• Biografia

Feres Sabino

~ advogado

Feres Sabino

Arquivos de Categoria: blog

De um Presidente e de outro Presidente

23 quarta-feira jun 2021

Posted by Feres Sabino in blog

≈ Deixe um comentário

A Comissão Parlamentar de Inquérito da covid-19, instalada no Senado Federal do Brasil, se ocupa de capturar a verdade documental, testemunhal e indiciária da condução irresponsável do governo federal no agravamento da crise sanitária do país, cujo volume de mortes há muito está atraindo para si um conceito jurídico assombroso, que é o do genocídio.

Talvez, a incúria do governo central, que recusou por seis (6) vezes a oferta do laboratório Pfizer, tenha desenvolvido a maior frente de trabalho, que ele conseguiu incentivar, qual seja a dos coveiros, somada à próspera indústria dos caixões funerários.

Eis a imagem fúnebre, ajudada pelo Presidente Bolsonaro, da qual não se estranha sua atitude, porque o sentido de morte com ele supera o da vida, e não só pelas mãos armadas do povo, pois até como deputado, já se revelara cultivador e defensor da tortura, reverenciando o governo militar, do qual ele destaca, até como herói, seu torturador-mor. E a tortura é aquele método que apodrece o torturador e humilha o torturado, como vestibular da morte matada.

O Presidente obteve, ainda assim, o apoio de seus adeptos ou apaniguados, que seguramente não leram, ao menos, os livros didáticos de Elio Gaspari: 1. A ditadura envergonhada; 2. A ditadura escancarada; 3. A ditadura derrotada; 4. A ditadura encurralada e 5. A ditadura acabada. Para não dizer que a ignorância da verdade histórica dispõe, para se revogar, de centenas de outros livros, inclusive os volumes do Brasil, nunca mais, de Paulo Evaristo Arns. Mesmo assim, leu-se e se lê o absurdo do discurso atual, endossado por decisão do Poder Judiciário, segundo a qual a ditadura é uma etapa da democracia.

Nesse ambiente de crise político-institucional estimulado diariamente pelo Presidente da República, vive-se a tragédia da crise sanitária e diante dela a incompetência auto-reconhecida pelo próprio governo, porque só culpa os outros, sem saber de seus deveres constitucionais, até concorrentes com Estados e Municípios. Foi preciso o Supremo Tribunal dizê-lo. E tanto o Presidente abusou que os demais poderes, Legislativo e Judiciário, definiram a existência da Comissão Parlamentar de Inquérito, como direito da minoria parlamentar que o Presidente do Senado Federal postergava e o Supremo Tribunal Federal determinou que desse seguimento ao requerimento de sua instalação e o consequente funcionamento.

Ganha relevo primeiramente o testemunho, desastrado e mentiroso do ex-Secretário de Comunicação do Palácio do Planalto, Fábio Wajngarten, que semanas antes dera uma entrevista à revista Veja. Tal entrevista acabou por desacreditar de vez o ex-Secretário, que procurou contradizê-la, no entanto, o áudio da entrevista foi ouvido ali, na hora, como também foram exibidas as publicações oficiais feitas, à época, pela SECOM (Secretaria de Comunicações), que ele dirigia. Apesar disso, esse fato não pode ser considerado o auge do dia, já que isso nem coube ao pedido de prisão, em si, que foi requerida pelo Relator, e secundado por senador do Espírito Santo, professor de direito, delegado de polícia durante vinte e cinco anos que, indignado, justificava com a lei e os documentos a prisão do mentiroso que estava depondo.

Evidentemente que ele poderia sair preso, se o Presidente da Comissão decretasse. Mas o auge do dia foi alcançado pela decisão dada a esse pedido, apesar de que poderia mesmo ser decretada.

