O país desencontrado

A distância mais próxima entre uma cidade, como a capital de um estado brasileiro, e a fronteira com um país vizinho é a de Porto Alegre. A distância é de mil quilômetros.

Essa imensidão agrupada a outras dimensões territoriais formam oito milhões de quilômetros quadrados. Imagina-se o tamanho da fronteira seca que delimita nosso território, e tudo dentro dele que exige do Estado para torná-lo efetivamente impermeável, cuidando de sua população e suas necessidades básicas e da sua relação com a natureza, que grita por socorro, como vítima dos humanos e das mutações climáticas.

Quando aquele indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips foram mortos, lá nos confins do Amazonas, na selva e no rio desguarnecidos de vigilância do Estado Brasileiro, um militar das Forças Armadas, que a imprensa não identificou, disse a verdade: “não há orçamento para estarmos permanentemente lá”, desfazendo o abandono da selva e do grande rio às milícias e aos traficantes de drogas.

Claro está que o mapa da solidariedade federativa, para essa imensidão cultural, política e social, torna-se impossível, apesar da imposição política, e dever de cumprimento pelos servidores públicos graduados como são os deputados e senadores, juízes, promotores e militares.

Qual é a estrutura de Estado que desejamos e que queremos ter? Hoje, prevalece a vocação vendilhona do patrimônio público, garçom da ganância de grupos privados.

Tanto não sabem que teriam vergonha, se soubessem, da gastança de bilhões de Reais, ou guardados em bolsos privados, ou empregados em obra nenhuma, ou em obra irrelevante, até impedindo de serem investigadas, já que o Presidente da Câmara Federal é o lambuzado-mor da dignidade política da representação popular.

A bonança dessas emendas parlamentares constituiu a força motriz de muitas vitórias de prefeitos e de vereadores, cuja vergonha não se esgota no sucesso, mas se revigora com a fraude da distribuição, que compromete o planejamento racional e nacional das obras necessárias para cada município.

A facilidade do assalto aos cofres públicos fez o primor da arrogância, para confrontar a autoridade judicial que estava exigindo transparência nos gastos, identificação do beneficiário e da obra, com memorial descritivo e tudo mais que seja obrigatório à necessária fiscalização pelos órgãos internos e pelo Tribunal de Contas.

Esses são os mesmos que não permitem que grupos privilegiados da sociedade brasileira paguem qualquer imposto, e não permitem que o Estado tenha reserva de dinheiro suficiente, para cobrir o Brasil de obras e serviços, e de vigilância eficaz de suas fronteiras. Um Estado que ordene e programe e zele pela “anarquia” inteligente e criativa do povo brasileiro e pela tecnologia e inovação, definindo claramente a estrutura do Estado que queremos.

Nosso desenvolvimento depende do que saibamos produzir, arrecadar e investir adequadamente, sem o esgotamento da fraude dos bilhões das emendas parlamentares e dos fundos partidários, para termos parque de ciência e inovação, o único meio de redução da distância que estamos em relação aos países dominantes.

Não podemos ter as Forças Armadas vigiando eficaz e totalmente as fronteiras, e cumprindo seu dever constitucional, porque não há receita suficiente para abastecer o orçamento público, contaminado de isenções e de má querência no pagamento de impostos. Só que precisamos delas ali, inclusive superando superados temas ideológicos, formando patriotas não golpistas, nem generais como esses que não passaram nos testes éticos, seja aquele da pandemia, seja o das vendas das joias no exterior, seja aquele que ordenou que fosse seu comandante atacado, e atacada a sua família, nas redes sociais, porque não era aderente do golpe que pressupunha matança de autoridades. Não basta cantar o Brasil como qualquer boquirroto, é preciso pautar sua verdadeira alma, suas reais necessidades e cuidar de suas riquezas e de sua cultura diversificada e de sua soberania.

Nossas instituições precisam passar pelo banho salgado da ética, para banir privilégios, para evitar a formação de castas, e fazer o que não fazem, ou seja, olhar com devoção a realidade do país, e querê-lo e decidi-lo justo e democrático, hoje e sempre, pois a democracia é sempre inacabada.

