Desagravo na OAB

A sessão de desagravo do advogado Miguelson David Isaac, realizada na Casa do Advogado na terça feira à noite, foi presidida pelo presidente Marcos da Costa, da seção paulista da Ordem dos Advogados. O advogado Feres Sabino, como orador do desagravo, proferiu o discurso que segue:

O advogado girou a poltrona quando a testemunha iniciava seu testemunho. A juíza substituta advertiu-o para que “não movesse o corpo”. Evidente, o imediato protesto.

Depois, encerrada a ata, com as respectivas assinaturas, o absurdo revela sua coerência autoritária, quando completou sua obra de ilicitude ética, criando o aviso prévio da condenação. “A senhora, então, não quer fazer acordo mesmo, não é? Então, fique sabendo que vou condená-la a pagar uma fortuna de horas extras, e sabe de quem é a culpa? É do seu advogado.

Senhoras advogadas, senhores advogados, meus amigos,

Retorno a essa mesma tribuna para igual e mesma expressão de representatividade, pois o presidente do Conselho Regional de Prerrogativas da 6a Região, doutor Aguinaldo Alves Biffi, confere-me a honra de desagravar o advogado Miguelson David Isaac, o agravado.

A ofensa à prerrogativa da profissão ocorreu em audiência trabalhista, presidida pela doutora Evelyn Calman Sampaio T. Ferreira, à época juíza substituta da 6ª Vara do Trabalho da Comarca de Ribeirão Preto.

A advertência descabida e o aviso prévio da derrota, inoportuno e ilegal, comprometem a postura, que deve ser mantida por todo o magistrado, de discrição e respeito a qualquer pessoa e também ao seu igual, na corresponsabilidade da administração da justiça na qual é investido todo advogado.

Seguramente, não representa uma simples moldura trabalhada pelo legislador constituinte a regra constitucional que eleva o advogado a membro participe, e necessário, da distribuição da justiça; nem representa um sonho de verão a regra infraconstitucional que estabelece a inexistência de hierarquia entre advogados, juízes e promotores.

Se, entre os cultores oficiais do direito, a segunda regra representa o imperativo categórico da igualdade e da independência, a literal regra da Constituição Federal que elevou o exercício da advocacia a tal patamar de superioridade, só por si, deveria inibir qualquer violação de prerrogativa, como essa que lamentamos e repudiamos cada um de nós pessoalmente; cada um, como integrante da classe; muitos, como presença física; e milhares, como presença espiritual, que se fazem uno nessa voz exuberante de protesto coletivo.

Essa não foi a última ofensa da vida de um profissional da advocacia. Também, não será essa a última reunião de desagravo que vivenciaremos. A controvérsia, a discordância, o dissenso fazem parte da construção democrática, sempre inacabada, e estarão sempre exigindo a rejeição forte a qualquer violência, para que se restaure e vigore sempre a relação de iguais e o exemplo da força do diálogo, que, como energia criativa, precisa expandir-se institucionalmente para toda sociedade, pacificada e justa.

A sala de audiência é um centro irradiador da pedagogia dos direitos fundamentais da cidadania. Às vezes, o mecanismo dos gestos e a monotonia dos hábitos fazem-nos, distraidamente quiçá, esquecer o halo dos valores imperecíveis concentrados no recinto. Mas, a influência desse mecanismo repetitivo e dessa monotonia pode perverter a autoridade da autoridade em autoritarismo, fazendo-a pensar que aquele espaço, conquistado mediante concurso público, nada mais é senão o espaço reservado ao excesso impune, talvez tangido pela força histórica do nosso patrimonialismo, que exacerba o sentimento de posse na vitaliciedade. Eis o choque, não de gerações, mas de visões de mundo, de consciências profissionais, de responsabilidades sociais. E a natureza desse choque é que impõe ao advogado, defensor de todas as liberdades, a altivez do protesto, da rejeição, do desagravo quando agravado.

Qualquer advogado ofendido leva consigo o manto da solidariedade da classe. Está aí a Comissão de Defesa das Prerrogativas para dizê-lo e prová-lo com sua atuação de presença e de força.

Mas, aqui e agora, o agravado foi, sim, o advogado Miguelson David Issac.

Se o tempo, no campo do direito, é importante para constituir e extinguir direitos, no plano da vida profissional, social e política, ele acumula o patrimônio de cada pessoa, construindo sua lenda, sua legenda, sua biografia. Se digna foi ela na luta, digna será a grandeza de seu patrimônio ético, profissional, familiar, social. Se independente e altivo na capacidade e na devoção ao trabalho, independente e altivo foi a construção de seu passado. Se cultivou a família com a firmeza e a delicadeza do jardineiro árabe, que conhece a secura do deserto, florido será seu campo da semeadura e da colheita.

