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Feres Sabino

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A decência como necessidade

04 segunda-feira ago 2025

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Essa época tumultuada trouxe, para o cenário nacional, indiscutivelmente, um magistrado, o Ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes.

Não fora a firmeza, para honrar a dignidade e a agora a soberania nacional, seguramente a escumalha, sinônimo de ralé, teria continuado a destruição do Estado brasileiro, e sua raiz solidarista, que é a Constituição de 1988. Essa Constituição que é a mais importante da história política do país. Importante fundamentalmente pelo método de captação da vontade popular e pelo tempo de seu debate e pela cristalização de seus princípios e suas regras. Nela, a grande revolução foi a dignidade da pessoa ser elevada à categoria de protagonista, contrariando todas as anteriores Constituições cujo protagonismo era do Estado.

Os incautos e mesmo alguns profissionais do direito criticam o Ministro por estar à frente de processos em que ele teria sido vítima. E o discurso fogoso e extravagante da extrema-direita vai muito além de todos os limites para não só desacreditá-lo, a ponto de incluí-lo na baba venenosa do falso imperador da terra, apesar de já estar na história como verdadeiro herói. Sua firmeza desassombrada já esteve até no centro da conspiração bolsonarista, para ser assassinado, assim como o Presidente e o Vice-Presidente eleitos. Aliás, esse plano, não obstante largamente provado, também recentemente foi confessado pelo general que o elaborou. Um general!

Quando disse que os incautos e alguns profissionais do direito desavisados entram nessa de criticar o Ministro Moraes, por ser vítima, e ainda à frente de processos nos quais ele é vítima. Investigador e julgador ao mesmo tempo, é a dicotomia que seria injurídica.

É o professor Pedro Serrano, e sua didática dignificante que explica claramente a situação, dizendo simplesmente que o Ministro Moraes age nesses casos de maneira institucional, ou seja, como Ministro integrante da Suprema Corte brasileira. E lembra com o exemplo do que aconteceu no aeroporto de Roma, a ele e a sua família, quando ofendidos por outra família brasileira. Nesse caso de ofensa pessoal, o condutor do processo é outro Ministro.

E mais: o prof. Serrano oferece um exemplo esclarecedor. Se todo Magistrado ameaçado de morte sair do processo, os bandidos teriam descoberto a maneira de mandar no processo e na Justiça, indiretamente, escolhendo quem deve processá-lo e julgá-lo.

Nesse período histórico em que assistimos à estúpida intervenção estrangeira no ventre da soberania nacional, com deputados federais dando exemplo de traição à pátria, é bom saber que é a decência e a coragem moral de um Ministro, apoiado pelos demais Ministros na condução desses processos, existem para fazer o espírito nacional crescer resistente e punindo os traidores.

Todos que de alguma forma se comunicam com pessoas, tal como essa modesta coluna, devem se insurgir contra a traição, lutando desde agora para uma limpeza eleitoral do Parlamento nacional, pois o país tem atualmente a felicidade de poder identificar a maioria dessa escumalha que surgiu na cena política, demostrando espírito homicida.

A bandeira nacional com seu dístico de Ordem e Progresso pressupõe necessariamente o valor ético da dignidade e da soberania, como força propulsora de um programa de desenvolvimento nacional, que realmente traga paz social e justiça ao povo brasileiro.

A última cena dessa abastança de alienação ética e moral está na barraca que um deputado federal montou à frente do prédio do Supremo Tribunal Federal com a boca fechada por uma fita, representando o quê? Deputado federal tem a sua tribuna livre, temos a imprensa livre, temos os maiores ataques pessoal e institucional, e um deputado federal, justamente ele que jura respeitar à Constituição e às Instituições. Um maluco, como tantos, que infestaram a vida política do Brasil, arremessados pelos bueiros da indignidade. E para ilustrar sua pequenez ética e moral enrolou-se numa bandeira de Israel, o estado sionista, que foi muito além da estupidez, porque se abastece do sangue palestino, desde sempre, ou seja, desde sua instituição como Estado, agora deslavada, clara e mundialmente, exibido como Estado-genocida. Esse requinte, a denúncia internacional mostra um de seus meios de torpeza e barbárie, acusando militares de matarem mulheres e crianças, famintos, nas filas de distribuição de alimentos, controlada pelos soldados e distribuída por entidade norte-americana. Mas o boné eleitoral trumpista do governador de São Paulo e sua viagem a Israel, e seu apoio à taxação dos produtos brasileiros, constituem episódios inesquecíveis, engravidados com seu infantilismo institucional de pedir ao STF que libere o passaporte do inelegível para ele tratar da taxação imperialista, lá na Casa Branca. Esse ato coloca sua excelência na sede do despreparo político, pior, porque esvaziado de sentimento de nação, esvaziado de consciência da soberania nacional, esvaziado de respeito às Instituições nacionais, pior ainda, porque capitão do Exército. A decência, abraçando o espírito de nação, defende a soberania, a integridade territorial e a dignidade do país, convertendo-se na verdadeira arma, como consciência, como devoção, como fé, qualquer que seja a preferência ideológica e partidária de cada um.