A prisão não foi decretada, conferindo-se à altiva decisão a consagração do dia: “Eu não sou carcereiro de ninguém”, dizia o Presidente da Comissão. E olhando para o depoente, prosseguia: sabe que há desdobramento dessa Comissão, que o senhor poderá ser processado, com base em recomendação do relatório final, mas mais grave do que a prisão é a perda da credibilidade que seu depoimento mentiroso lhe angariou. Qual será a consequência de sua atuação lá na escola de seus filhos?

Essa atitude do Presidente, Omar Aziz, equilibrada e prudente, carente no Brasil governamental de hoje, e que foi apoiada pelo próprio Relator, deu a densidade do respeito parlamentar, desestimulou qualquer cisão, fortaleceu sua autoridade, e se contrapôs à onda daqueles fanáticos que querem desacreditar o trabalho da Comissão, para a qual interessa a verdade, somente a verdade. Afinal, a gripezinha presidencial será um sucesso, logo chegando a quinhentos mil mortos.

Agora, estimular o bando para gritar na rua “Abaixo à verdade da Comissão, vivam nossas mentiras?”, não é suficiente para fazer o vinho tornar-se milagrosamente água.

Compartilhar:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Enviar um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no X(abre em nova janela) 18+
  • Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
Curtir Carregando...

A sabedoria do olhar

21 segunda-feira jun 2021

Posted by Feres Sabino in blog

≈ Deixe um comentário

Uma vez, um jovem visitou um senhor idoso que ficava sentado na varanda de sua casa, olhando seu jardim, contíguo à rua.

Era um antigo fazendeiro que entregara, há mais de vinte anos, a administração de seu patrimônio rural aos filhos, que faziam de tudo para não o preocupar com o assunto que fosse.

A visita tendia mais ao silêncio do que ao diálogo. Era uma singela homenagem feita a um homem bom, um respeito ao velho senhor.

De repente, ele falou atiçando os filhos:

— Está faltando água lá na fazenda.

— Não, pai. Não está faltando água, não. O senhor está preocupado à toa.

— Está sim. Está faltando água lá na fazenda.

— Por que o senhor está achando isso, que faltaria água na fazenda?

A resposta surpresa veio com a voz fraca e sábia:

— Toda vez que aparece, aqui no jardim, aquele inseto, é porque falta água lá na Fazenda.

Outra lição, mais recente, foi a observação do engenheiro agrônomo, diante da capa de proteção da pequena piscina de sua residência.

A capa de cor azul que a cobria, depois de dias, revela com sua retirada a presença de algas.

A capa foi trocada por uma de cor preta, e não mais surgiram as algas.

A explicação foi simples: as plantas crescem mais com a cor azul incidindo sobre elas.

Esse diálogo da natureza consigo mesma é tão ignorado quanto se torna objeto de violência e destruição por parte de homens ignorantes e insensíveis. Aliás, essa energia sutil intercomunicativa, invisível, ocorre em profusão no complexo ecossistema da natureza.

Essa maravilhosa sutileza dimensiona a brutalidade dos destruidores das plantas, das árvores e dos animais e dos insetos, que habitam as florestas. E a floresta Amazônica aparece como paradigma na estatística da estupidez, em razão do desmatamento desenfreado e recorde e com a mineração invadindo terras indígenas e reservas florestais, ignorando que é a umidade amazônica que forma as partículas de água, que ameniza o clima do sul e do sudeste do Brasil, regando a agricultura de nosso vitorioso agronegócio, com as chuvas transportadas pelos chamados “rios voadores”. Se um homem, que frequentou o mundo rural, desde criança, foi capaz de perceber o invisível diálogo com um tipo de inseto que surge para anunciar a falta de chuva em terra distante, qual é a densidade da sabedoria indígena acumulada em milhares de anos de intimidade com a natureza?

Compartilhar:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Enviar um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no X(abre em nova janela) 18+
  • Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
Curtir Carregando...

O General, meu candidato

18 sexta-feira jun 2021

Posted by Feres Sabino in blog

≈ Deixe um comentário

A história nos dá um exemplo de punição de insubordinação militar, digno de ser lembrado, para que seja ele comparado com o ato de igual natureza, atual, que resultou em nada, e com seu processo escondido sob o manto do sigilo por cem anos.

