O ódio como arquiteto de cadáver

A continuação da verborragia do ódio que ora ataca instituições ora ataca pessoas civis ou militares; ora maldiz os brasileiros do Nordeste, designando-os pejorativamente de “paraíbas”, ora ataca a realidade histórica e retira dela e de seus porões a miséria moral causada pelas torturas – que elogia; ora se repete contra o meio ambiente, gerando descrédito do Instituo Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o qual registra o aumento de 278% de desmatamento na Amazônia em comparação com o mês de julho de 2018 ora confronta ou elogia os demais Poderes da República; ora enaltece o Brasil irreal dos sem fome, para desmentir-se em seguida, ora obscurece os meios de transparência da gestão governamental – que existiam; ora quebra elos de participação em órgãos então colegiados ora quer vingar-se de jornais e de jornalistas que praticam a crítica democrática. Ora, ora, ora…a continuidade dessa verborragia do ódio conduz à insegurança geral a crescente debilidade da democracia brasileira que, para um golpe final, só precisará de um cadáver. O candidato para esse sacrifício de morte matada deverá ser pessoa de proa, liderança, o que abalará de vez a ordem pública e chamará o glorioso exército para banir os maus e ficar com os bons, com seleção inicial e, depois, sem seleção, alimentando o instinto da morte do outro por qualquer motivo. De tal crime nefando a culpa será sempre da oposição.

O nosso capitão presidencial, que fora militar indesejado na corporação, hoje se vinga de generais insubmissos, como o competente Carlos Alberto de Santos Cruz (“Fábrica de crises”, Folha de São Paulo, 8/5/2019), enquanto tem sabido alisar os que lhes são aderentes silenciosos. Nesse governo já tem mais militares do que os teve o governo militar.

A ditadura ou o autoritarismo não acontece de repente. É um processo cuja antecipação delirante é causada por um cadáver ilustre, do qual o enterro é até pomposo, para que caiba no mesmo buraco a chamada democracia, que morre junto.

A sorte é que a história continua, o que significa que qualquer soberano só fica, se petrificado, para repudio eterno.

A nudez de cada santo do pau oco

A corrupção é como a violência, não nos abandona nunca, e se não tivermos desenvolvido os freios da civilidade e da ética, uma e outra crescem desenfreadamente, especialmente num país onde o maior problema e, portanto, a maior injustiça, é a desigualdade social.

O corrupto, seja o que afana o direito pessoal alheio ou o patrimônio público, seja aquele que aplica distorcida e perversamente a lei, iguala-se em atitudes como tal. Um e outro, os que em nome da lei assaltam o patrimônio público da legalidade, ou os que em nome da violência assaltam o patrimônio privado, tratam a ordem jurídica com desprezo, sem tê-la como impositiva de conduta regular e ética para a convivência social.

A pior corrupção é de quem torce e destorce os princípios e as regras que compõem a ordem jurídica do país, propagando que sem essa exorbitância não haverá combate à corrupção, único mal deste Brasil patrimonialista. Tal é a opinião desses ocasionais combatentes, que precisam dessa razão para se manterem no cenário público, em busca da carne podre e da falsa ilusão induzida.

A criação dessa ilusão serve de alimento à vaidade pessoal, ambiciosa e sedenta de fama. É a visibilidade pública do falso herói desarmado que propicia palestras e empresa de familiares, cuja finalidade é a de arrecadar dinheiro, convertendo discursos da imoralidade dos outros em objeto desse mercado, que pensa ter a corrupção nascida ontem.

A conveniência fez esquecer de que o golpe militar de 1964 teve como razão a liquidação da corrupção dos outros. Durou vinte anos e agora ela é novamente convocada para servir aos mesmos interesses econômicos, financeiros, ideológicos e, quiçá, os estratégicos de potência estrangeira.

Há, no entanto, uma diferença substancial: naquela época não se liquidavam empresas em nome do combate à corrupção. Qual o prejuízo dado ao Brasil com essa volúpia fundamentalista, que extinguiu milhares de empresas e milhões de empregos?

Os membros da Lava Jato não derrubam a razão jurídica que inventaram para os vazamentos que saíram de seu núcleo. Mas, mesmo não admitindo que era obra de algum espírito do colegiado, apresentam a justificativa – seu conteúdo é do interesse público.

Então, com o novo rumo dos ventos confrontam-se, de um lado, a fonte jornalística que é protegida pela Constituição e, de outro, os vazamentos dos tempos de glória de seus membros. Estes, além de absolutamente ilegais e inconstitucionais, porque juiz e promotor devem cumprir a lei, possuem uma peculiaridade: a da fragilidade da pessoa presa, que deve ser protegida e não explorada pela autoridade.

O combate à corrupção é uma luta diária de cada um e a todos os cidadãos. É vigilância permanente dos membros de cada instituição ou Poder, conhecendo a realidade do país no qual grassa o vírus da desigualdade social.