Miguelson David Isaac, o tempo, esse incorrigível talhador de nossas rugas, esse pintor gratuito de nossos cabelos brancos, ou da escassez deles, esse repouso da ânsia, na sofreguidão de nossas vidas, quando já bem vividas; o tempo, Miguelson, o tempo constrói, capturando a emanação do amor, um templo sagrado para nossos corações e nossas lembranças, depois de tanto tempo de convívio.

Esse templo, Miguelson, é o templo da amizade, que o destino me honrou celebrá-la com você, com sua família e com tantos amigos, companheiros e admiradores.

Apego-me à sabedoria de Riobaldo, criatura de Guimarães Rosa: “O que lembro, tenho”.

Lembro-me da nossa amizade, antiga, mas jovem, porque tenho o orgulho de poder medir cuidadosamente o tamanho da ofensa sofrida por você. Lembro e tenho a lembrança da sua juventude de amigo leal e fiel. Lembro e tenho a idade universitária e sua participação política, sua profissão de advogado ético, capaz e devotado, justamente na área trabalhista, na qual sempre pontificou com a decência, que é o espelho de seu lar, e que o levou à banca de Concurso de Juízes Trabalhistas, pelo reconhecimento oficial de sua capacidade e mérito. Lembro e tenho, e meço a ofensa sofrida, vendo-o intransigente na defesa das prerrogativas, como presidente da Associação dos Advogados e desta Subseção da OAB, realizador. Lembro e tenho sua presença incansável, desde que o então presidente da Associação, Edson Damasceno, subindo na mesa daquela celebração naquele restaurante, pediu ao prefeito municipal o terreno para a sua e nossa sede, que acabou sendo este terreno, onde está construído esta nossa casa, na qual nos reunimos hoje. Lembro e tenho a memorável audiência no Palácio dos Bandeirantes, sua participação incisiva na decisão do governo para a construção do nosso Fórum. Você, Miguelson, sempre, sempre, servindo de paradigma para tantos, como serve para seus filhos e amigos. “O que lembro, tenho”.

Gravíssima ofensa. Fortíssima, imensurável, solidariedade da classe, representada aqui pela presença de nosso presidente da Seção Estadual, a quem me dirijo com reverência e respeito, e pela presença de todos os que sabem quem você é e o que representa à advocacia, no horizonte de nossas vidas na cidade e no país.

A advocacia se engrandece com cada ato como esse. E a construção democrática recebe mais uma conquista de exigência de respeito à dignidade da pessoa humana, que é o centro de nossa convivência social, na celebração do nosso pacto, com o artigo 1º sendo o princípio e o fundamento de nossa Constituição.

Louvados sejam os que acreditam na liberdade e na força de seus defensores.

É o que penso. É o que digo.

(Discurso proferido na Casa do Advogado, em 11 de março de 2014)

Mandela e Francisco

Se ele ficou prisioneiro, entre quatro paredes, durante 27 anos, tempo mais do que suficiente para que seu espírito e sua consciência exorcizassem o ódio e a vingança que alimentavam seu coração de negro libertário, agora, entre as danças e cânticos alegres de seu povo pobre, mas altivo e grato, agora, ele se torna prisioneiro do universo visível e invisível, para derramar, sobre o mundo teimoso, seu sorriso e sua palavra de esperança e amor. Nelson Rolihlahla Mandela.

Se é mais um espírito luminoso que dá assistência aos vivos na proximidade desse Natal, tão igual a tantos outros Natais, outro espírito – de igual intensidade – surgiu na burocracia da Terra via Céu, – na qual se convertera as expectativas católicas, desde a morte de João XXIII – e, em pouquíssimo tempo, revolucionou não só as formas da mediocridade nas quais se arrastava o ritmo oficial da Igreja, mas fundamentalmente assoprou com suavidade o vento profilático da boa-nova que o mundo, aprisionado pelas estruturas sem alma, está sempre aberto a sua recepção, como se estivesse dando seu último adeus às estrelas. Papa Francisco.

Ele surgiu assim, de repente, e, com a força imensurável de sua humildade, gavetas e porões, corredores e salas, livros e notas contábeis, subterrâneos dos edifícios oficiais e dos corpos humanos generosos ou desalmados, assim como a natureza, o vento, a lua, o sol, tudo e todos sofreram, rapidamente, a faxina de sua figura carismática, quase onipresente, quase onisciente, como a varinha mágica do milagre inesperado, que foi afastando o ranço, a fraqueza da alma, do espírito e do caráter, o pó acumulado das incompreensões e as paredes de separação dos homens, dos povos e dos países, recolocando a ponte da compreensão e da tolerância, para ensinar que a fraternidade é o vício sagrado de todos os iguais que somos.

