O rosário dos atos públicos

O Brasil, nessa quadra de seu tempo, assiste à emergência da mediocridade atrevida e ousada, pronta não só para mentir, como para torcer os fatos e xingar. A Câmara Federal e o Senado Federal assim como tantas Câmaras municipais não discutem, prioritariamente, o Brasil que queremos, já que, prioritariamente, agem como se a Constituição Federal fosse um matutino, rasgável a qualquer hora do dia e da noite. Respeito virou palavrão, inclusive no parlamento brasileiro. E os grandes debates de grandes ou pequenos tribunos viraram mera referência histórica na qual a Frente Parlamentar Nacionalista sugere a preocupação máxima que a dirigia.

O histórico é de estarrecer.

A criança de doze anos, estuprada, se fizesse aborto, seria criminalizada, além de sofrer pena maior que a do estuprador. Esse projeto de lei, votado com rapidez inusitada, ficou impedido na sua tramitação por reação popular inusitada. Mas só a sua apresentação já é um escárnio. Votado, é uma deslavada vergonha.

O projeto votado, na Câmara Municipal de São Paulo, prevendo a punição de R$ 17.000,00 para quem desse de comer aos moradores da rua, revela a disseminação da mediocridade ousada, por obra e graça do discurso do ódio, que não suporta limite ético ou jurídico.

Temos o “não estou nem aí” com a brutalidade fardada da polícia militar de São Paulo, iniciada no litoral e exibida quando da votação legislativa para a venda da Sabesp.

E para subir o escalão da vergonha, o Rio de Janeiro, onde se concentra um número invejável de militares das três forças, está envolvido numa guerra civil oculta há anos, mas envolta numa corrente de indiferença objetiva e real.

Temos o caso das joias da Arábia Saudita, em que militares, almirante da reserva e outro militar, quiseram “carteirar” o agente da Delegacia do Imposto de Renda, na alfândega, e foram barrados por ele, cumpridor das obrigações de servidor público, convertido em professor de ética, para aqueles que juraram cumprir e fazer cumprir a Constituição, defender a soberania do Brasil. Mas se qualificando na prática como modernos “trombadinhas”, impunes, até hoje.

Temos generais da reserva tramando golpe de estado com outros bastardos da lei, sendo que um deles até pediu para que atacassem nas redes sociais companheiro de farda que não aderira ao golpe, incluindo nesse ataque até a família do colega de farda. Tudo isso sem que imediatamente se instituísse processo disciplinar para cassar suas honrarias. A solidária corporativa não pode apodrecer a Instituição, nem militar, nem civil.

Aquele ato do segredo por cem anos do resultado do processo disciplinar em relação ao general Pazuello, o estrategista, é outro exemplo do dever molenga que assalta as instituições do país. Com isso, o Congresso Nacional se tronou refúgio ou esconderijo remunerado.

E o Estado de Alagoas comparece nesse rosário com atos da vergonha. Um policial, que faz plantão em delegacia de polícia, é dono de uma empresa que oferece, e mantém, contratos de fornecimento de mão de obra, com estados brasileiros, inclusive com ministérios, e movimentou o equivalente a um milhão de Reais. E foi no seu escritório que a Polícia Federal apreendeu quatro milhões em notas, quando realizou operação anterior denominada “Kits robótica”. Essas notas estão dispostas, assim uma em cima da outra, formando uma montanha invejável de moeda corrente. Pois bem. Essa dinheirama toda está sem dono que a reclame, pois as provas foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal. Ninguém reclamou o dinheiro, ninguém pediu sua devolução.

E a venda da Sabesp. A proposta é de uma única empresa, sem experiência em água e esgoto, com proposta abaixo do valor de mercado, e cujo preço representa dois anos de lucro da empresa. “Não estou nem aí” se tornou o lema dos corretores e roedores do patrimônio público brasileiro.

O Supremo Tribunal Federal autorizou, no governo passado, que as subsidiárias da Petrobras fossem vendidas sem leilão. Sabem o que aconteceu? Os roedores exibiram os dentes de felicidade. Foi uma festa, sem patriotismo, tranquila.

Agora, falam em vender as praias? Mas devem ser aqueles poucos que vendem a mãe.

Mesmo assim, com essa leva de vendilhões, xingadores, devedores do Estado brasileiro, muitos dos quais se encontram anualmente em Portugal, com Ministros, inclusive do STF, Presidentes da Câmara e do Senado, políticos de toda laia, empresários, muitos são devedores de impostos, ocasião em que as relações se estreitam sob a desculpa de que discutem o Brasil, sem que ninguém saiba o porquê de discutirem lá e não aqui, e sem transparência.

