Os tambores dos filhotes

A Faculdade de Direito do Largo de São Francisco juntou-se à Associação dos Antigos Alunos para comemorar, no último dia 15 deste mês de maio, os cem anos do nascimento do professor Goffredo da Silva Telles, paraninfo da turma de 1964. No Salão Nobre, José Carlos Dias apresentou a gênese da “Carta aos Brasileiros”, que delimitou um antes e um depois na luta histórica pela redemocratização do país. No pátio, Flávio Bierrenbach fez um post scriptum da memorável carta, assumindo, no ritmo da frase e na beleza do texto, a consciência suave, amorável, determinada e gigantesca do grande mestre. Juca de Oliveira leu da tribuna a carta inesquecível.

Tanto no Salão Nobre como no pátio, definido pelo mestre como Jardim de Pedras, aconteceu o inesperado. Uma série de tambores ruidosos e de gritos de quem se dizia professores afrontou o ambiente da homenagem, supondo que ali estaria o governador do estado, ou seu representante, alvo de protestos da classe em greve. Os ditos professores nem sabiam o porquê daquela reunião festiva, estreitados na bitola do rancor contra o governo.

Essa atitude coletiva de alienação pura leva-nos, naturalmente, a pensar no aprendizado dessa geração de estudantes, dominada por tambores e gritos, e não por palavras que constituiriam a arma apropriada daquele local histórico, sempre solidário com as vítimas de qualquer tipo de injustiça.

Terminado todo ruído e cada discurso, alguns manifestantes despertos se dignaram a pedir desculpas. Mas a solenidade findara-se, deixando congelado o espetáculo do absurdo, no qual professores da rede pública não souberam usar da força da palavra para lançar sua mensagem, até mesmo quando lhes foi oferecida a Tribuna Livre das Arcadas, que sempre, sempre, ressoou liberdade e justiça.

Se ontem os tambores eram da ditadura banida, ouviram-se, ali, no Jardim de Pedras, os tambores de seus filhotes, que nem sabem o que são de verdade. Até hoje.

A sorte desses professores é que a figura do mestre Goffredo, com sua palavra sábia, ética, poética, veraz na sua prosa corajosa, construída de síntese em síntese, paira acima de nós, como um sol de verão, querendo derreter a ignorância, indiferente às almas malsãs e às maldades do mundo.

Pode-se até dizer que acontece assim uma espécie de milagre, pois é o morto que ensina os vivos.

Vida e morte

O cidadão, o médico, o filantropo, Luiz Gaetani morreu.

Pude prestar, como tantos, junto ao corpo inerte, a homenagem da oração silenciosa, e abraçar a família enlutada.

A vida de um, quando se finda, leva-nos a pensar na vida dos outros, e, mais, muito mais, na própria.

O que fiz, e não mais de onde venho; como fiz, e não mais o que farei; o que deixo como legado, e não mais para onde vou. Busca-se assim, pela pressão do inevitável, o sentido expresso na construção do passado.

Como nenhum homem é Deus, todos incorrem em erros. Uns são capitais, outros são erros veniais, de menor intensidade. A certeza é de que a vida não segue um rumo reto. Ela vai às vezes, finge que volta e continua. A vida define o tempo como implacável. Se a esperança não morre no corpo, ela incendeia o espírito para suportar as dores que o afligem, como afligiram Gaetani nos seus últimos anos, recolhido à casa que inventou para acolher tantas outras pessoas que, assim como ele, o tempo implacável alquebrou, com um corpo sofrido e uma mente que, às vezes, desconfiava de si e do mundo, na lucidez provisória de sua doença final e fatal. Será que morri, será que estou vivo?

Confiro a folha corrida do Gaetani para relembrar que a morte é a professora da igualdade, no como e no porquê do nascer e do morrer.

Não importa a sua posição política, ideológica e religiosa. Nem a sua opção esportiva ou tudo que possa contribuir para que uns e outros sejam como são, às vezes distanciados. Não, não importa.

A morte faz ressurgir facilmente o sentimento escondido da solidariedade, tornado saudade tantas vezes, só porque desaparece do cenário da controvérsia aquele outro que gostaríamos de ver divergir de nós (quem sabe!), para aplaudir (quem sabe!), para agradecer (quem sabe!).

A morte faz o milagre da ressurreição do dia a dia em que se deu a construção do homem na terra que lhe foi prometida e dada. Ela sugere a leitura de sua legenda, de sua biografia, garimpa erros e acertos, sua crença, sua fé, a dedicação na semeadura de seu tempo, a nota musical de sua partitura inesquecível, ora como letra, ora como orquestra, o tijolo de seu templo, de sua trincheira, o pincel de sua arte, o bisturi de sua profissão.