Papa Francisco, ar paternal, olhar de mansidão, viveu a contradição do impossível de fazer devagar o que rapidamente voltou a florir no sorriso de milhares de jovens esparramados pelo mundo, de pessoas, milhares delas, concentradas nas praças, entre comovidas e respeitosas, saudando-o com o terço santo nas mãos levantadas, em atitude de gratidão e de súplica.

Neste Natal, a sementeira da Esperança encontra nas cercanias da Terra um espírito circulante e absoluto de humildade, o papa Francisco, e, em Mandela, a energia forte da vingança, convertida em tolerância, abastecendo as usinas de força do universo. Ambos convergem para intensificar, até o infinito, a luz redentora dos pecados e das paixões humanas.

Por isso, de coração leve e aberto, felicitemo-nos por mais este NATAL.

A amiga da alma

Ela, aquela mulher miúda. Sempre que a encontrava deixava aflorar um sorriso, e não se esquecia de perguntar por Celso, amigo em comum que foi ex-padre durante tanto tempo e que já morreu como ela. Odilla Mestriner.

Se eu tinha curiosidade de conhecer o toque milagroso de sua arte, o livro A saga de Odilla Mestriner, de seu irmão Antonio Mestriner, apresentou as peças desse mosaico humano de sensibilidade e talento dedicado ao desenho, à pintura, às artes plásticas, ao grafismo. Apresentou aquela doença da juventude que a reteve consigo mesma durante tanto tempo, deixando sequelas nos terminais de seu corpo. Essa doença, que a acometeu ainda jovem, talvez explique toda a sua criação, definida pela própria artista como sendo de “estrutura rígida, austera, simétrica, fechada, consequência da minha maneira de ser e viver”. Ou talvez porque “…a arte é a ciência da liberdade”.

Se a histórica Fundação de Ribeirão Preto tem a imortalidade de seu trabalho gráfico em tela, as Bienais serviram para colocá-la no foco internacional da cultura, e as exposições nacionais receberam-na sempre com a reverência que se presta a gênios.

Em 1970, ela pintou o Homem cósmico (“Pego um tema e entro de cabeça. Permaneço nele até esgotá-lo”). Olhos arregalados, surpreso com o mundo e seu universo, tema que marcou presença em larga e farta produção sua. E, em 1990, foi a vez da série Andantes. Quando imagino uma e outra, arrisco que, com essa última, ela encontrou – quem sabe! – o caminho real para ela mesma trilhar no mundo e no universo que a surpreendera tanto antes.

Bassano Vaccarini, genial escultor italiano, que, entre 1980 e 2002, data de sua morte, fez da cidade de Altinópolis “um museu a céu aberto”, não precisou ser profeta. Na juventude de Odilla, examinando criticamente “o pigmento negro de nanquim”, “sobre a superfície alvadia do papel”, reconheceu a segurança invulgar de cada traço de seu desenho, vendo-a como “criadora incomum”.

Tadeu Chiarelli, curador e diretor do Museu de Arte Moderna de São Paulo, que possui textos reproduzidos no livro, mais de uma vez também aconselha “uma averiguação” na cidade na qual ela nasceu e viveu, já que casas e ruas compõem uma característica, onde, por exemplo, no grafismo, a submissão ao rigor técnico e a simetria das formas constituem uma marca digital. A beleza de sua interpretação mostra-se também quando captura “os objetos do cotidiano, ainda nos anos 50 (animais, frutos), até o momento atual [1997], quando a comunidade humana passa a ser a grande questão tratada em suas telas, desenhos e recortes. Dentro desse trajeto do micro para o macrocosmo, o visitante poderá perceber como a arte de Odilla se transforma numa espécie de diário de bordo de sua existência no mundo, um diário que traduz a sua percepção da vida e suas inquietações, a partir de uma subjetividade singular e original”.

A noite do lançamento do livro aconteceu no Museu de Arte de Ribeirão Preto (MARP), em um evento organizado pelo Instituto Odilla Mestriner, que divulga a obra da artista, com todo apoio da Feira do livro.

Odilla era amiga da alma da sua cidade e do mundo, tal como revela: “Toda a minha formação e trabalho são realizados aqui, onde nasci e resido. Apesar disso, minha obra não tem características regionais… A problemática de toda minha obra, sempre foi questionar o homem, o mundo, seu espaço e tempo”.

Por causa do irmão, que transpira saudade, carinho, orgulho e dedicação na pesquisa e na divulgação da obra da irmã genial, fica o achado de Júlio Chiavenato: “Todo artista deveria ter um irmão como Antonio”.