Escolas da bitola estreita

“É na sala de aula que se forma o cidadão,

É na sala de sala que se muda uma nação…

(Leci Brandão – Os Anjos da Guarda)

O Brasil está querendo fechar o beco da racionalidade, da inovação, do avanço científico, da tecnologia digital da formação humana, inventando a multiplicação de escolas cívico-militares, que devem ser chamadas de escolas da bitola estreita.

Houve quem dissesse que elas seguramente garantiriam o surgimento de um, ou mais, golpista, autoritário, pretensioso, salvador, cuja hipótese ilustra bem o tamanho da desgraça que o futuro nos reservaria, como consequência de nossa atuação covarde.

A liberdade de expressão, que tem limites no respeito às pessoas e às instituições, não pode ser garroteada por um espírito de frente unida, disciplinada para obedecer pessoas despreparadas na gestão de pessoas, e que escondem sob o vozerio autoritário a fraqueza de não saber e não poder, pela estreiteza da bitola fomentar os espíritos daqueles jovens, o criativo silêncio da explosão do encontro com o novo, a abstração das invenções, num ambiente de convívio democrático, que pressupõe diferenças.

O crescimento da pessoa como patriota, democrata, criativa, amante de seu país e defensora dele, não passa pelo trilho da bitola estreita da educação.

A rigor, os democratas e os patriotas devem recuperar a dignidade da Escola Pública, com recursos adequados ao melhor trabalho, pagando seus professores, ao invés de abrir frente de trabalho para quem não é do ramo, neste Brasil que precisa de teóricos de sua realidade objetiva, para alcançar sua redenção e sua soberania.

Não é possível admitir escola cívico-militar para dar trabalho e renda suplementar para quem esteja na reserva. Há muitas outras frentes de trabalho para que eles, dignamente, aproveitem sua experiência, sem causar danos, como  à frente da segurança pública. E o Rio de Janeiro está precisando desvendar seu enigma de criminalidade expansiva.

Nossas Instituições precisam ser invadidas pela teoria e pela prática democráticas, superando os dogmas ideológicos que alimentam a mediocridade nacional, colocando-nos aos pés de interesses geopolíticos e econômicos que ferem a real necessidade da população.

A Escola Pública prestigiada com recursos necessários e professores estimulados e valorizados como devem sê-lo, pois são eles os “Anjos da Guarda” das gerações que despertam. Essa Escola acontecida se afigura como exemplo de espaço democrático, que tanta riqueza ofereceu ao país, é nele que as crianças se socializam na relação com diferentes. A Escola que deveria ser a prioridade das políticas educacionais, que não pressupõem espírito de mercadores naqueles que são responsáveis por elas.

O Brasil com sua herança escravocrata sempre se apresenta como eterna promessa. E os alienados a repetem, admirando com seus olhares fixos, o estrangeiro rico e imperial.

O enigma do Rio de Janeiro

O então governador Leonel Brizola sempre dizia que o Rio de Janeiro não produzia armas e nem drogas. Elas entravam pelas fronteiras e pelo mar, cuja responsabilidade era das Forças Armadas. É dele também a ordem para que a polícia militar, nas favelas, tratasse o pobre como tratavam os ricos, ou seja, invasão da casa só com mandado judicial.

Só em 6 de novembro de 2023, com duração até 3 de maio 2024, o Presidente Lula autorizou operação coordenada das três armas, com 3.700 militares para fiscalizar e vigiar portos e aeroportos do Rio de Janeiro e São Paulo, Santos, Guarulhos e Galeão, e Lago de Itaipu. Anunciou também a criação de um comitê de ações integradas da segurança pública.

Felizmente, A Aeronáutica, do Exército e da Marinha passaram a atuar em ações de combate à criminalidade nesses locais. Os ministros da Justiça, e o da Defesa, apresentarão plano de modernização de atuação da Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Penal, Exército, Aeronáutica e Marinha, visando melhorar a atuação em portos, aeroportos e fronteiras.

Depois de tanto tempo, lê-se uma providência efetiva, em termos de segurança pública, apesar do curto prazo de sua duração. Mas, honestamente, serve de ponto de referência para um avanço maior, como é necessário que aconteça.

Não há dúvida mais de que o Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa do Brasil, está há muito tempo assaltado pela bandidagem. Há bairros inteiros submetidos à violência de milícias, que exigem taxas da população sobre o consumo do gás, do transporte, do funcionamento do comércio, de loteamentos clandestinos e construções de prédios que desmoronam, e que foram construídos por conta de “rachadinhas” de políticos corruptos. É uma vergonha nacional.

Muitos governadores não resistiram ao assédio permanente do dinheiro fácil e foram cassados, quando houve confluência de interesses, entre a parte boa e a parte podre deles.

De qualquer forma, a bandidagem tem representante em muitos escalões do Estado, como revela a investigação da morte da vereadora Marielle e seu motorista, investigação boicotada, frustrada, e recuperada em seu rumo pela Polícia Federal. Mas durante anos, houve troca de delegados, troca de promotores, contratação de advogado e investigadores para desviarem a investigação.

