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Amazônia e os cuidados com nossa soberania 2

28 segunda-feira dez 2020

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Busquemos nos fatos os cuidados com nossa soberania:

Em 7de outubro de 2002, o jornal Verdade veiculou artigo sob o título A chegada oficial do espião, e pontuava “o ingresso desses profissionais da espionagem estrangeira, mediante autorização do governo brasileiro, ocorreu em um momento de oportunismo único, porque, excetuando o jornalista Elio Gaspari, da  Folha de São Paulo, e a excelente revista Carta Capital, do jornalista Mino Carta, não se ouviu nenhuma voz erguida contra essa agressão ao sentimento e à consciência de nossa independência e soberania”.

Atualmente, cidadãos norte-americanos podem entrar no Brasil sem o visto turista, que é exigido para os brasileiros ingressarem no território do império. A vassalagem atual retirou a reciprocidade, que qualquer país com altivez exige. De quintal confunde-se com casa da sogra. E vice-versa. É verdade: espião não é turista, mas pode fingir.

Em 5 de maio de 2002, o jornal Verdade veiculou artigo sob o título A derrubada do embaixador. O embaixador brasileiro José Maurício Bustani exercia o cargo de Diretor da Organização para proibição das Armas Químicas, integrada por 145 países. Sua queda foi articulada pelos Estados Unidos, em pressão jamais vista na diplomacia internacional. Bustani representava um estorvo à decisão americana de atacar o Iraque. Provou-se que nosso embaixador tinha razão. Não havia armas químicas no Iraque. Nosso governo, mesmo convocando o embaixador para ouvi-lo pessoalmente, ficou inerte diante do processo de votação, que o retirou da diretoria, sem maioria absoluta.

Nesse rosário de pequenez ética, moral e cívica, não poderia faltar o que aconteceu na cooperação da Lava Jato com o Departamento de Justiça americana, que até entregou documentos que serviram para punir a Petrobrás, mesmo sendo ela vítima de assalto, e ainda sem que essa cooperação passasse pelo Ministério da Justiça, que recentemente informou nada ter passado por ali, classificando a ilegalidade dos atos. Vale como ilustração o que o blog GGN, do jornalista Luis Nassif, veiculou literalmente: “Em abril de 2016, o procurador Paulo Roberto Galvão viajou aos Estados Unidos e esteve com agentes do Departamento de Justiça (DOJ) e da SEC, Comissão de Valores Mobiliários norte-americanos, e em fevereiro de 2017, Carlos Fernandes dos Santos e Deltan Dallagnol também estiveram no Departamento de Justiça”.

Também não é de se desprezar o que foi publicado no Google, no dia 5 de julho de 2016, sob o título WikiLeaks revela influência dos EUA sobre a Lava Jato e Sérgio Moro, dizendo no resumo da longa matéria: “Documentos do governo dos Estados Unidos vazados pelo WikiLeaks revelam o treinamento de Sérgio Moro e mostram como os trabalhos do juiz federal e da Lava Jato sofrem influência daquele país. O informe cita ainda assessoria externa em ‘tempo real’ para os brasileiros.”

Sérgio Moro ainda terá uma biografia merecida. Agora se tornou sócio da empresa de consultoria internacional Alvarez & Marsal, que trabalhou na recuperação da Odebrechet. Foi essa mesma empresa que apresentou a prova de que o apartamento tríplex pertencia a OAS, e mesmo assim o ex-Juiz preferiu criar um proprietário imaginário.

E ainda: para onde Sérgio Moro se dirigiu, afastando-se por cinco dias do Ministério da Justiça, quando O Intercept Brasil começou a revelar as ilegalidades absurdas da Lava Jato? Para os EUA, quiçá para buscar saberes com a CIA, órgão de espionagem.                                      

A certeza de que a América Latina, e nela o grandioso Brasil salve-salve, que é confundido, às vezes, como um quintal, está na declaração que o jornalista Nelson Sá, em sua coluna “Toda mídia” da Folha de São Paulo, do dia 4 de dezembro de 2020, veicula literalmente assim:

“No New York Times ‘China prestes a ser a primeira a distribuir vacina na América Latina’, diz autoridade americana, ‘China a caminho de bater os EUA’”.

A autoridade é o chefe do Comando Sul, na Flórida, almirante Craig Faller. Ele ficou conhecido no Brasil ao apresentar o brigadeiro David Alcoforado para o Trump, comentando: “Brasileiros pagando para ele vir aqui e trabalhar para mim”.

Cada fato, ora relatado, representa ato de dissimulada submissão a interesses que não são nossos, contaminando qualquer esforço de se colocar nossa soberania no centro de um projeto nacional de desenvolvimento; e a Amazônia constitui uma parte do território que não está coberta por uma consciência integrativa de nossa identidade nacional.

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Abaixo a inteligência! Viva a morte!

