A enganação para a guerra

A propaganda, que é a alma do negócio, também serve à guerra para formar a opinião pública, geralmente com mentiras.

A primeira grande mentira foi a preparação tosca da preparação do ataque norte-americano ao Iraque. Tal preparação antecedeu à explosão das torres gêmeas. Essa foi a primeira guerra na história das guerras, em que o mundo soube das razões mentirosas antes de seu início.

Dois episódios são lembrados daquele período. O primeiro aconteceu, em fevereiro de 2003, quando o Secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, foi ao seu Congresso, para mostrar as provas de que o Iraque possuía armas biológicas. Era mentira total, as provas eram falsas. O outro episódio foi a pressão que o embaixador brasileiro José Maurício Figueiredo Bustani sofreu, como diretor-geral da Organização Para Proibição de Armas Químicas. Ele procurava, e estava quase conseguindo, trazer o Iraque para o seio de sua Organização. Esse trabalho contrariava o governo norte-americano, pois retiraria a razão forjada da guerra. Ele precisava da narrativa mentirosa da existência das tais armas químicas no Iraque. Até a família de José Bustani foi ameaçada por autoridade americana. Nessa pressão, o governo brasileiro agiu de forma a merecer crítica de Bustani, até hoje. Essa “História do diplomata brasileiro que tentou impedir a invasão americana do Iraque” tornou-se um filme, dirigido por José Joffily.

Agora, com essa guerra Israel x Irã, aconteceu atuação semelhante, cercada por um clima de enganação. Era preciso distrair o Irã, e induzir a erro todos os que acompanharam o episódio: não haveria ataque próximo. Não se deve esquecer dos anos em que o governo sionista se dedicou a tentar arrastar os Estados Unidos para essa guerra, aproveitando-se da permanente solidariedade entre ambos.

Haveria a sexta reunião sobre as negociações, entre Irã e Estados Unidos, que acabou suspensa com o inesperado ataque de uma sexta-feira, assim sorrateiro, assim durante a madrugada. Todos dormindo.

Depois, Trump disse que não teria nada com isso, até parece! Israel não se sustenta sem o apoio americano, ininterrupto durante mais de cinquenta anos, inclusive apoiando o descumprimento das decisões do Conselho de Segurança e das deliberações da ONU, numa solidariedade cega à continuada e duradoura exploração e humilhação dos palestinos, até o requinte do genocídio caprichoso e demorado de homens, mulheres e crianças, até pela sonegação de alimentos, no intervalo das armas.

O ataque e a matança de generais e cientistas iranianos ocorreu sorrateiramente na madrugada. A enganação foi e é a do perigo iminente, pois o Irã chegaria à bomba nuclear. A Constituição iraniana dispõe que arma nuclear não corresponde à vontade do governo do país, e que era só para produção de energia, excluindo a temida bomba por lei escrita humana, excluída como inspiração religiosa. Energia nuclear só para fins pacíficos.

Na última hora apareceu o Relatório da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), para dizer que o Irã caminhava para fazer sua bomba, mas a mentira dessa informação equipara-se à do ataque ao Iraque, pois os pontos atacados por Israel correspondem aos pontos visitados pela delegação da Agência, que perde credibilidade e lança uma desconfiança irrevogável. A propósito, o Irã faz parte do Tratado de Não Proliferação das Armas Nucleares. Israel não é parte, não assinou o Tratado. Quem não tem a bomba, quem se comprometeu a não a ter é justamente quem ameaça. Eis o discurso da hipocrisia.

Na verdade, Israel segue o sionismo expansionista que quer estabelecer a Grande Israel bíblica, com a força de quem sabe matar, passando por mortes individuais em tempo de aparente paz, ou mortes coletivas, como o genocídio exposto à insanidade mundial.

Agora, Trump, já se desdisse, antes nada sabia, depois sabia, e já declarou que defenderá Israel assim como a França, assim como a dubiedade da Alemanha, como se todos estivessem sob a ameaça iminente, quando quem possui bomba nuclear é Israel, Estados Unidos, França e mais alguns outros.

O fato é que o Irã não tem a maldita bomba atômica, e se Israel e outros países a têm, por que o Irã não pode tê-la? – perguntava o inesquecível Plínio de Arruda Sampaio, em sua campanha presidencial.

O espírito da soberba colonial dos países europeus quer voltar ao controle e domínio das riquezas, especialmente, a do petróleo, objeto histórico da exploração ocidental, tal como estão roubando o petróleo do leste da Síria cambaleante.

Israel não faz fronteira com o Irã. Entre a fronteira de um e de outro, existem 1.585 quilômetros, separando-as, e no meio há países, que não disseram que se sentem ameaçados.

