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Feres Sabino

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Os gestos como símbolos

01 segunda-feira jul 2024

Posted by Feres Sabino in blog

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A vida pública exige dos políticos a simbologia de seus atos. Assim o abraço transpira o espírito prevalecente no gesto. A palavra de desprezo ou de solidariedade faz de quem abraça e de quem é abraçado parceiros do caminho igual. O aparente e leve desprezo pela racionalidade no convívio esconde a vocação de brutalidade e violência com a qual a pessoa se expressa. Por exemplo, naquele “Não estou nem aí”, ao ser alertado de sua responsabilidade diante da brutalidade explícita, que causa morte ou não.

Entretanto, os sinais e as palavras não são, em regra, acessíveis à compreensão direta de quem deve ou não aderir à tal ou qual liderança ou candidato. A percepção popular muitas vezes corre por conta da informação, arriscada nessa época de notícias falsas em profusão. Por isso se diz – “o povo tem sempre razão, ou porque está bem-informado ou porque está mal-informado”.

Entretanto, trata-se aqui dos sinais que povoam as circunstâncias que rodeiam uma liderança.

Dois governadores de estado, o de São Paulo e o de Goiás, fizeram viagem longa, cansativa e rápida, para irem a Israel, num momento de guerra, abraçar o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que muito antes do conflito já era acusado por atos de corrupção pelo Ministério Público israelense. Lula foi o primeiro a falar pública e mundialmente sobre o massacre genocida, que ocorria em Gaza, e os dois oposicionistas, à falta de ideia superior, quiseram fazer o contraponto deles. E foram, rapidamente, e rapidamente voltaram: só o abraço solidário e o sorriso pelo malfeito, mesmo sabendo que aquele facínora comandava um território de discriminação e violência, em relação ao qual a África do Sul o acusou, até, da prática de “apartheid”, pior do que aquele que a submeteu durante anos. E foi esse país que representou contra Israel, com base na Convenção de Genocídio, assinada em 1948. Essa representação foi perante a Corte Internacional de Justiça, instalada em Haia, na Holanda, conhecida como “Tribunal da ONU”, cuja competência é decidir litígios entre estados.

Então, os dois governadores foram abraçar o alvo repulsivo das manifestações estudantis norte-americanas e de muitas nações da comunidade internacional. Um abraço com tal densidade, revelado pelo sacrifício de uma viagem tão curta e tão rápida, confere dimensão ao propósito camuflado de cada um.

A solidariedade tem sempre o mesmo sentido, apoiando cegamente os meios e os fins.

Seguramente, a questão é adivinhar a razão profunda dessa viagem rapidíssima só para um abraço promissor de iguais palavras, iguais pensamentos e iguais obras. O abraço solidário quer dizer estamos com você, você é o nosso mestre da barbárie.

A razão profunda não exigiria tanto nem dos dois, nem de nenhum outro. Pergunta-se: seria para agradar uma comunidade endinheirada para eventual doação generosa delas nas eleições futuras? Ou será sabedoria política vender para quitação futura, sua “alma política”? A rigor, é uma situação incerta, que depende de votação geral e futura, ainda que ela possa ser trabalhada pelas mentiras de informações reiteradas, ainda assim, há incerteza para esse investimento.

Na verdade, a indiferença do “Não estou nem aí”, face à brutalidade e às mortes ocorridas no litoral paulista, onde um cego, morto, teria apontado uma arma em direção a dois militares, naquela casa invadida sem mandado judicial, (a indiferença) corresponde exatamente aos descumprimentos históricos, por parte de Israel, das leis internacionais e das Resoluções do Conselho de Segurança e da ONU, desde 1948. “Não estou nem aí” é o repique disfarçado da propagação do ódio.

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A destruição da linguagem

24 segunda-feira jun 2024

Posted by Feres Sabino in blog

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O fenômeno bolsonarista tem servido de muito estudo e reflexão, pois eclodiu como se fosse um ato repentino e fora de qualquer processo em curso.

