É bom lembrar-se dele

A morte é simples assim, às vezes. “Morreu dormindo”, diz a voz comovida ao telefone, lá do outro lado. Era o filho com a derradeira notícia do Antonio Calixto. Ele morreu.

E a sua Altinópolis, da trepidação política e de seu refúgio familiar, ela o atraia sempre e com frequência, e finalmente naquele dia o recebeu pela última e definitiva vez. Foi enterrado ali, com o acompanhamento de parentes, amigos, conterrâneos.

Quando se perde assim o horizonte da pessoa, volta-se naturalmente para trás, no garimpo da marca digital de quem foi e era, pois a vida é uma construção fácil de se encontrar nela os sinais da passagem. Muita vez o caminho é parceiro, outra vez é distanciado de outro, ou do seu. Mas, a convergência de um e outro é irresistível quando há amizade, esse altar de bem querer diante do qual tantas vezes as pessoas nem sabem o porquê desse singelo vínculo. São amigos, pronto! Não importa uma ou outra divergência.

Do Calixto político, vereador, deputado estadual e vice-prefeito, fica do trato pessoal à palavra elegante, sempre respeitosa, até na discordância. Da política emerge a figura da coerência na preocupação de olhar o mais pobre, que a advocacia sindical abasteceu de conteúdo.

Ele sempre esteve ao lado ou à frente de boas causas, lugar em que guardou coerência nessa simplicidade de ser coerente. Assim na vida familiar, assim na vida social, assim na vida política-partidária.

Ultimamente, víamo-nos pouco. Em cada tentativa de trazê-lo para o almoço, ele disfarçava a recusa, como se não quisesse ofender, agradecia muito, desnecessariamente, como se não estivesse bem de saúde, querendo ficar mais no seu canto, com sua Sonia, a mulher de ternura e do companheirismo de sua vida, com seu filho, nora e netos.

A morte, que é irmã siamesa do nunca mais, oferece a sensação de que a pessoa, quando morre, vai para frente, como se invadisse o infinito, de vez. E cada um que fica pensa no dia da sua invasão.

O Calixto é uma lembrança de simpatia, de amizade.

É bom lembrar-se dele.

Pobre país!

Um shopping instalou máquinas para receber o dinheiro decorrente do estacionamento, e, de quinze funcionários, onze foram despedidos.

Muitos taxistas não conseguem o dinheiro para pagar as prestações de seu carro. O aplicativo Uber atacou de frente a categoria e com vocação mundial.

O Banco do Brasil recentemente planejou a saída voluntária de milhares de seus funcionários, porque a tendência é de cada cliente ser também o empregado do banco no autoatendimento; ou, para acabar com as tradicionais agências, com a chegada do banco digital.

As empresas aderem à força imperativa de racionalização proposta pela tecnologia, que gera uma produção muitas vezes maior, e dispensam quase todos os seus funcionários. Para não se dizer das fusões empresariais, que alimentam o lucro maior pela quase exclusão dos gastos com salários.

Muitas plantas industriais dos países desenvolvidos ou em desenvolvimento foram transferidas para a China ou para a Índia, visando baratear o custo, ganhar da competividade chinesa, que invadiu o mundo, fechando empresas nos países invadidos, porque o preço dela é muito inferior ao custo do produto nacional. Mais desempregados nos países invadidos, porque as unidades fabris encerram suas portas. O Brasil não é exceção. Será que a sabedoria trumpiana, toda ameaçadora e autoritária, conseguirá retroceder a força intrínseca e expansiva do capitalismo?

Tanto na França como nos Estados Unidos, cidades que eram industriais se tornaram quase fantasmas, garantindo à direita eleitoral, furiosa, odienta, a titularidade do canhestro verbo separatista.

A Constituição do Brasil, em seu artigo 7º, item XXVII, assegurado ao trabalho a sua proteção contra a automação nos termos da lei. Como é que essa norma programática pode se antepor à força imperativa do avanço tecnológico?

Como ficará a previdência social se a sua receita for drasticamente reduzida, reduzida a quase zero, porque o futuro de cada máquina é simplesmente ser substituída por outra máquina, e não pelo braço humano trabalhador?

Como ficará a organização da produção e do Estado com esse exército descomunal de mão de obra rondando a casa e a consciência e a vida de cada pessoa ou empresa dentro de curto e breve espaço de tempo, se não há regra de contenção tecnológica, sendo absolutamente impossível tê-la?

Se não houver emprego, não haverá empregado, não haverá salário, não haverá poder aquisitivo para adquirir a produção centuplicada pela tecnologia, não haverá receita previdenciária. O divino mercado entrará em parafuso?

E onde irão viver, conviver, sorrir e amar, milhões e milhões de pessoas, já que desempregados somarão um número maior do que 13 milhões?

A pressa nas decisões do governo brasileiro em pontos cruciais da relação do trabalho e da previdência, retirou da pauta a necessidade de ouvir as vozes da rua, optando pela maioria parlamentar, faminta de verbas e cargos. O pré-sal foi entregue no auge da perplexa crise institucional. Ainda, o governo oferece, de lambuja, e em ministérios suspeitos de ilícitos, as ações ou as omissões que incentivam a violência nas terras indígenas, o que corresponde a um incentivo geral da violência, porque a estupidez tem sua coerência. Não falta nesse time de comerciantes oficiais quem queira vender terras brasileiras em nome de maior facilidade de financiamento, numa vocação de mercado persa. Sem se dizer do esquartejamento da Amazônia como prova da supina alienação. O Ministério do Meio Ambiente, já abriu licitação (O Estado de S. Paulo, 3 maio), para que empresa privada monitore, por satélite, os biomas brasileiros, serviço até hoje prestado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A dignidade da então diretora fê-la sair na véspera da divulgação do edital.

