pragmatismo em tudo e por tudo é extremamente preocupante, já que até invadiu aquelas cabeças universitárias que venceram as esquerdas pela primeira vez na história do Diretório Acadêmico da Universidade de Brasília.

O designativo “força de ocupação” está mais pela gravidade da decisão universitária do que qualquer palavra que pudesse reduzir o esforço da Polícia Militar em se adequar ao espírito democrático de nosso tempo, porque seu despreparo está na falta de uma política de segurança pública que nossos governantes ainda não foram capazes de incentivar e realmente defini-la. Aqui, a Polícia Militar assistiria a esse comentário das arquibancadas, porque, na verdade, assinou o convênio que lhe foi proposto e aceitou sem ressalvas o cumprimento de sua missão, com a prática policial-militar conhecida por todos e estudada por órgãos da Universidade, sabendo que a polícia como regra não faz distinção entre os fumantes de maconha que estão no campus universitário e os que nunca estarão dentro dele. Mas a Polícia Militar assistiria das arquibancadas esse comentário não fosse o término glorioso do episódio, que mobilizou uma frota de veículos e mais de quatro centenas de homens armados, que enfrentaram corajosamente um punhado de estudantes para retirá-los do campo sagrado da reitoria. Os verdadeiros bandidos, que andam à solta armados até os dentes, devem ter ficado ofendidos com essa preferência policial.

O triste e o lamentável é que o espírito universitário que viaja lá nas alturas de sua liberdade, quedou-se pequeno e medíocre, para ser responsável por este fato lamentável e lamentado, seja o da ocupação da reitoria, seja o da prisão dos estudantes, seja o da retirada compulsória feita com ostentação do poder militar, digna de nosso período ditatorial.

Tal a gravidade dessa decisão inconsequente, que seu responsável, se único, deveria sofrer uma espécie de impedimento, para se afastar imediatamente do cargo de direção. Se a decisão é coletiva, é preciso lembrar que não é vergonhoso, nem humilhante, rescindir o convênio e dar solução razoável, sem precisar colocar a autoridade da Universidade em confronto com a autoridade da Polícia Militar, preservando o fundamento de não permitir ocupação policial-militar do campus universitário; e, diante do desafio dos delitos consumados e que serviram de inspiração a tal convênio, o mais adequado é a formação, quem sabe, de um corpo de vigilantes próprio da Universidade. Seguramente, essa não é a única providência, mas as demais dispensam força policial seguramente.

Como uspiano, lamento essa infeliz ideia de um convênio cuja assinatura não considera a sacralidade do campus, nem as consequências previsíveis que adviriam dele.

Publicado originalmente em O Diário, em 19 de novembro de 2011

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A tragédia do Rio e suas lições

19 domingo ago 2012

Posted by Feres Sabino in blog

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Não há como se esquivar de uma tragédia como aquela do Rio de Janeiro. Aliás, o sentimento de solidariedade não nos permite esquivar-se de tragédia alguma, de drama humano algum.

O desespero de cada família, cujo filho ou filha morreu ou feriu-se no desabrochar da idade adolescente, dói na alma de qualquer um de nós, assim como ataca nosso espírito inconformista, já que não entendemos em um primeiro instante por que o plano divino reservou a cada criança e aos seus pais e amigos tamanha dor, perda repentina e violenta.

Num segundo momento, os que acreditam, mesmo não sabendo explicar, entregam o enigma à sabedoria do universo. E quando isso acontece, dizem que o tempo amaina o efeito da desgraça e, de alguma forma, o vazio não mais nos revolta, não mais nos causa indignação, simplesmente fica revelada em nosso convívio a estranha intimidade nossa com aquele nosso vazio. Às vezes, ou quase sempre, sobra uma lágrima solitária despencando por um rosto contraído pela saudade.

Se a dor e, em razão dela, nossa solidariedade procuram e acompanham a vitima e seus familiares humanamente, ninguém pode se esquecer do autor de tamanha desgraça, como ser humano que ele é. E aí começa a outra reflexão: em que deserto de afetividade ele se desconstruiu para se fazer, de repente, no algoz da matança calculada, como um anjo da maldade e da destruição querendo matar crianças indefesas, matando-as ou ferindo-as, como se o conjunto delas representasse o mundo que o rejeitara com requinte de humilhação?

E os fatores externos que revelam uma sociedade violenta num mundo violento como que atiçam a mente solitária, predisposta à violência, ou escondendo o ímpeto que só aguarda que acendam seu pavio para explodir.

Ora, tão estúpida é a nossa sociedade que sua imprensa, no primeiro momento da tragédia, veiculou que o matador, como terrorista que só poderia ser, teria ligação com o Islã. Uma irresponsabilidade tão grande quanto à tragédia que noticiava. Esse é o jornalismo terrorista, pode-se dizer.

Mas, ainda, caberia mais uma reflexão sobre o tamanho desmesurado do noticiário que acontece após e sobre a ocorrência trágica do Rio de Janeiro, fazendo do matador uma espécie de herói às avessas, tantas e tantas vezes que ele é falado e comentado. Essa divulgação pode ser assumida como um ensinamento para futuras matanças, para uma mente cuja patologia, ou já existe, ou está em formação.

Todos sabem da força mimética da televisão, ou seja, a força da imitação que ela tem. Tanto ela o tem que existe a propaganda dos produtos com mulheres apetitosas e tantos marmanjos. Se a televisão vende – e muito – qualquer produto que lhe paguem para divulgar, evidentemente ela “ensina” a lição subliminarmente  – “quer ser mais feliz? Compre-o”. Só que a lição da estupidez, da morte e da desgraça ela entrega de graça.

Pior do que a televisão, só aqueles políticos que, em cima do fato, saíram falando grosso, cantando a necessidade de um plebiscito sobre a proibição da venda das armas. Eles não se aperceberam, com essa proposta de oportunismo barato, que as armas da tragédia carioca não foram compradas no comércio legal de armas. Elas foram adquiridas pelo matador com a ajuda de duas pessoas, que foram presas. Ora, a realidade da tragédia está mais para que se reprima efetivamente a clandestinidade do comércio, do que fazer um plebiscito para proibir a venda legal de armas, que até pode ser proibida, em outra situação e com melhores argumentos. Será que, diante disso, o absurdo incluiria no plebiscito a estupidez da pergunta “É proibida a venda clandestina de armas de fogo?” só para ser coerente com o que serviu de inspiração a alguns políticos? Essa proposta política é, na verdade, o que se pode apelidar de irresponsável “oba, oba”.

Os políticos, não para culpar ou demonizar qualquer pessoa, professor ou servidor, poderiam fazer perguntas, sem plebiscito algum, mas para tomarem providências efetivas e objetivas, fora e dentro das escolas. Por exemplo: como uma pessoa entra numa escola, com aquela artilharia, sem que alguém, seguindo uma regra de precaução e de prudência, peça identificação e exija saber do conteúdo daquele transporte incomum num prédio escolar e público? A resposta poderia redundar em medidas de prevenção mais efetivas que um plebiscito nacional.

Afinal, o Rio de Janeiro oferece uma história acumulada de violência, que a falta de uma providência – ter alguém na porta para trabalhar nesse sentido, por exemplo – revela uma ausência gravíssima de organização escolar.

O plebiscito não resolverá esse problema das escolas. E são elas, com seus alunos, professores e servidores, que nos interessam de verdade.

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