Na verdade, a nostalgia – “um afeto que combina amargura da perda e a sensação de desencaixe com o momento no qual se vive” – predominante em franjas eloquentes da sociedade, em relação às políticas adotadas, encontraram no discurso desconexo, com louvações à prática da violência, e sua cuidadosa preparação do meio para se chegar a um passado glorificado, mas inexistente, como é o que prega o retorno à ditadura, como oásis de segurança e do conforto da cidadania.

O livro “Linguagem da Destruição: A democracia brasileira em crise”, lançado pela da Companhia das Letras, encerra três ensaios dos autores Heloisa M. Starling, historiadora, Miguel Lago, cientista político, e Newton Bignotto, filósofo, os três membros da universidade pública brasileira, e que fazem a análise do discurso sobre a realidade política e social sob a presidência do “negacionista”, que serviu para construir o caos. Analisar a linguagem oficial passa pela narrativa adotada para cada fato. E nesse ponto eleva-se, por exemplo, a conduta do governo durante a pandemia, entremeada de frases de comparações chulas, por parte do inelegível, pouco se importando com o número de mortes, muito menos com a pressa apressada da compra de vacinas.

O bolsonarismo não se enquadra nos conceitos tradicionais de nazismo, fascismo ou cesarismo tradicionais, mas fica nas suas cercanias, com aspectos novos, que não indicam nenhum projeto de governo capaz de dar segurança de propósitos aos adeptos desse movimento, cuja característica talvez desvele a dificuldade que o Bolsonaro teve em formar um partido político.

Se o nazismo no seu início procurou conquistar a opinião pública, melhorando as condições de vida, o inelegível nada fez nesse sentido, durante seu governo. Optando pela propaganda ideológica, com suas ideias desconexas, destrutivas de instituições e de pessoas, civis e militares, ignorando politicamente a intermediação dos partidos políticos, e com a preferência do contato direto com a população, através das redes sociais e do cercadinho que ocupava como tribuna, nas manhãs de sua saída do Palácio da Alvorada, quando inflava sua utopia regressiva.

O ataque calculado ao Supremo Tribunal Federal é o ataque ao Poder que estabelece limite na atuação das pessoas e dos demais Poderes. E essa volúpia integra o “projeto” anunciado desde o início por ele mesmo: veio para destruir e não para construir. É pedagógica a lembrança anotada por Bignotto: “O elogio que Bolsonaro fez da morte de trinta mil pessoas, no curso de uma operação policial no mês de maio de 2021 no Rio de Janeiro, mostrando que a morte é o centro gravitacional de seu poder” (p. 147).

O apelo ao confronto com os “comunistas” ressuscita um fantasma, muito querido pelas elites brasileiras, que lhes empresta o esqueleto e a alma, para assustar os incautos, porque ele não mais existe. Assim, recomenda-se não confundir espírito crítico com comunismo.

Esse ódio ao iluminismo dos Direitos Humanos canta frequentemente “O Brasil acima de tudo”, que, aliás, tem um longo percurso histórico, já que faz parte da “A canção dos alemães”, composta em 1841, quando da disputa territorial entre Prússia e França, e sua melodia é idêntica a uma composição de Joseph Haydn, feita em 1797. Os nazistas se apoderaram da canção, em 1930. Ela foi adotada no Brasil em 1966, introduzida na Brigada de Paraquedistas, por jovens oficiais que integravam um grupo paramilitar Centelha Nativista, que na origem adotava esse brado. “Grupo dessa natureza – como a Aliança Anticomunista Brasileira ou Grupo Secreto – foram gestados nos quartéis e órgãos de informação e segurança das Forças Armadas e consistiram no principal foco de ativismo das facções da linha dura, durante a ditadura iniciada em 1964. A Centelha Nativista era formada por capitais, majores e coronéis do Exército organizados em torno de repertório ideológico bem definido pela “segunda linha dura”. Alegravam proteger a “democracia” contra o marxismo e o comunismo, estavam dispostos a lutar contra a subversão, pretendendo resgatar os ideais da ‘Revolução de 64’, que entendiam terem sido traídos pelos governos dos generais” (Heloisa Murgel Starling, p. 109).