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A fragilidade do império

28 segunda-feira jul 2025

Posted by Feres Sabino in blog

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A surpresa dos eleitores trumpistas, e do mundo, diante da ordem internacional permanentemente violada por Estados Unidos e Israel, convertida, e de repente convertida numa desordem econômica mundial, sem precedentes, surge aparentemente inexplicável. Aliás, na base dessa surpresa e dessa desordem está a perda do poder global pela potência dominante, para a qual essa realidade torna-se inaceitável.

A cegueira da arrogância não olhou, e se olhou não quis enxergar, o crescimento de outros países como potências, ou militar, ou econômica, que surgem no palco do mundo, agora multipolar. Essa arrogância chegou a tal ponto que, após o esfacelamento da União Soviética, ouvia-se a voz do absurdo dizendo que chegávamos ao “Fim da História”. No chão estavam os escombros do então socialismo real, e no ar a bandeira do capitalismo financeiro agindo para fazer mais ricos os ricos e mais pobres os mais pobres.

Os Estados Unidos, na lógica da expansão capitalista, à procura de salários e custos baixos na produção, alienaram fábricas, reservando, para si, não por ato voluntário, as empresas integrantes do sinistro complexo militar-empresarial, expressão que se refere à conexão entre essas áreas, e objeto do discurso de despedida do Presidente Dwight D. Eisenhower, general, herói de guerra, sobre os perigos dessa relação, expressando preocupação com sua influência potencial na política e na sociedade.

Se o parque industrial da potência então hegemônica é para fabricar armas, é preciso que haja mercado, porque elas precisam ser vendidas, para movimentação dessa economia necessita que guerras sejam feitas. Então, quando não promoviam a instabilidade de governos, que aspirassem alguma autonomia no seu desenvolvimento, simplesmente agiam nas sombras ou às claras, indireta ou diretamente, fazendo guerras e mais guerras, ou simplesmente destruindo alguma organização social que pudesse servir de modelo de crítica à ordem dominante hegemônica. É o caso do bombardeio da Líbia, ao qual se somam as guerras do Afeganistão, Iraque etc., todas perdidas. Aliás, não precisava vencê-las, fundamentalmente, é preciso destruir. E sequencialmente todos os presidentes eleitos fizeram a mesma política, protegidos pela máscara da hipocrisia.

O artigo publicado no jornal francês Le Monde, “A fragilidade financeira dos EUA”, de autoria de Thomas Piketty, republicado em A Terra é Redonda, em 13 de julho de 2025, professor francês, diretor na École des Hautes Études en Sciences Sociales no Paris School of Economics, aponta essa fragilidade sem precedentes, como o fator do desespero e da agressividade de Trump, comparando a situação atual com a dos impérios europeus, francês e britânico, liderados pelo Reino Unido, a partir do ano de 1800 até 1914.

Os impérios do século dezenove e início do século vinte tinham déficits em sua balança comercial, igual ao apresentado na atualidade pelos EUA. A diferença, porém, é que as potências hegemônicas daqueles séculos se mantinham sobre a batuta exploradora do colonialismo e recebiam, por conta dessa dominação, os “superávits em produtos manufaturados e no transporte marítimo foram amplamente superados pelos vastos fluxos de matérias-primas pelo resto do mundo (algodão, madeira, açúcar etc.), embora estes fossem mal compensados”. “Em contraste, os ativos dos EUA no exterior nunca geraram renda suficiente para compensar seus déficits, deixando o país com um nível de dívida externa sem precedentes”.

A proposta do economista, diante dos desequilíbrios globais “seria estabelecer uma moeda comum anexada às principais moedas, permitindo que o mundo se liberte do dólar e melhore os meios de troca, para os países mais pobres, tudo com objetivo de financiar um modelo de desenvolvimento mais equilibrado e sustentável. Esperemos que a brutalidade de Donald Trump ao menos acelere essa concretização”.

Por isso a taxação exagerada, seguida das bravatas de promessa de mais taxação, faria as vezes dos produtos coloniais, que acertaram a balança comercial dos potenciais colonizadores.

Só que não termina por aí. A fervilhante geopolítica tem na Ucrânia, que faz guerra por procuração dos EUA, OTAN e Europa contra a Rússia, pretendendo simplesmente sangrá-la, assim como Israel, e seu bárbaro expansionismo hitlerista, cumpre seu papel para desestabilizar e dominar a região.

O impasse está criado. Seremos colônia ou um país soberano? O Brasil, apesar da escumalha ética de parlamentares de oposição e governos perdidos na ignorância e no desprezo da soberania e da dignidade nacional, quando rastejam para prestigiar um inelegível criminoso, precisa emergir forte desse desafio assombroso para declarar que será mais forte, depois de calar as vozes de traidores e simpatizantes do “imperador” do mundo, sem a vergonha de colocar na cabeça o boné identificador da estupidez, e reiterado com viagem de solidariedade a Israel, cujo sionismo hitlerista se esbanja em beber diariamente sangue palestino, em nome do genocídio, que merece repúdio universal.

