A escumalha parlamentar na fase pré-natalina

Final de ano com um governo federal auspicioso, seja pela presença internacional, seja pela economia que vai bem, pois a inflação está menor, o número de carteiras assinadas é muito maior e a reconstrução nacional está indo muito bem, apesar da escumalha minoritária do Senado Federal e da escumalha majoritária da Câmara dos Deputados. Escumalha como sinônimo de ralé ética e política.

O que enfurece a escumalha não é o bolsonarismo a descoberto, que seguramente é colocado em algum plano inferior, pois, na verdade, o que essa trupe defende é a “corrupção legalizada” das emendas parlamentares, que já fez três deputados processados e oitenta outros sob investigação. Enquanto tantos se olham como eventuais investigados, formando a maioria em defesa própria de um perigo futuro, que pode afastá-la das mamas leitosas do tesouro público.

A situação revelou-se tenebrosa, quando o governador Tarcísio liberou seu “cão de guarda”, que era seu então Secretário de Segurança, o tal Derrite, que nada entende de segurança pública, nem é o jurista que gostaria de sê-lo. Em três horas apresentou um relatório para destroçar o projeto do governo sobre segurança pública, que durara meses de elaboração coletiva, e tentando destruir a Polícia Federal. Ela que entrara na investigação do metanol, mesmo Tarcísio declarando precocemente que a Organização Criminosa, o PCC, nada tinha a ver com a tal intoxicação. E também a Polícia Federal fizera a investigação reveladora dos bilhões e bilhões movimentados pela corrupção, na intimidade da gloriosa e glamourosa Faria Lima, seu poder econômico e político, símbolo da dinheirama paulista e brasileira, inclusive e particularmente a dinheirama podre.

Destruir a Polícia Federal, que eles queriam que fosse praticamente Estadual, mediante prévio aviso de sua atuação ao governador, ou que esse a requisitasse, uma proposta infantil de compadrismo criminal, é proporcional, na sua pequenez, à ideia dada pelo governador Tarcísio ao STF, para que libertasse o ex-Presidente, condenado e inelegível, para tratar do tarifaço junto ao governo norte-americano. Uma ideia raquítica e despropositada que só cabe na cabeça oca de quem desconhece o diálogo federativo, cuja harmonia não exclui nem a discordância, nem o debate entre os Poderes da República. O governo federal cumpriu seu papel de defender a dignidade e a soberania nacional. Que contraste!

Enquanto a Câmara Federal é presidida por essa “criança” medrosa e codependente de Arthur Lira, assessorado pelo clandestino e egresso do sistema penitenciário, Eduardo Cunha, cuja filha é deputada federal. Também essa parceria é secundada pelo Alcolumbre como Presidente do Senado, que resolveu se vingar do governo federal, punindo o Brasil, com escandaloso e inoportuno comprometimento do orçamento até 2030, em 100 (cem) bilhões. Mas lá no Amapá ele faz discurso, em palanque, elogiando o Presidente Lula e sem economizar adjetivos. O medo de perder a eleição dos comparsas locais é maior do que a desaparecida coerência.

A dignidade do Congresso Nacional exige uma limpeza ética-política, pelo voto consciente, para o qual cada um de nós contribui, desde hoje, contando para todos o que o disparate, animado pela corrupção legislativa, estimula até violência física para sua manutenção.

A nova prática para salvaguardar os parlamentares, investigados ou processados por ameaça, o Ministro do Supremo que manda investigar, como se a cidadania tivesse o poder de escolher o Juiz e o Promotor que devem presidir em seu próprio processo de corrupto deslavado.

Mas tem o requinte guardado para o final. O Presidente da Câmara ajudou o condenado judicial Ramagem a fugir para os Estados Unidos, enquanto a tal Comissão de Ética rejeita a cassação do deputado que traiu e trai o Brasil, trabalhando pelo tarifaço e pelas sanções contra nossas autoridades, financiados por dinheiro público. E, ainda, a proteção e o dinheiro do gabinete da deputada, que cumpre pena na Itália, e não é cassada por essa Câmara Federal. Todos esses condenados, vivendo e traindo no exterior, estavam sendo financiados com dinheiro público.