“O grupo Nativista abrigava-se na Vila Militar e dedicava-se ao ativismo político quanto à execução de ações armadas (idem p. 110)”.

Se esse precedente explica a vertente golpista de militares, tem-se ainda a história do Partido Nazista da Alemanha que estendeu seus tentáculos para 83 países, instalando seções no exterior. A maior delas, com 290 integrantes oficiais, era a seção do Brasil. Tivemos o Partido Nazista do Brasil que funcionou de 1928 a 1938.

O ex-presidente Bolsonaro, com seu discurso desconexo e destruidor, propagando a utopia regressiva, que nunca existiu, seguramente encontrou eco no subterrâneo provindo da ditadura e que emergiu na vida nacional, com as sementes pervertidas do Partido Nazista do Brasil, e que a democracia, sempre ameaçada, tenta arrancá-las, como rebotalho, para limpar de vez os tropeços de nossa redenção, como país soberano, democrático e justo. Afinal, “… o comunismo é um fantasma retórico usado por demagogos de várias tendências políticas, como arma ideológica, sem nenhuma correspondência com o quadro geopolítico global” (idem p. 128 Newton Bignotto).

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Escolas da bitola estreita

17 segunda-feira jun 2024

Posted by Feres Sabino in blog

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“É na sala de aula que se forma o cidadão,

É na sala de sala que se muda uma nação…“

(Leci Brandão – Os Anjos da Guarda)

O Brasil está querendo fechar o beco da racionalidade, da inovação, do avanço científico, da tecnologia digital da formação humana, inventando a multiplicação de escolas cívico-militares, que devem ser chamadas de escolas da bitola estreita.

Houve quem dissesse que elas seguramente garantiriam o surgimento de um, ou mais, golpista, autoritário, pretensioso, salvador, cuja hipótese ilustra bem o tamanho da desgraça que o futuro nos reservaria, como consequência de nossa atuação covarde.

A liberdade de expressão, que tem limites no respeito às pessoas e às instituições, não pode ser garroteada por um espírito de frente unida, disciplinada para obedecer pessoas despreparadas na gestão de pessoas, e que escondem sob o vozerio autoritário a fraqueza de não saber e não poder, pela estreiteza da bitola fomentar os espíritos daqueles jovens, o criativo silêncio da explosão do encontro com o novo, a abstração das invenções, num ambiente de convívio democrático, que pressupõe diferenças.

O crescimento da pessoa como patriota, democrata, criativa, amante de seu país e defensora dele, não passa pelo trilho da bitola estreita da educação.

A rigor, os democratas e os patriotas devem recuperar a dignidade da Escola Pública, com recursos adequados ao melhor trabalho, pagando seus professores, ao invés de abrir frente de trabalho para quem não é do ramo, neste Brasil que precisa de teóricos de sua realidade objetiva, para alcançar sua redenção e sua soberania.

Não é possível admitir escola cívico-militar para dar trabalho e renda suplementar para quem esteja na reserva. Há muitas outras frentes de trabalho para que eles, dignamente, aproveitem sua experiência, sem causar danos, como  à frente da segurança pública. E o Rio de Janeiro está precisando desvendar seu enigma de criminalidade expansiva.

Nossas Instituições precisam ser invadidas pela teoria e pela prática democráticas, superando os dogmas ideológicos que alimentam a mediocridade nacional, colocando-nos aos pés de interesses geopolíticos e econômicos que ferem a real necessidade da população.

A Escola Pública prestigiada com recursos necessários e professores estimulados e valorizados como devem sê-lo, pois são eles os “Anjos da Guarda” das gerações que despertam. Essa Escola acontecida se afigura como exemplo de espaço democrático, que tanta riqueza ofereceu ao país, é nele que as crianças se socializam na relação com diferentes. A Escola que deveria ser a prioridade das políticas educacionais, que não pressupõem espírito de mercadores naqueles que são responsáveis por elas.

O Brasil com sua herança escravocrata sempre se apresenta como eterna promessa. E os alienados a repetem, admirando com seus olhares fixos, o estrangeiro rico e imperial.

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