27 sexta-feira nov 2020

Posted by Feres Sabino in blog

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Nosso presidente, que tem desorientado até quem pretende se orientar por sua palavra reitora, porque presidencial, tem dito tantas e tantas, que monstra uma linha admirável de coerente alienação, ameaçando aos valores e às instituições democráticas. Isso quando não ameaça algum país, como essa antepenúltima declaração – “quando acaba a saliva, tem a pólvora”, confrontando os Estados Unidos de Biden. “Tudo menos o ridículo”, aconselharia Fernando Pessoa.

A penúltima foi declarar para o mundo que o Brasil é um “País de Maricas”. Seguramente, não faltou o troco característico da calçada infantil: “Maricas é a mãe”. Só que o mundo gargalhou.

A colocação, no entanto, dessa declaração presidencial no nível da infância indignada é tão irresponsável quanto ela própria, uma vez que se trata do ocupante do cargo político mais elevado do sistema democrático de um país, com sua representatividade, seu rito e sua simbologia.

Há quem se entregue à fidelidade ideológica ou meramente política, envergonhado de se envergonhar com tamanho desatino, e sai declarando que é sim estupidez, entretanto, vê-se nela a expressão singela de alguém que é muito simples de alma e espírito. Um boquirroto sincero, pode parecer. No entanto, seu ímpeto de perseguição à imprensa é a afronta a quem o critica ou lhe é contrário, e revela o que pensa e projeta essa personalidade real que emagreceu os órgãos de fiscalização ambiental; culpou na ONU os índios e os caboclos pela devastação amazônica; faz declarações como sendo anticiência e antiuniversidade; desorienta o país taxando de “gripezina” o surto mundial da Covid-19 e, por ora, desestimula o sistema de vacinação, ignorando que até o sarampo está de volta.  Tem ainda o inusitado de fazer do Palácio do Planalto o bunker da defesa de sua família. É o que revela a notícia de 21 de novembro, do Correio Brasiliense, via Agência Estadão: “O presidente Jair Bolsonaro conversou por cerca de duas horas nesta sexta-feira, 20, com o corregedor-geral do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), desembargador Bernardo Moreira Garcez Neto. O magistrado é integrante do Órgão Especial do tribunal, o mesmo que vai decidir se aceita ou não a denúncia contra o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos). O filho ‘Zero um’ do presidente é acusado de comandar um esquema de ‘rachadinha’ em seu gabinete da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), quando era deputado estadual”. E a notícia prossegue: “Em 25 de agosto, Bolsonaro também recebeu advogados do filho Flávio, no Planalto. Sem registro na agenda oficial, o encontro teve a participação do ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, e do diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem. Em nota, o GSI afirmou que o objetivo da reunião foi debater supostas ‘irregularidades das informações constantes de Relatórios de Investigação Fiscal’ produzidas por órgãos federais contra o filho”.

A única contribuição dessa visita é mostrar a proporção da justiça, que tem o seu tamanho. O desembargador até se escondeu atrás de uma pilastra para evitar a imprensa, diz a notícia.

O Presidente, em plena celebração do “Dia da Consciência Negra”, procura usar o método desviante de seu discurso político para não dar à realidade do ato-fato a expressão simbólica que representa, no caso, a descarga elétrica da maldade, a qual mancha a história do Brasil com a escravidão esparramada por aproximadamente cinco séculos.

“Não existe uma cor de pele melhor que a outra”. Mas existe uma cor de pele cuja exploração histórica não acabou, na pauta da discriminação do negro, da mulher, de grupos minoritários da sociedade brasileira.  Ele diz nada, achando dizer tudo. Atrás dessa declaração, o que impera, primeiro, é a ignorância da formação étnica do Brasil e o respeito devido às vítimas da tortura massiva, que se destacam nos milhões que morreram e milhões que se sucedem no processo “in” civilizatório do país, que até hoje não foi capaz de resgatar esse passivo social. A fonte dessa tosca palavra é a brutalidade continuada sobre uma raiz que se aprofunda, mais e mais, na alma da nacionalidade.

Entranha-se, sem razão, essa declaração destampada, dado que a vida do presidente jamais deixou de louvar a tortura política ou a pregação de uma guerra civil, se chegasse à presidência, na qual mataria trinta mil sob o pretexto de inaugurar com sangue a salvação do país. Esse mesmo país que ele está desossando, vendendo rapidamente o que pode, dizendo que a ditadura militar foi benéfica à restauração democrática. Não esconde a sua ligação umbilical com o maior torturador brasileiro, já falecido.

Cultivemos a irmandade afro-brasileira como irmandade. Ela está na confluência de nossa formação étnica, misturada, natural e criativamente, na cultura, nas artes, no esporte e na vida social do país, fazendo e esperando com que esse patrimônio comum se converta, efetivamente, em armas contra os muros da discriminação e da imobilidade de seus descendentes, para elevá-los ao patamar da igualdade.