Como combater o crime organizado com a deletéria influência de governadores que aderem à violência? E ainda boicotam a coordenação das informações, entre os Estados, como o bombardeado projeto do governo, que daria mais eficiência ao combate das organizações criminosas, pretendendo retirar competências constitucionais da Polícia Federal, enfraquecendo-as. Legislativamente, lá no federal, mas com os reflexos perniciosos da imitação impune, vivemos sob a sombra do que há de pior, especialmente na vida político-partidária, sediado na Câmara dos Deputados, amamentados pelas emendas parlamentares.

Os vampiros do dia e da noite

A indiferença das pessoas em relação ao que diariamente acontece em Gaza é explicada. Lá as mulheres e crianças, e ocasionalmente homens, continuam morrendo, para que o grupo da barbárie sionista, fazendo-se de insubstituíveis, apareça como realmente são: os vampiros da modernidade infernal.

Seguramente, essa indiferença está ligada às ausências das narrativas de nossos jornais e noticiários. Como é que a desgraça humana coletiva prossegue, diariamente, e não se fala dela com a repetição da gravidade apresentada pela barbárie? Aliás, essa barbárie retrocede à criação do Estado de Israel pelo movimento sionista, que não pode ser confundido com o povo judeu. Em 1948, era assassinado o representante da ONU que fora levantar o que acontecia com a destruição violenta e a morte de palestinos e suas aldeias. Assassinado.

Sempre com o apoio irrestrito dos norte-americanos, apesar dos Estados Unidos, que juntamente com 32 países da Europa, em 1934, na conferência de Evian, e da França terem se negado a receber imigrantes da Alemanha. Os nazistas fizeram piada dessa contradição. Hoje a defesa de palestinos, em universidades americanas, por alunos e professores, é motivo de perseguição e expulsão. A razão virou vítima do futuro.

A última dessa alma vampiresca foi outro ataque a prédio residencial em Beirute, Líbano, matando mais de vinte residentes, para pegar mais um líder do Hamas, como desculpa do homicídio, tal qual ao ataque ocorrido no país Catar, com suas fronteiras violadas, para matar os negociadores da paz. O Estado de Israel é um Estado especialista em matar, impunemente, inclusive negociadores da paz. A razão é sempre a mesma: matar para cancelar ameaça futura, tal como foi o ataque covarde ao Irã, país que era membro da agência de não proliferação das armas atômicas, e que estava sentado à mesa de conversação com os Estados Unidos. O Irã era acusado de se dedicar a produção atômica, pois Israel quer ter o monopólio das armas. Diz-se que a rodada pela paz era mera distração, para o ataque surpresa, que aconteceu. Mataram nas primeiras horas comandantes militares, que estavam em suas residências, e evidente que nas explosões dos prédios houve morte de civis, mulheres e crianças. A outra surpresa foi a capacidade de reorganização do Irã e sua capacidade de ataque com mísseis e drones. Essa reação, no tempo de 12 dias, fez Israel proibir a imigração de seus habitantes e proibir o uso de celulares para registrar as cenas de destruição de Telavive.

Eles pensam construir o futuro com tal matança. Será que o futuro deles não está indo junto com o sangue palestino?

Tem alguma religião, algum Deus, que celebra a matança deliberada? Deus pode ser arrastado como garoto-propaganda na política da violência? O rosto da divindade não está no rosto de cada pessoa? Onde está o irmão ou irmã como simples vivente do planeta Terra? A religião não é a prática da humanização da pessoa? Como matar dizendo-se religioso?

Não é mais absurdo aderir aos que defendem e matam como política de uma salvação? Como trazer ou plantar o símbolo da cruz, sem que se considere a lição desse exemplo de vida? Como conviver com essa hipocrisia?