O santuário de Curitiba ficou nu, porque esse padrão de justiça fascista não é o traçado pela engenharia institucional do Brasil. Simples assim. Enquanto o discurso fantasioso da moralidade pública era distribuído, em letra e prosa, o Brasil estava, como está, sendo entregue ao capital estrangeiro aos pedaços.

Tomemos consciência logo, ou o Brasil achará que desistimos dele, dando vitória antecipada aos santos do pau oco, agora nus em praça pública.

Sobre o acordo Mercosul e UE

O ex-ministro Delfim Neto, em entrevista à TV Cultura, foi enfático ao afirmar que acredita que o tratado Mercosul-União Europeia será a redenção do País. Quanto à omissão do governo em apresentar medidas para o incentivo ao desenvolvimento da economia paralisada que fossem simultâneas à discussão da reforma da previdência, ele disse claramente que era uma maneira de pressão governamental, mas que com a aprovação dessa “salvadora” Reforma viriam tais e tantos investimentos que o Brasil sairá dessa apatia (uma paralisia calculada como pressão e milhões de desempregados?).

De ouro lado, Bresser Pereira (FGV/SP) adverte: “Na verdade, esse acordo é um desastre para o Brasil; é mais um passo no sentido de desindustrializar o sonho do Ocidente imperial e dos liberais dependentes brasileiros de tornar o Brasil um mero exportador de commodities, cujo PIB continuará crescendo a uma taxa anual por habitante de apenas 1% (um por cento) ao ano; ficando dessa maneira para trás não apenas dos demais países em desenvolvimento, mas também dos países ricos”. Laura Carvalho, economista e professora da Universidade de São Paulo (USP), posiciona-se nesse mesmo sentido: “O Mercosul aceitou remover tarifas em setores-chave de nossa já combalida indústria, como automóveis, autopeças, químicos e fármacos. Assim, ainda que os efeitos de curto prazo possam ser positivos para os dois blocos, os benefícios de longo prazo para o Mercosul são menos evidentes”. Assim também André Nassif, da Faculdade Getúlio Vargas (FGV/Rio), é determinado em prevenir que tais benefícios serão mais direcionados ao agronegócio, frustrando de vez a industrialização do país, cuja tendência de liquidação data do final da década de 1980. Em 1954, a antevisão de Almino Afonso já dizia: “Industrialize-te ou morre”.

Bresser Pereira cobra posição dos economistas do Conselho Nacional da Indústria, como em Ribeirão Preto poder-se-ia sugerir à Associação Comercial e Industrial que organizasse um seminário, em nome do interesse nacional.

 A rapidez da decisão europeia, após vinte anos de discussão desse acordo, e que demorará ainda mais alguns para ter sua validade prática, uma vez que depende da aprovação dos parlamentos nacionais, também pode ser analisada sob alguns aspectos. O primeiro é o da instabilidade institucional do Brasil e da Argentina, sendo que esta até pediu para que fosse apressada tal assinatura. Um e outro fragilizado, sendo que a imagem internacional do Brasil tangência o ridículo devido ao bazar das bijuterias japonesas de nióbio, divulgada diretamente do Japão pela batuta presidencial, secundada pela cocaína do sargento da comitiva preso na Espanha. E mais: para o país que ganhara protagonismo internacional, com sua política de autodeterminação e de não interferência na política de outros países, tem-se a declaração pioneira e gratuita do alinhamento aos interesses econômicos e estratégicos da política norte-americana, até com a ilustração surpreendente do ato de vestir-se roupa igual ao do astronauta daquela nação, na data comemorativa de sua independência.

Mas a expectativa de que tal acordo pode atualizar o lema da velha república, segundo o qual nosso país é “eminentemente agrícola”, sustenta seu temor na lição de Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia, para quem o acordo entre dois blocos ou países só pode dar certo quando um e outro estão no mesmo nível de produção econômica e desenvolvimento social.

 Impossível nessa etapa não se lembrar da figura histórica de Barbosa Lima Sobrinho, que viveu mais de cem anos apaixonado pela sua pátria e que frequentemente proclamava que o desenvolvimento real é o desenvolvimento autônomo, ou seja, que não dependa prioritariamente de financiamento externo. Ele chegou até a escrever um livro sobre o Japão, pois admirava naquele país exatamente isso: seu desenvolvimento autônomo.

Qual o país do mundo que ajuda o outro a ser potencia igual, para enriquecer a concorrência? Colocar o Brasil dependurado no paletó daquele que, imperativamente, coloca o interesse de seu país em primeiro plano, e não retirar dele essa lição, é o mesmo que confessar sabujice de escravo.

O Brasil tem o direito de ir além do simples sonho de um projeto de desenvolvimento nacional, que não existirá jamais sem sua industrialização.