E a imprensa nem divulga que o governo federal é um governo de frente ampla. Foca no PT e especialmente no Lula, em parceria com a tal Presidência do Banco Central, cujos arranjos públicos, aqui e no exterior, colaram dúvidas no futuro da economia nacional, em que ele, antes, nada falou com o governo brasileiro. Um órgão autônomo cuja função tem sido criar problemas para o governo, quando se sabe que a decência pessoal deveria simplesmente fazê-lo renunciar.

A oposição ruidosa e ruinosa não fará que desistamos do Brasil sonhado, organizado, soberano e livre.

No jogo das contradições, uma nova ética precisa ressurgir para aplainar o tereno do desenvolvimento e da paz. E a anistia não será a generosidade que faz proliferar a baderna golpista e o crime.

Os gestos como símbolos

A vida pública exige dos políticos a simbologia de seus atos. Assim o abraço transpira o espírito prevalecente no gesto. A palavra de desprezo ou de solidariedade faz de quem abraça e de quem é abraçado parceiros do caminho igual. O aparente e leve desprezo pela racionalidade no convívio esconde a vocação de brutalidade e violência com a qual a pessoa se expressa. Por exemplo, naquele “Não estou nem aí”, ao ser alertado de sua responsabilidade diante da brutalidade explícita, que causa morte ou não.

Entretanto, os sinais e as palavras não são, em regra, acessíveis à compreensão direta de quem deve ou não aderir à tal ou qual liderança ou candidato. A percepção popular muitas vezes corre por conta da informação, arriscada nessa época de notícias falsas em profusão. Por isso se diz – “o povo tem sempre razão, ou porque está bem-informado ou porque está mal-informado”.

Entretanto, trata-se aqui dos sinais que povoam as circunstâncias que rodeiam uma liderança.

Dois governadores de estado, o de São Paulo e o de Goiás, fizeram viagem longa, cansativa e rápida, para irem a Israel, num momento de guerra, abraçar o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que muito antes do conflito já era acusado por atos de corrupção pelo Ministério Público israelense. Lula foi o primeiro a falar pública e mundialmente sobre o massacre genocida, que ocorria em Gaza, e os dois oposicionistas, à falta de ideia superior, quiseram fazer o contraponto deles. E foram, rapidamente, e rapidamente voltaram: só o abraço solidário e o sorriso pelo malfeito, mesmo sabendo que aquele facínora comandava um território de discriminação e violência, em relação ao qual a África do Sul o acusou, até, da prática de “apartheid”, pior do que aquele que a submeteu durante anos. E foi esse país que representou contra Israel, com base na Convenção de Genocídio, assinada em 1948. Essa representação foi perante a Corte Internacional de Justiça, instalada em Haia, na Holanda, conhecida como “Tribunal da ONU”, cuja competência é decidir litígios entre estados.

Então, os dois governadores foram abraçar o alvo repulsivo das manifestações estudantis norte-americanas e de muitas nações da comunidade internacional. Um abraço com tal densidade, revelado pelo sacrifício de uma viagem tão curta e tão rápida, confere dimensão ao propósito camuflado de cada um.

A solidariedade tem sempre o mesmo sentido, apoiando cegamente os meios e os fins.

Seguramente, a questão é adivinhar a razão profunda dessa viagem rapidíssima só para um abraço promissor de iguais palavras, iguais pensamentos e iguais obras. O abraço solidário quer dizer estamos com você, você é o nosso mestre da barbárie.

A razão profunda não exigiria tanto nem dos dois, nem de nenhum outro. Pergunta-se: seria para agradar uma comunidade endinheirada para eventual doação generosa delas nas eleições futuras? Ou será sabedoria política vender para quitação futura, sua “alma política”? A rigor, é uma situação incerta, que depende de votação geral e futura, ainda que ela possa ser trabalhada pelas mentiras de informações reiteradas, ainda assim, há incerteza para esse investimento.

Na verdade, a indiferença do “Não estou nem aí”, face à brutalidade e às mortes ocorridas no litoral paulista, onde um cego, morto, teria apontado uma arma em direção a dois militares, naquela casa invadida sem mandado judicial, (a indiferença) corresponde exatamente aos descumprimentos históricos, por parte de Israel, das leis internacionais e das Resoluções do Conselho de Segurança e da ONU, desde 1948. “Não estou nem aí” é o repique disfarçado da propagação do ódio.

A destruição da linguagem

O fenômeno bolsonarista tem servido de muito estudo e reflexão, pois eclodiu como se fosse um ato repentino e fora de qualquer processo em curso.

Na verdade, a nostalgia – “um afeto que combina amargura da perda e a sensação de desencaixe com o momento no qual se vive” – predominante em franjas eloquentes da sociedade, em relação às políticas adotadas, encontraram no discurso desconexo, com louvações à prática da violência, e sua cuidadosa preparação do meio para se chegar a um passado glorificado, mas inexistente, como é o que prega o retorno à ditadura, como oásis de segurança e do conforto da cidadania.