Assiste-se à narrativa universal de uma paranoia europeia, norte-americana e da imprensa ocidental, repetindo que Israel tem direito de defender-se, preventiva e até sorrateira e traiçoeiramente. E quem é atacado, não tendo a bomba, tendo assinado o Tratado para não a ter, estando na mesa de negociações, como o Irã estava, não tem o mesmo direito de defender-se?

Só o cálculo expansionista para a Grande Israel é que move a estupidez dessa guerra, somado pelo calculado interesse político e pessoal do Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu de autodefender-se, autoproteger-se, pois, antes dessas guerras, ele já estava sendo processado por corrupção.

A fixação da guerra

Tenho assistido, quando posso dispor desse tempo, às entrevistas de dois professores universitários, um suíço e outro norueguês, cada um em seu canal de YouTube, sobre a geopolítica atual, e a referência, inevitavelmente, é a guerra Rússia x Ucrânia, quando não passam pelo genocídio praticado, com distinguido horror, diariamente, lá em Gaza.

Evidentemente, dessas análises não escampam nunca as narrativas que levaram à guerra, especialmente da Rússia x Ucrânia, sem excluir o silêncio eloquente da imprensa ocidental sobre Gaza, e a brutalidade sionista. Ataca, mata, vangloria-se, com o guarda-chuva de potências ocidentais, como agora no Irã.

O fato é que a guerra por procuração, que confronta atrás do pano a OTAN, controlada pelos norte-americanos e a União Europeia, dominada por ela, poderia ter terminado em 2022, quando, em Istambul, reuniram Zelensky e Putin. Estava tudo acertado, quando o primeiro-Ministro britânico, representando a força guerreira ocidental, impediu que o acordo se consumasse, e ainda com a promessa de ajuda.

Essa fixação guerreira é alimentada pela narrativa de que a Rússia quer países da Europa, restaurando a antiga União Soviética, o que seria uma falsidade, pois ela não teria vantagem alguma em alimentar essa ambição, pois seu território, que é o dobro do brasileiro, tem riquezas inexploradas, que agora ganham ímpeto de exploração, em decorrência da parceria com a China, e com o grau de crescimento comercial na Ásia, que fez a economia russa responder ao inusitado volume de sanções aplicadas pelos norte-americanos.

A situação é grave, pois a Rússia certamente vai retalhar a destruição, até vexatória e, segundo Pepe Escobar, de seis ou oito aviões militares da frota de suas ogivas nucleares. Mas, seguramente, não interessa que a retaliação ultrapasse determinado limite, para não se correr o risco de uma terceira guerra mundial. Aliás, esse ataque de surpresa, com drones, surpreendeu, pois houve violação de um tratado vigorante desde a Guerra Fria, segundo o qual tais aviões devem mesmo ficar à vista, assim, expostos em aeroportos, tanto norte-americanos como russos, para que os satélites os vigiem.

Essa ocorrência gravíssima sucede ao início de conversações para um acordo, que os russos impõem como condição, de que a ONU seja o fiel desse cumprimento, pois, segundo eles, os líderes ocidentais não merecem crédito, nem confiança, até por eventos e atos anteriores.

Essa realidade horrenda, porque de guerra, quando a Europa não tem nada que interesse à Rússia, teve um sobressalto com a vitória de Trump, que colocou os europeus no nicho da irrelevância, o que os endoidou, e ainda fez menção às razões da guerra, que autorizariam os russos a agirem como agiram.

O que é afirmado nessa ou naquela entrevista é que os europeus não têm dinheiro para cuidar de suas populações, muito menos para pagar a volúpia armamentista que os empolga, cegamente, com os gritos de guerra, em meio à crise econômica de seus principais países.

Essa geração de líderes da Europa seguramente não tem em suas lembranças o que foi a tragédia de destruição e morte da 2a Guerra Mundial.

A esperança seria a fixação pela e da Paz.

O cartão de apresentação internacional da ditadura

Se a ditadura militar do Brasil, que durou de 1964 a 1985, tem atualmente conseguido estar no palco internacional, mediante os filmes premiados, a ponto de seus responsáveis terem pensado, assim paradoxalmente, que valeu a pena alimentá-la, até com sangue, já que até hoje se fala dela e seus horrores. Mal sabem que nem ela e nem eles jamais serão esquecidos. Mas o fato é que não demorou mais do que três dias para ela conseguir sua primeira e vergonhosa repercussão internacional. Foi no dia 3 de abril de 1964.