A aviação civil 100% nas mãos estrangeiras não significa uma área estratégica negociada e vendida?

Que balburdia jurídica foi instalada no Brasil, quando “juiz do Paraná esmagou o devido processo legal com um desassombro inédito em tempos democráticos”, no dizer de Reinaldo Azevedo (Folha de S.Paulo, 12 maio), e o Tribunal Regional Federal da 4º Região dissera antes, para não punir o mediático magistrado, que vivemos em época excepcional, apesar de a Constituição consagrar o Estado Democrático de Direito? Tudo com a arrogância togada, impune. Felizmente, teve um voto contrário naquele tribunal.

E o familiar de integrante da Lava-Jato, que, como advogado, é contratado para cuidar da delação de preso, em prisão duradouramente provisórias, como veiculado pelo Painel da Folha de S.Paulo, de 13 de maio?

Quando discutiremos a política de resgate do sentimento e da consciência de nação? Quando discutiremos a soberania nacional diante do dissolvente de fronteiras, que representa a chamada globalização? Quando discutiremos um projeto nacional para o Brasil, apesar de nossas oligarquias estarem ligadas ao capital financeiro internacional?

Por que a experiência da escola integral, iniciada com os Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), no Rio de Janeiro, não prosseguiu nos governos posteriores? Quantas crianças não teriam sido afastadas do mundo das drogas e do crime se a bendita escola não tivesse sido desmontada lá atrás?

Essas são algumas questões que deveriam estar vibrando nos meios de comunicações, que atualmente incutem na cidadania, ou querem incutir que o maior problema do Brasil é a corrupção, e a nossa salvação é a polícia e seus parceiros da lei.

O destino do grandioso Brasil é ser uma eterna promessa?

Pobre país!

Rios Voadores

Se os ambientalistas, climatologistas, geógrafos e geólogos preocupam-se naturalmente com a ameaça que paira sobre os rios voadores na Amazônia em razão do desmatamento ou da grilagem, agora, mais ainda, essa preocupação se aprofunda com a notícia do esquartejamento da floresta, já que “estão abrindo fendas transversas, contínuas e expansivas na Amazônia, de sul para o norte e de leste para oeste, projetando um cenário de esquartejamento da Amazônia definitivo da floresta, com graves implicações para os fluxos genéticos e de umidade. Ilhas de florestas não conservam animais, plantas e paisagens como ambiente continuo”.

rios voadores blog

Patricia Brandstatter

 

Essa matéria vem à baila em razão do artigo publicado na Folha de S.Paulo, assinado por Márcio Santilli, que confirma o que a Voz do Brasil já ventilara, mas como simples notícia relativa à pressão de deputados e senadores daquele estado, em relação ao território da floresta. Hoje se sabe que essa pressão representa a subtração de um milhão de hectares das cinco unidades de Conservação Ambiental.

Está muito próxima, no tempo, a aflição de que a capital de São Paulo e a sua região metropolitana padeceram com a falta de chuvas e, por consequência, de água para servir a sua população. Se tal aflição não se compara à da região nordestina que, há cinco anos, padece da falta de chuvas, propiciando a consciência real e imediata da necessidade da água, as regiões e cidades que se abastecem da água do Aquífero Guarani, ao contrário, não desenvolvem com a rapidez desejada a consciência do risco permanente da exploração predatória da região distante, que contribui naturalmente para que tenhamos chuvas regulares, que não podem faltar pelo excesso de gás carbônico na atmosfera, ou se especificamente os rios voadores sofrerem queda acentuada na sua vazão.

Rios voadores, como todos certamente já sabem, mas repito para registro formal, “são uma espécie de curso de água invisível que circula pela atmosfera. Trata-se da umidade gerada pela Amazônia e que se dispersa por todo o continente sul-americano. As principais regiões de destino são o Centro-Oeste, Sudeste e o Sul do Brasil, de forma que alguns pesquisadores afirmam que, sem essa umidade, o ambiente dessas regiões transformar-se-ia em algo parecido com um deserto. A origem dos rios voadores acontece da seguinte forma: as árvores da floresta Amazônica ‘bombeiam’ as águas das chuvas de volta para a atmosfera, por meio de um fenômeno denominado evapotranspiração, ou seja, a água das chuvas que fica retida nas copas das árvores evapora e permanece na atmosfera em forma de umidade. É exatamente essa umidade que forma os rios voadores” (Rododlfo F. Alves Pena, Umidade Atmosférica).

A vazão desse aguaceiro aéreo é da ordem de 200 milhões de litros por segundo (similar à do rio Amazonas), fazendo da Amazônia uma das regiões mais úmidas do planeta, além de provocar as chuvas que desabam diariamente por toda a região.

Essa realidade física, geográfica e cultural ganha nesse ano uma forte difusão de consciência e responsabilidade, com a Companha da Fraternidade, que, por meio da iniciativa da Conferência Nacional dos Bispos, que tem texto, oração e cânticos para que as pastorais de todo Brasil celebrem, no correr desse ano, o tema “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”, com o lema “Cultivar e guardar a criação’ (GN. 2:15).

O texto indica os seis biomas do Brasil (Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga, Pampa e Mata Atlântica), e oferece a definição para compreendê-los: “Bioma é o conjunto de vida (animal e vegetal) constituído pelo agrupamento de tipos de vegetais contíguos e identificáveis em escala regional com condições geoclimáticas similares e história compartilhada de mudanças, o que resulta em uma diversidade biológica própria”.

Torna-se assim mais do que um apelo, mais do que um convite, porque uma convocação, independentemente de credo político e religioso, ou de interesse econômico e financeiro, à emergência de uma consciência social para “cultivar e guardar a criação”.