Acreditei sempre que a barbárie tem prazo de validade, como todo episódio histórico.

O Terror

Nunca gostei de filme de terror. Não assistira a nenhum, até o último dia 25 de novembro, quando meu amigo, produtor de cinema, o Edgar de Castro, me convidou para assistir ao filme LOVE KILLS, lá na sede da Fundação do Livro e Leitura.

É um filme de terror, com vampiros e vampiras, que a editora Darkside publicou, cuja fonte de inspiração é o livro de história em quadrinhos, escrito por Danilo Beyruth. Ele já traz o selo de Premiado no Festival Internacional do Cinema do Rio de Janeiro, e foi exibido na Mostra Internacional de São Paulo e em Sitges, na Espanha.

A produção é ribeirãopretana, como a sua direção é ribeirãopretana, assinada por Luiza Shelling Tubaldini, o cenário é da capital paulista.

Um filme premiado até inibe quem nunca assistira a um, pois seguramente todos os adjetivos já foram registrados, e o uso de qualquer um ressoa como um imitador sem arte.

O fato é que, se nunca assisti, apreciei muito o que observei por mais de uma hora de projeção.

Se a cor é a escura, apropriada a essa temática de surpresa, o fato é que a cor, assim como a técnica de filmagem, seus efeitos especiais, mereceram o reconhecimento público qualificado, e agora está sujeito à distribuição internacional.

Por que não uma sessão especial – foi o que pensei e falei – para cada categoria social ou profissional, tais como a Academia de Letras, a Ordem dos Advogados, a Associação dos Advogados, e tantas entidades que conheceriam ou aprofundariam o conhecimento não só da beleza estética do filme premiado, como dos valores locais da produção e da direção, dedicados a essa indústria que, hoje, acolhe mais empregos do que a indústria automobilística, com sua modernidade de automação? Para realização desse filme, mais de quatrocentas pessoas estiveram presentes, trabalhando.

Estão no forno da criatividade e da produção mais cinco filmes, que logo, logo, estarão nas telas do Brasil e do mundo, distinguindo nosso orgulho em reconhecer essa especial capacidade contida no seio de nossa sociedade. Um dos cinco filmes, diz-se, é até muito comovente, já que traz à tela pública a história daquela jovem boia-fria, da cidade de Sertãozinho, que treinava corrida no entremeio de seu descanso, como trabalhadora rural, que se tornou atleta vitoriosa e conhecida pelo Brasil afora.

O exemplo dessa jovem saída dos canaviais, que se iguala a tantas no esforço da redenção social, nos recorda aquela passagem do livro O Pequeno Príncipe, quando se refere ao “Mozart assassinado”, com referência às milhares de crianças que morrem sem terem podido projetar sua potencialidade criativa e sem desvendar a afirmação do seu lugar no mundo.

O filme LOVE KILLS é uma história de amor. Um humano e uma vampira desgarrada de seu pequeno grupo, que a persegue para tentar trazê-la de volta e não consegue. Ele tenta em vão defendê-la, mas o que sucede na luta entre um humano e um vampiro?

No final, com uma cena maravilhosa, consuma-se a frustração do amor, essa energia sem definição que, de repente, aproxima duas pessoas e as imanta como se a eternidade fosse eternidade, enquanto dura e durou.

Penso. Nesses anos todos em que me excluí de assistir a qualquer filme de terror, será que perdi muitas obras dessa arte fantástica do mundo do cinema?

Naquela sala da Fundação do Livro e Leitura descobri o que tantas vezes passou pela pauta de minha diversão: a possibilidade de ter podido conhecer filmes de um gênero que simplesmente não gostava, e que agora estou disposto a gostar, porque gostei.

Como será que você, que me lê, poderá enfileirar-se nessa corrente de prestígio de uma arte que precisa ser democratizada, para ser mais e mais conhecida?

No meu caso, tive a sensação de me sentir danificado por não ter assistido, antes, àquela sessão programada e realizada pelo Sesi.