Três dias depois de ela ter se instalado, a polícia do Rio de Janeiro invadiu dois apartamentos, para prender nove chineses que estavam no Brasil desde 1963, acusando-os, gratuitamente, ou seja, sem provas, de que eram “agentes estrangeiros trazidos para fazerem uma revolução no Brasil”. Na verdade, eles estavam organizando uma exposição comercial, e não encontrando nada que os comprometesse, então saíram com essa… divulgando que nossos remédios chineses contra a gripe e nossas agulhas de acupuntura seriam para assassinar pessoas”. É a revelação do único sobrevivente Ju Oingdong, na entrevista dada à Folha de São Paulo, em 2014. Eles foram condenados a dez anos de prisão, em regime fechado. Cumpriram um ano da pena, e sua defesa gratuita foi do inesquecível advogado Sobral Pinto, o último a se despedir deles, à porta do avião. A imprensa internacional e até a nacional estiveram ao lado deles.

Na verdade, a política de não alinhamento, entre o bloco capitalista e o bloco socialista, foi inaugurada pelo chanceler San Tiago Dantas (o governo atual se esforça para segui-la…) quando a Presidência era ocupada por Jânio Quadros, que enviara à China o então vice-Presidente João Goulart. Sua tratativa “permitiu à China estabelecer um escritório comercial permanente e uma exposição comercial e industrial”. Os fautores do golpe de 1964 e seus esbirros disseram que a presença deles era para fazer revolução comunista.

Hoje, a China, que não mudou de regime, é o primeiro parceiro comercial do Brasil, faz investimentos vultuosos no mundo todo. Uma diferença estabelecida com a liderança do mundo ocidental, é que ela sempre esteve preocupada em fazer guerras e desestabilizar governos, enquanto a China fez inclusive a redenção de milhões de pessoas, tirando-as da miséria, que a Google registra assim: “A China tirou 800 a 850 milhões de pessoas da linha da pobreza desde a década de 1970, uma redução significativa na população que vivia em pobreza extrema. A China declarou ter erradicado a pobreza absoluta em 2020, elevando todos os seus cidadãos acima da linha de pobreza”. Além disso, revitalizou grande parte das antigas Rotas da Seda, numa demonstração clara de que não é de seu interesse estratégico a guerra. Ela se interessa pela paz e em fazer comércio.

Nós, os cretinos, ao invés de estudar como a China, entre 1964 e 2025, conseguiu fazer tanto, em todos os ramos do conhecimento e das políticas públicas, ficamos gritando “comunista, comunista”. Eles investiram em ciência e em tecnologia. E, apesar de temos um precedente nacional, nós o desprezamos, já que de 1930 a 1980 o Brasil foi o país que mais cresceu no mundo. Depois, nosso parque industrial foi paulatinamente reduzido e chegamos ao ponto de deputados irem ao estrangeiro pedir sanções ao próprio país, e ainda contando falácias. Num autêntico ato de traição à pátria. Agora, temos a deputada condenada, que como outros, dão entrevistas internacionais, repetindo mentiras e acusando julgadores.

O Brasil está assistindo a essa penca de políticos, provindos como filhotes da ditadura, comprometendo o futuro do país, com as mentiras contra as Universidades, retirando verbas da educação e da cultura, criando a bitola estreita das escolas militares, não levando em conta nem o que a Coreia do Sul fez e faz, através de seu governo, para as letras e a cultura, que seus filmes têm demonstrado ao Brasil.

A mediocridade nacional poderia ter um momento milagroso de lucidez, para procurar quem conheceu a China, e que visitou, por exemplo, Xangai, a maior cidade do país, com mais de 26 milhões de habitantes. Para saber, o que Pepe Escobar já anunciara há muito tempo – que em Xangai só tem carro elétrico, não há barulho, é um silêncio, e com o ar sem a contaminação de combustível. E ainda nos chegam à exibição das estradas de ferro e das estações de metrô futurísticas, como chegam o tempo de duração da construção de imóveis ou de estradas de ferro, e ainda a reforma dos portos que já é feita em tantos os países, preparando as antigas Rotas.

Sabe-se que a história cultural e espiritual da China tem cinco mil anos e qual é a potência ocidental que tem história semelhante? Nenhuma. E o que se soube desse longo tempo é que até a ideia de planejamento é tão antiga como é antiga a história de tal ou qual imperador. Aqui, a distribuição das emendas parlamentares retira a possibilidade de planejar, com as prioridades devidas, as políticas públicas.

Para o mundo atual, um economista que viveu um tempo na China respondeu à pergunta sobre a diferença do regime chinês, comparando-o com as chamadas democracias ocidentais: “Lá o Poder econômico não compra o Poder político”, respondeu.

Depois de 60 anos, soubemos como fomos estrupidos, em prender, condenar e expulsar os chineses que vinham preparar uma exposição. Não tinham interesse algum em matar, como a vontade recente revelada e provada dos militares golpistas de 8 de janeiro, que planejaram matar como o auge de uma preparação de quatro anos, ou mais.

Quando eles foram deportados pelo General Castelo Branco, na chegada ao país, a China os recebeu como heróis.