Não há dinheiro para cobrir a Amazônia desprotegida, limpando-a das milícias e do tráfico de drogas. Tarefa difícil porque a incapacidade do Estado deixou crescer no Rio de Janeiro o domínio bandido, espraiado pelo Brasil. Deixou crescer, no local onde havia a maior concentração de militares do Brasil, um enigma a ser decifrado por cientistas e historiadores, e quiçá pelos próprios militares.

O trabalho hercúleo é conseguir formar a pauta comum, que reúna a grande maioria, conscientizada, para o trabalho transparente da redenção nacional, que deve iniciar confrontando e inibindo a desinformação digital.

A Presidência que continua…

Quando da instauração constitucional do instituto da reeleição, para o quadro da política eleitoral, uma atitude de prevenção logo emergiu. E a desconfiança, mãe dessa emergência, é porque, na história brasileira, quando se diz que vai mudar, muda, para ficar tudo igual.

E como a política é o campo de batalha dos argumentos, e não o templo das certezas e dos axiomas, até o instituto da reeleição deve ser contextualizado, para que não haja uma repulsa preliminar e definitiva. E mais: a fixação constitucional dela, ou de um mandato um pouco mais longo dos quatro anos estabelecidos, deveria ser o parâmetro válido para todas as instituições privadas, associações, academias, sindicatos etc. E mais do que isso, pode-se pensar no limite de dois mandatos, e não mais, para a representação parlamentar de senadores, deputados, vereadores.

A preocupação é garantir a rotatividade nos quadros diretivos, que constitui emblema da prática democrática. Afinal, a rotatividade pode inibir ou reduzir o fenômeno corrosivo da formação de castas, usualmente encontradiça em instituição e Poderes.

Mas, o fato é que existe um limite de reeleição permitida, seja para cargos majoritários, seja em instituições privadas.

É o caso da Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo, cuja Diretoria Executiva reeleita uma única vez, em mandato de três anos. É o caso da sua Presidência, cujo mandato foi exercido pelo desembargador aposentado Artur Marques da Silva Filho, que traz na sua biografia não só o patrimônio singelo de uma família pobre, sustentada pelo pai caminhoneiro, que levou o filho a ingressar na polícia militar, e se dedicar em estudos para ser magistrado e professor universitário. Na sua meritória legenda está a vivência de Vice-presidente do Tribunal de Justiça, e a experiência administrativa de Presidente da Associação de Magistrados.

Sua presença no topo diretivo da Associação de Funcionários constitui um feliz momento de eleição, convertida depois de três anos em expressiva reeleição, já calcada em realidade realizadora, que acresceu ao patrimônio material e imaterial da entidade o seu patrimônio pessoal de credibilidade.

A importância organizativa que imprimiu em sua gestão, somada à preocupação da transparência programada, que se projetou como ética à eficiência, precisava aprofundar suas raízes. Afinal, a rica experiência da entidade, com quase cem anos, não poderia nessa fase deixar de imprimir com mais força esses predicados administrativos, diante da vocação crescente da Associação, que se dispõe sempre ao desenvolvimento pessoal e cultural.

A Associação, quaisquer delas, não é um quadro de passividade física, mental, cultural. Ao contrário, ela se impõe, com as diferenças de cada um em relação aos outros, pela sua vivacidade e movimento, criatividade e entusiasmo no convívio, apresentando-se com disponibilidade para exercitar continuamente o laço de amizade que nasce no ambiente compartilhado, como fica disponível à compreensão da realidade social que nos cerca e dentro da qual vivemos, como cidade, como Estado e como país. À Direção da entidade cabe a altivez de fazer essa força latente fluir no encontro com uma e com todas de todos, sabendo que o ir e vir dela se traduz exatamente na realização da finalidade do convívio associativo. Nesse contexto cumpre lembrar o nosso vínculo com esse território chamado Brasil, cuja grandeza foi formada historicamente sem guerras, e que grita pela união de todos em face de seu presente e do seu futuro, que se pretende de paz, democrático e justo.