É uma questão de justiça histórica e nós parecemos querer continuar a viver “com o preconceito de que não temos preconceito”. Esse é ressaltado com o choque elétrico da morte de João Alberto Silveira Freitas, no supermercado de Porto Alegre, que trouxe ao olhar televisivo, e aos ouvidos descansados, o mero sinal do que acontece diariamente no Brasil contra negros, mestiços e pardos, como preferentes da violência que mata ou que prende.

É bom recordar e repetir, sempre, o cântico do fascismo espanhol, dado que ele serve de parâmetro para se compreender a mentalidade vigorante do racismo estrutural e compreender a opinião de qualquer pessoa e também a do chefe de plantão:

“Abaixo a inteligência! Viva a morte!”

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Bolívia

15 domingo nov 2020

Posted by Feres Sabino in blog

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A Bolívia foi o país que mais cresceu durante o longo período presidido por Evo Morales, o indígena.

Evidentemente que a oligarquia de qualquer nação não tolera a ascensão das classes desprotegidas e pobres da sociedade. Elas se sentem ameaçadas, acreditam não na justiça, mas na possibilidade de perder sua posição social e eventuais privilégios. Esse preconceito antinacional aceita o conúbio com interesse estrangeiro, que no caso da Bolívia se trata de um metal leve, o lítio, empregado na fabricação de carros elétricos, com os quais o país queria alavancar seu desenvolvimento. Tanto que o fabricante norte-americano, que não admite tal concorrência, já declarou ter financiado o golpe. E tem mais: a oligarquia de Santa Cruz de la Sierra, cerne desse problema, aliás, ainda que pequena, não aceita, em nome de seus parceiros estrangeiros, que o lítio seja vendido para a China.

Atualmente, o discurso político que enaltece a democracia pela democracia é produto de um disfarce que pretende intoxicar a mente escravizada pela mentira, segundo a qual se cada um quiser crescer, desenvolver-se como indivíduo e com sua vontade inquebrantável, ele o conseguirá. O resultado é que esse diapasão neoliberal, vinculado convenientemente à fé religiosa, faz muito indivíduo acreditar ser ele mesmo o próprio deus, dispensando o que a religião ensina como preceito básico, que é a comunhão e a cooperação, imperativos humanos da solidariedade.

Se para o neoliberalismo é só o indivíduo, nada vale o ensinamento do filósofo espanhol que conceitua o homem, acrescentando-lhe a força das circunstâncias que o envolvem.

A cultura indígena naturalmente vive a solidariedade ligada à natureza, mãe e patrimônio comum de todos os homens, mulheres e crianças. Não é possível desprezar essa realidade latino-americana, assim como não se pode desprezar Confúcio e Lao-Tsé na cultura milenar chinesa ou a confluência do índio e do negro na cultura brasileira.

Ora, se o denominador comum de uma sociedade majoritária por milênios não fugiu à cooperação e à solidariedade permanente, só uma política de ruptura desse laço é que arrasta o país ao subdesenvolvimento permanente, como a Bolívia, que viveu tantos golpes de estado, até que encontrasse alguém que correspondesse às expectativas da cultura milenar.

Disseram antes, como preparação ao golpe, e no tradicional uso do moralismo tosco, que houvera fraude para a reeleição de Evo Morales. Recentemente uma nova análise independente, publicada pelo Washington Post, afirmou categoricamente: não houve fraude. Mas o serviço da estupidez golpista já estava feito. Evo saiu de seu país para não ser morto.

O país foi presidido por uma senadora, que se apresentou como “presidente”. A liderança dos poderes renunciou, ou foi renunciada.

Agora, o voto soberano das urnas deu a vitória a Luís Arce no primeiro turno, eleito pelo mesmo partido de Evo. Pepe Escolar, o extraordinário jornalista, que residiu em tantas capitais do mundo, comenta que a senadora golpista, ex-presidente, já pedira ao Departamento do Estado trezentos e cinquenta vistos de entrada nos Estados Unidos.

Mas a vitória nas urnas não sufoca nem a direita nem a esquerda.E quando a violência é a opção antidemocrática, acontece assim: uma primeira bomba  colocou em risco a vida de Luís Arce, o presidente eleito, quando reunido na sede do seu partido, antes mesmo da realização de sua posse. Naquela ocasião sua própria guarda de segurança retirou-se, previamente, para que o artefato do mal explodisse livremente.

Uma lição pode ser copiada pelo Brasil. Apesar da trepidação dos contrariados interesses políticos, econômicos e militares, o que realmente liga, ou deveria ligar as nações e os países, são os interesses de cada um. 

Não cabe a um presidente ou a uma oligarquia ser mais leal a um presidente de um outro país, ao invés de ser leal e fiel a seu próprio país. A vassalagem de um governo de país emergente, cujo chefe se dedica a lamber o chefe e a bandeira estrangeira, é tão desprezível como um lesa–pátria, e causa danos irreversíveis.

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