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Sessenta anos depois

21 segunda-feira jul 2025

Posted by Feres Sabino in blog

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Sessenta anos depois, perguntam-me, de quando em vez, sobre nosso tempo universitário. Minha certeza é que aquela geração se preparava para assumir o país, para fazê-lo justo, soberano e democrático, pois, entre 1946 e 1964, desenvolvia-se um forte sentimento de nação.

Sua interrupção violenta foi o maior crime do golpe militar de 1964. Por conta disso, o afastamento compulsório e violento de seu curso normal fez com que se dispersasse a geração que aprendera a debater política, na sua cidade e no mundo, inicialmente como estudante secundário, e depois como estudante universitário.

Não era uma geração contaminada pela divindade do mercado. Os valores prevalecentes compunham uma utopia, que transpirava valores de ética, democracia, justiça, paz e soberania da pátria.

O mundo, no plano da política e da ideologia, estava dividido entre dois blocos, capitalismo e socialismo, enquanto a Igreja e alguns padres e militantes da ação católica acenavam com a doutrina social cristã como instrumento de transformação do mundo, sem violência.

Só que a Igreja da sindicalização rural, que concorria com os comunistas, depois a Igreja das comunidades de base, depois a Igreja da teologia da libertação, tudo era colocado pela força da estupidez no saco enorme do “pavor comunista”.

O conservadorismo, com seus privilégios, temia os comunistas, como capazes de uma revolução, e com isso o medo calculadamente alastrado de todo espírito crítico o colocava como inimigo da pátria. A lei da segurança nacional do período militar representava esse espírito odiento do adversário nacional convertido em inimigo, confusão igualmente propositada da extrema-direita de hoje.

Se a tentativa de golpe de 1961, com a oposição militar à posse de João Goulart, ficara adiada, para 64, graças à coragem cívica do governador Leonel Brizola e a mobilização popular, a verdade é que naquele período a tolerância democrática crescente envolveu a pregação das reformas de base, numa certeza equivocada que elevou a tensão do ambiente político nacional, pois, elas aconteceriam “na lei ou na marra”.

Mas a quebra da hierarquia militar, com a rebelião dos sargentos em Brasília e, depois, dos marinheiros no Rio, roeu, no interior dos quartéis, a posição dos militares nacionalistas, que perderam a eficácia de seus argumentos, favorecendo os golpistas.

A figura de João Goulart, que sempre fizera a política de conciliação, começou a ser criticada até pelas forças que o apoiavam, tomadas pela certeza equivocada das reformas de base na lei ou na marra. Os fatos cresceram e o Presidente não pode coordená-los, já que ficaram maiores do que ele e seu governo. Quando perguntado sobre seu dispositivo militar, viu que ele estava prestes a ruir.

Deixou Brasília rumo a Porto Alegre, quando o Congresso Nacional, em ato de covardia histórica, declarou a vacância da Presidência. Uma vergonha, costurada recentemente, para restaurar a dignidade de nossa representação popular.

No exílio, Jango pensava em seu retorno à pátria, não compreendendo a humilhação com que o regime militar o tratava, até lhe negando passaporte. Para não dizer das ameaças telefônicas, a ele e à família, depois que na reunião de militares do Cone Sul decidiu-se assassinar líderes políticos, para que não pudessem – quem sabe! – voltar aos cargos de mando. Esperava-se a mudança da política externa dos Estados Unidos, com a vitória de Jimmy Carter, como vitorioso ele o foi. Ele recebeu Brizola naquele país pelo tempo definido pelo exilado político.

Jango morreu no exílio, e seu enterro foi autorizado pelo governo militar, mas com uma condição estúpida: desde a fronteira entre Brasil e Argentina, o féretro, que se dirigiria a São Borja, deveria passar em alta velocidade. Aquela cidade riograndense recebeu, como última morada, seus filhos ilustres e patriotas, Getúlio Dornelles Vargas (São Borja, 19/4/1882 – Rio de Janeiro 24/8/1954), o construtor do Estado moderno brasileiro, João Belchior Marques Goulart, o Jango (São Borja, 1/3/1919 – Mercedes, 6/12/1976) e Leonel de Moura Brizola (Cruzinha, 22/1/1922 – Rio de Janeiro, 21/6/2004) que morreram alimentando um espírito de nação, deixando um patrimônio de civismo e decência, com a bandeira da soberania, da liberdade e da democracia hasteada na história política e social da pátria.

Procurou-se vestígio de assassinato na morte de Jango. Mas voz amiga dele acredita que a hipótese de assassinato se tomou difícil, já que a saúde dele estava precarizada. Mas não fica excluída de todo essa hipótese de assassinato, cuja dúvida atroz envolve a morte de Juscelino Kubitschek de Oliveira (Diamantina, 12/9/1902 – Resende, 22/8/1976), humilhado pelos militares que até lhe negaram financiamento para cirurgia na próstata.

Quando, hoje, fica estampado no palco político do Brasil, a maioria parlamentar da escumalha ética, vergonhosamente entreguista, traidora, é bom que os brasileiros decentes da atualidade, independente da ideologia que professam, não se esqueçam daqueles que estão no panteão da pátria.

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