Lava-Jato = criminalidade togada? E as emendas parlamentares?

A condenação saída da famigerada Lava-Jato para afastar, inclusive, à época Luiz Inácio Lula da Silva, como candidato à Presidência da República, e facilitar a eleição de Jair Bolsonaro, atual inelegível, está totalmente colocada no centro de uma forte suspeita de “associação criminosa” de Juízes e Promotores, na mais vergonhosa ofensa ao sistema jurídico nacional, desvendada pela Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça, cujo Relatório foi aprovado, por maioria, pelo seu Plenário. Foi determinada a instauração de Processo Administrativo Disciplinar (PAD) contra Magistrados do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, que atuaram no caso. “A apuração envolveu Polícia Federal, Ministério Público Federal, Poder Judiciário, Receita Federal e a Unidade de Inteligência Financeira”.

Esse Relatório devastador traz a suspeita de organização criminosa, corrupção, prevaricação e peculato, que envergonha cada cidadão brasileiro, e deveria envergonhar todos os Juízes e todos os Promotores, da 1ª instância e de todos os Tribunais, e todos os advogados, e nossa Ordem dos Advogados do Brasil, num levante de coragem ética e moral em favor da investigação aprofundada e da consequente punição criminal, já que a prática perversa e corrupta da “patota togada” da famosa “República de Curitiba” agrediu a legitimidade do sistema de justiça nacional, iludindo a cidadania do país e enganando-a vertiginosamente quanto aos rumos políticos, que até hoje não se sabe como trazê-los ao rumo da normalidade. Para não se falar do servilismo a governo estrangeiro.

O Relatório foi enviado à Procuradoria-Geral da República, há seis meses, e se aguarda o pronunciamento desse órgão acusador com rapidez; ainda foi enviado ao Supremo Tribunal Federal, ao Congresso Nacional, à Polícia Federal e ao Tribunal de Contas da União.

Fortes suspeitas em relação ao dinheiro recolhido das ações penais e das delações premiadas, cujas prestações de contas apresentavam irregularidades e ilegalidades, estando sob a custódia da 13ª Vara Criminal de Curitiba. “A gestão de recursos e suas destinações não foi feita a partir de critérios necessários para a compreensão do modelo de condução e acompanhamento das transações por parte do Juízo ao longo dos anos, por exemplo”.

E prossegue o Relatório: “Na investigação realizada pela Corregedoria Nacional, foram identificadas condutas que indicam um agir sem zelo que se exige de magistrados na condução de ações judiciais, mais especificamente, as que tiveram como escopo a destinação de valores oriundos de colaborações e acordos de leniência (também em relação a bens apreendidos) para a Petrobras e outras entidades privadas”.

Essa doença – a do dever molenga –, que atinge a obrigação da moralidade pública e da ética no exercício da função pública, com a empáfia da impunidade escancarada, para vergonha e passividade nosso, é encontrada nos deputados federais que, sob a liderança sinistra desse Arthur Lira, não querem cumprir o que a Constituição determina para toda a administração pública, o dever da transparência. Eles querem gastar bilhões das imorais emendas parlamentares, sem que se esclareça quem o faz, para onde manda o dinheiro, indicando a obra para a qual será destinada, e ainda esse dinheiro deve ser depositado em conta bancária individualizada, para facilitar a fiscalização e o controle da legalidade dos atos. Não! Eles querem o dinheiro público e querem gastar sem que haja controle efetivo e fiscalização. Uma vergonha que só não é maior do que a nossa passividade diante desse escândalo que afeta e prejudica cada um de nós e o desenvolvimento organizado do país.

Ora, diante dessa imoralidade infernal, para 2025, é necessário esperar que haja a expulsão do dever molenga dos homens e mulheres exercentes de Poder, garantindo a restauração da dignidade da Justiça brasileira, e dos Poderes da República, mas fundamentalmente que nasça ou renasça, em nossa consciência cívica, o fluxo de nossa indignação, organizando-se como emergência de redenção, para limpar as Instituições brasileiras dessa onda de rebotalhos, insociáveis na roedura do patrimônio público e da democracia.