O ato de ontem e de hoje está no contexto de uma ameaça à institucionalidade do país, mas o ato histórico lembrado foi do Ministro da Guerra, Henrique Batista Duffles Teixeira Lott (1894-1984). Ocorreu assim:

Juscelino (36% dos votos) e Jango compuseram a chapa presidencial vencedora, na eleição de 1955, na qual concorreram com Juarez Távora (30% dos votos) e Ademar de Barros (16% dos votos).

A tensão política que levara Getúlio Vargas ao suicídio, que desarmara, provisoriamente, a arrogância de civis e militares golpistas prosseguiu, sendo que o braço político do golpismo, a União Democrática Nacional (UDN), sabia que não chegaria ao Poder pelo voto e, nas trevas sob a liderança de Carlos Lacerda, conspirava com militares da Escola Superior de Guerra.

A vitória da dupla JJ era contestada, e desta vez o argumento golpista era de que Juscelino não conseguira se eleger com maioria absoluta, ou seja, 50% mais 1. Argumento do pós-derrota.

Era Ministro da Guerra o General Henrique Teixeira Lott, anticomunista, nacionalista e legalista radical. Para ele, “o único desejo do Exército era preservar a legalidade e o regime democrático”.

A campanha contra a vitória subia de temperatura. Café Filho, vice-presidente , assumira o posto, imediatamente após a morte de Getúlio.

No funeral do General Canrobert Pereira da Costa falaram os Ministros militares. Surpreendentemente, o Coronel Jurandir Mamede, sem constar do cerimonial, pronuncia um discurso desafiador da hierarquia e da disciplina militar. Homenageia o general falecido e inadequadamente refere-se à “perpetuação dessa mentira democrática como uma “pseudolegalidade imoral e corrompida”, que consagra a decisão de um Presidente da República com “uma vitória da minoria”.

O Ministro da Guerra e outros generais e oficiais que cultivavam o respeito à hierarquia, com rigor absoluto, queriam a punição do Coronel e a defesa da legalidade.

Carlos Luz como substituo de Café Filho, internado em hospital, convoca Lott para ir ao Palácio e deixa-o esperando por duas horas, num chá de cadeira intolerável. O Presidente interino lhe diz que não haveria punição de Mamede, e Lott entrega o cargo. O substituto já estava na sala ao lado, era o General Fiuza de Castro. A posse fica para o dia seguinte, ele precisa redigir o Boletim de despedida. Sai, vai para casa. Insone, liga para o general Odílio Denys, que na madrugada reunia-se com outros militares que não aceitavam a insubordinação, e muito menos o golpe. Encontram-se em seguida, no Ministério da Guerra, e articulam com os comandantes das regiões e militares.

Os golpistas abrigam-se no cruzador Tamandaré, para voltaram de Santos, antes de lá chegarem. Carlos Lacerda pediu asilo na embaixada de Cuba.

O Coronel Jurandir Mamede foi preso pela insubordinação e indisciplina.

Lott convoca as lideranças políticas dizendo que o problema não pode ter solução unicamente militar, era precisa a solução política. O Congresso vota o afastamento de Carlos Luz, instaura o estado de sitio, só revogado com a posse de Juscelino e Jango. Café Filho renuncia.

O general Lott, quando candidato a Presidente da República, em 1960, concorrendo com Jânio Quadros, recebeu meu voto consciente, porque era nacionalista, legalista e defensor radical da Constituição. Sua nota circular aos comandantes das tropas disse que as Forças Armadas “estavam coesas e unidas, isentas de partidarismo e atentas em seus deveres, impedindo que a nação caminhe para a anarquia e a ditadura”.