Confere-se a lealdade consigo mesmo, com a família, com os amigos e com tantos com os quais conviveu. Confere-se a fidelidade a cada princípio que ingressou no seu corpo, para inspirar e dirigir cada gesto seu, cada atuação sua na sociedade, e que fez seu pensamento sonhar e criar, para realizar, na prática, tudo o que, um dia, ocupou a fixidez de seu olhar indormido, nascido numa noite de primavera.

O cidadão, o médico, o filantropo, Luiz Gaetani soube dignificar o dom da vida.

Coloco sobre essa legenda humana o manto do respeito irrevogável, como a morte.

O ex-embaixador e o cardeal

No início da década de 1980 estava na presidência dos Estados Unidos um político provindo das telas cinematográficas, Ronald Reagan. O ambiente internacional era dominado pela doutrina, estratégia e política da Guerra Fria, que dividia o mundo em capitalista e comunista. Nesse universo de posições radicais, não havia espírito crítico que não era colocado na vertente comunista pelo simples fato de querer olhar, compreender e sentir a realidade, e desejar melhorá-la, transformá-la, ainda que pacificamente.

O mundo estava assim, mas El Salvador estava, como está, ali na América Central, com aproximadamente 21 mil quilômetros quadrados e com a população aproximadamente de 6,5 milhões de habitantes, “mais perto do Texas do que o Texas de Massachusetts”, no dizer de Reagan. O pequeno país vivia o inferno de um governo direitista, enfrentando a guerrilha que se opunha a ele, e com a tensão agravada por estar geograficamente perto de Cuba.

Era um governo de extrema direita apoiado pelos Estados Unidos, sendo que o embaixador norte-americano, à época, naquele país era Robert E. White, que faleceu, em janeiro de 2015, aos 88 anos de idade. Esse homem, que foi transferido de El Salvador por não aceitar a blindagem dos crimes do governo apoiado pelo seu país, foi obrigado a deixar a carreira para continuar protestando, falando e pedindo justiça, em todo e qualquer foro visível e viável, contra o assassinato de quatro missionárias norte-americanas dedicadas ao trabalho social, que foram espancadas, estupradas, mortas com tiros na nuca, jogadas à beira de um estrada e cobertas com as próprias vestes, arrancadas pelos bandidos, mas recolhidas por camponeses e colocadas sobre os corpos sem vida. Duas delas jantaram com ele às vésperas da morte, e, 48 horas depois da tragédia, ele estava ali, próximo dos corpos, dizendo: “Desta vez eles não vão escapar”.

O tempo passou, mas o ex-ministro da Defesa de El Salvador, Carlos Eugenio Vides Casanova, que desde 1989 vivia sob o beneplácito da CIA na Florida, recentemente foi preso e ameaçado de deportação por ter acobertado o crime hediondo contra as missionárias. Outro ex-ministro da Defesa, Jose Guilherme Garcia, que usufrui da mesma proteção de órgãos oficiais em Miami, está prestes a perder seus privilégios e sofrer o mesmo destino de seu comparsa.

O ex-embaixador só guardou as armas de sua luta pelos direitos humanos com sua morte. O destino não lhe deixou viver o sentimento de sua realização plena. Porém, seu nome e sua razão de viver deixam um exemplo reto e dignificante do “vale a pena viver”, até como ex-diplomata.

Por sua vez, a história do governo direitista de El Salvador estampa mais um cadáver ilustre, o de Óscar Arnulfo Romero Galdámez, dom Romero, que foi nomeado Arcebispo em 1977, e na homilia de novembro daquele ano declarou sua opção preferencial: “A missão da Igreja é identificar-se com os pobres. Assim, a Igreja encontra sua salvação”.

Ele foi assassinado durante a missa que celebrava no dia 24 de março de 1980 por um soldado de elite do exército salvadorenho, treinado na Escola das Américas, sabidamente instalada no Panamá. A ONU, em 2010, instituiu o dia 24 de março como o Dia Internacional para o Direito à Verdade sobre Graves Violações de Direitos Humanos e pela Dignidade das Vítimas, em homenagem ao sacerdote morto.

O papa João Paulo II o declarou “Servo de Deus” em 1997. E, em fevereiro último, o papa Francisco reconheceu dom Romero como mártir, aprovando o decreto de sua beatificação.

O museu universal da estupidez humana contará, para sempre, a história de um embaixador digno e de um sacerdote morto durante a celebração da santa missa.