O livro “Linguagem da Destruição: A democracia brasileira em crise”, lançado pela da Companhia das Letras, encerra três ensaios dos autores Heloisa M. Starling, historiadora, Miguel Lago, cientista político, e Newton Bignotto, filósofo, os três membros da universidade pública brasileira, e que fazem a análise do discurso sobre a realidade política e social sob a presidência do “negacionista”, que serviu para construir o caos. Analisar a linguagem oficial passa pela narrativa adotada para cada fato. E nesse ponto eleva-se, por exemplo, a conduta do governo durante a pandemia, entremeada de frases de comparações chulas, por parte do inelegível, pouco se importando com o número de mortes, muito menos com a pressa apressada da compra de vacinas.

O bolsonarismo não se enquadra nos conceitos tradicionais de nazismo, fascismo ou cesarismo tradicionais, mas fica nas suas cercanias, com aspectos novos, que não indicam nenhum projeto de governo capaz de dar segurança de propósitos aos adeptos desse movimento, cuja característica talvez desvele a dificuldade que o Bolsonaro teve em formar um partido político.

Se o nazismo no seu início procurou conquistar a opinião pública, melhorando as condições de vida, o inelegível nada fez nesse sentido, durante seu governo. Optando pela propaganda ideológica, com suas ideias desconexas, destrutivas de instituições e de pessoas, civis e militares, ignorando politicamente a intermediação dos partidos políticos, e com a preferência do contato direto com a população, através das redes sociais e do cercadinho que ocupava como tribuna, nas manhãs de sua saída do Palácio da Alvorada, quando inflava sua utopia regressiva.

O ataque calculado ao Supremo Tribunal Federal é o ataque ao Poder que estabelece limite na atuação das pessoas e dos demais Poderes. E essa volúpia integra o “projeto” anunciado desde o início por ele mesmo: veio para destruir e não para construir. É pedagógica a lembrança anotada por Bignotto: “O elogio que Bolsonaro fez da morte de trinta mil pessoas, no curso de uma operação policial no mês de maio de 2021 no Rio de Janeiro, mostrando que a morte é o centro gravitacional de seu poder” (p. 147).

O apelo ao confronto com os “comunistas” ressuscita um fantasma, muito querido pelas elites brasileiras, que lhes empresta o esqueleto e a alma, para assustar os incautos, porque ele não mais existe. Assim, recomenda-se não confundir espírito crítico com comunismo.

Esse ódio ao iluminismo dos Direitos Humanos canta frequentemente “O Brasil acima de tudo”, que, aliás, tem um longo percurso histórico, já que faz parte da “A canção dos alemães”, composta em 1841, quando da disputa territorial entre Prússia e França, e sua melodia é idêntica a uma composição de Joseph Haydn, feita em 1797. Os nazistas se apoderaram da canção, em 1930. Ela foi adotada no Brasil em 1966, introduzida na Brigada de Paraquedistas, por jovens oficiais que integravam um grupo paramilitar Centelha Nativista, que na origem adotava esse brado. “Grupo dessa natureza – como a Aliança Anticomunista Brasileira ou Grupo Secreto – foram gestados nos quartéis e órgãos de informação e segurança das Forças Armadas e consistiram no principal foco de ativismo das facções da linha dura, durante a ditadura iniciada em 1964. A Centelha Nativista era formada por capitais, majores e coronéis do Exército organizados em torno de repertório ideológico bem definido pela “segunda linha dura”. Alegravam proteger a “democracia” contra o marxismo e o comunismo, estavam dispostos a lutar contra a subversão, pretendendo resgatar os ideais da ‘Revolução de 64’, que entendiam terem sido traídos pelos governos dos generais” (Heloisa Murgel Starling, p. 109).

“O grupo Nativista abrigava-se na Vila Militar e dedicava-se ao ativismo político quanto à execução de ações armadas (idem p. 110)”.

Se esse precedente explica a vertente golpista de militares, tem-se ainda a história do Partido Nazista da Alemanha que estendeu seus tentáculos para 83 países, instalando seções no exterior. A maior delas, com 290 integrantes oficiais, era a seção do Brasil. Tivemos o Partido Nazista do Brasil que funcionou de 1928 a 1938.

O ex-presidente Bolsonaro, com seu discurso desconexo e destruidor, propagando a utopia regressiva, que nunca existiu, seguramente encontrou eco no subterrâneo provindo da ditadura e que emergiu na vida nacional, com as sementes pervertidas do Partido Nazista do Brasil, e que a democracia, sempre ameaçada, tenta arrancá-las, como rebotalho, para limpar de vez os tropeços de nossa redenção, como país soberano, democrático e justo. Afinal, “… o comunismo é um fantasma retórico usado por demagogos de várias tendências políticas, como arma ideológica, sem nenhuma correspondência com o quadro geopolítico global” (idem p. 128 Newton Bignotto).