Compartilhar:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Enviar um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no X(abre em nova janela) 18+
  • Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
Curtir Carregando...
← Posts mais Antigos
Posts mais Recentes →

Posts recentes

  • O lixo do pastor
  • A soberania do Brasil e o espírito de vira-lata
  • A traição da fé
  • A PAZ, rediviva ou ressuscitada
  • A escumalha parlamentar na fase pré-natalina

Arquivos

  • janeiro 2026
  • dezembro 2025
  • novembro 2025
  • outubro 2025
  • setembro 2025
  • agosto 2025
  • julho 2025
  • junho 2025
  • maio 2025
  • abril 2025
  • março 2025
  • fevereiro 2025
  • janeiro 2025
  • dezembro 2024
  • novembro 2024
  • outubro 2024
  • setembro 2024
  • agosto 2024
  • julho 2024
  • junho 2024
  • maio 2024
  • abril 2024
  • março 2024
  • fevereiro 2024
  • janeiro 2024
  • dezembro 2023
  • novembro 2023
  • outubro 2023
  • setembro 2023
  • agosto 2023
  • julho 2023
  • junho 2023
  • maio 2023
  • abril 2023
  • março 2023
  • fevereiro 2023
  • janeiro 2023
  • dezembro 2022
  • novembro 2022
  • outubro 2022
  • setembro 2022
  • agosto 2022
  • julho 2022
  • junho 2022
  • maio 2022
  • abril 2022
  • março 2022
  • fevereiro 2022
  • janeiro 2022
  • dezembro 2021
  • novembro 2021
  • outubro 2021
  • setembro 2021
  • agosto 2021
  • julho 2021
  • junho 2021
  • maio 2021
  • abril 2021
  • março 2021
  • fevereiro 2021
  • janeiro 2021
  • dezembro 2020
  • novembro 2020
  • outubro 2020
  • setembro 2020
  • agosto 2020
  • julho 2020
  • junho 2020
  • maio 2020
  • abril 2020
  • março 2020
  • fevereiro 2020
  • janeiro 2020
  • dezembro 2019
  • novembro 2019
  • setembro 2019
  • agosto 2019
  • julho 2019
  • junho 2019
  • maio 2019
  • abril 2019
  • novembro 2018
  • outubro 2018
  • agosto 2018
  • julho 2018
  • junho 2018
  • maio 2018
  • abril 2018
  • março 2018
  • fevereiro 2018
  • janeiro 2018
  • dezembro 2017
  • novembro 2017
  • outubro 2017
  • setembro 2017
  • agosto 2017
  • julho 2017
  • junho 2017
  • maio 2017
  • abril 2017
  • março 2017
  • fevereiro 2017
  • janeiro 2017
  • dezembro 2016
  • novembro 2016
  • outubro 2016
  • setembro 2016
  • agosto 2016
  • julho 2016
  • junho 2016
  • maio 2016
  • abril 2016
  • março 2016
  • fevereiro 2016
  • janeiro 2016
  • dezembro 2015
  • novembro 2015
  • outubro 2015
  • setembro 2015
  • agosto 2015
  • julho 2015
  • junho 2015
  • maio 2015
  • abril 2015
  • março 2015
  • fevereiro 2015
  • dezembro 2014
  • julho 2014
  • junho 2014
  • maio 2014
  • abril 2014
  • março 2014
  • dezembro 2013
  • novembro 2013
  • setembro 2013
  • agosto 2013
  • julho 2013
  • junho 2013
  • maio 2013
  • março 2013
  • fevereiro 2013
  • janeiro 2013
  • agosto 2012
  • junho 2012

Categorias

  • blog

Meta

  • Criar conta
  • Fazer login
  • Feed de posts
  • Feed de comentários
  • WordPress.com

Blog no WordPress.com.

  • Assinar Assinado
    • Feres Sabino
    • Junte-se a 58 outros assinantes
    • Já tem uma conta do WordPress.com? Faça login agora.
    • Feres Sabino
    • Assinar Assinado
    • Registre-se
    • Fazer login
    • Denunciar este conteúdo
    • Visualizar site no Leitor
    • Gerenciar assinaturas
    • Esconder esta barra
%d