O Rio de Janeiro é uma cidade que reúne em seu território guarnições significativas das nossas Forças Armadas. Assim o Exército, assim a Marinha e assim a Aeronáutica. As três armas possuem seu setor de inteligência. Temos o setor de inteligência da Marinha, o setor de inteligência da Aeronáutica, o setor de inteligência do Exército. Creio ter cada uma um setor de polícia. Ainda temos a inteligência da polícia civil e a da militar. Há exagero de inteligência desperdiçada. Por isso não é possível a bandidagem passar ao largo de uma, ao largo de outra, ao largo de outra, sem que seja percebida por nenhuma, ou que seja ignorada por todas, apesar da desfaçatez pública com que a bandidagem se apresenta. É justamente sobre o setor de inteligência que a Agência Pública veicula agora, em seu site o que nos envergonha ainda mais: “A AGÊNCIA Pública descobriu que informes, relatórios e outros documentos de inteligência, produzidos pelos interventores militares, no Rio de Janeiro em 2018, não existem nos arquivos públicos, e que nem mesmo as autoridades parecem saber totalmente o que foi descoberto à época”. Fica a pergunta ainda sem resposta; “…o que os militares descobriram sobre esse crime (Marielle), sobre grupos milicianos e sobre outras facções criminosas que operam no estado?”.

Onde está realmente a inteligência de nossos setores civis e militares que não chegam a lugar algum nessa violência que pode ser equiparada a uma guerra civil oculta? Não é preciso dizer que necessitamos de militares e de suas instituições, fortes o suficiente, não para dar golpe nelas, mas para defender a democracia, a longa fronteira seca do Brasil, nosso mar, nossos rios e florestas, nossa segurança.

Para isso procura-se um brasileiro, militar ou civil, competente, honesto, democrata e patriota, consciente, com grupo organizado, preparado ética, moral e tecnicamente para enfrentar efetivamente essa bandidagem, que ofende os principais elementares da convivência social, agride a legitimidade de nossas instituições, ofende a solidariedade federativa e a soberania nacional.

Tantos militares se dedicam tanto a combater o que não existe como o “comunismo”, aliás já está até fora de moda, que a reaquisição da racionalidade, somada ao aprofundamento da realidade local e nacional, poderia dar um sentido de força à democracia, que tantos ameaçam, aproveitando-se dos direitos e vantagens que ela própria, democracia, lhes destinam.

E existe a prática do boicote da política de segurança pública para, desta vez, não dar ao Presidente Lula, hoje cercado politicamente pela extrema-direita, o crédito de que sua política representa a racionalidade dos racionais e com sucesso.

O Rio de Janeiro oferece verdadeiro enigma, com a paralização de instituições que dizem não ser delas a competência constitucional para tal atuação, quando a legitimidade de todas está sendo corroída, diariamente e há anos.

O Rio de Janeiro tem o mérito negativo, ou melhor, demérito histórico de ter exportado sua violência, até o centro do poder político brasileiro.

A guerra vencida, mas que continua

Quando o Estado de Israel e o Estado Palestino foram criados em 1947, os palestinos não tinham, perante a comunidade internacional, um perfil de nacionalidade exuberante, como povo, assim, seus pensadores, seus artistas não tinham uma exibição pública forte e eficaz. Ao contrário dos sionistas, organizados a partir do final do século 19, que apresentam ao mundo a gama admirável de judeus festejados pelos prêmios Nobel.

Nesse percurso sionista, aparece a reunião internacional, em Evian – França, organizada pelos Estados Unidos, em 1934. A pauta era aceitar ou não judeus, como refugiados ou emigrantes, já perseguidos na Alemanha nazista. No conclave estiveram 34 nações europeias. Só duas europeias aprovaram a proposta. Os Estados Unidos não a aceitaram. Veio a tragédia inusitada do Holocausto da Segunda Guerra Mundial, que seguramente pesou na consciência de muitos, e particularmente dos Estados Unidos.

Em 1947, criaram-se dois Estados. O expansionismo sionista, entremeado de violência armada e psicológica, chegou atualmente a ter na Cisjordânia, território do Estado Palestino, 700 mil colonos provindos de outros países, numa política assombrosamente de colonização de terra alheia.

Se Israel nunca cumpriu nenhuma Resolução da ONU – Organização das Nações Unidas –, nem do Conselho de Segurança, o celebrado acordo de Oslo, que garantiu Prêmio da Paz aos líderes de lado a lado. A frustração do acordo pelo descumprimento por parte do governo sionista, ainda assim deixou, objetiva e efetivamente, impassível a “cegueira deliberada do Ocidente” em relação à Palestina. Só que nesse acordo a liderança da OLP cedeu território e ganhou a etiqueta de traidora.

A vida de discriminação, humilhação e violência continuou na região, chegando ao dia em que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin “Bibi” Netanyahu, no segundo semestre do ano passado, ocupou a tribuna da Assembleia Geral da ONU, num plenário esvaziado, para anunciar surpreendentemente o novo mapa do NOVO ORIENTE MÉDIO, sem o Estado da Palestina. Ele a extinguiu até no mapa, acreditando no efeito final das armas…

Deu no que deu. Houve o ataque do Hamas, e a violência, que sempre merece repugnância, estendeu a guerra, com a promessa de destruição definitiva do Hamas.

O ataque surpresa aprofundou o ódio de retaliação do Estado sionista, até pela pintura desfeita de que era inexpugnável. O palco maior dessa retaliação foi o território de Gaza, com a destruição inclusive de hospitais, mortes de mulheres e crianças, cutucando a consciência universal para o genocídio que acontecia e acontece ali.

Agora, a comunidade internacional reage junto ao Tribunal Penal Internacional, com pedido de prisão para protagonistas. E a cegueira universal começou a ser superada pela emergência de protestos mundiais a favor da Palestina. Até chegar ao anúncio da Irlanda, Espanha e Noruega que reconhecerão o Estado da Palestina.

A gravidade da situação e suas contradições conferem ao anúncio desses países uma bandeira ética e moral de alarme, de denúncia, de protesto, de insurgência humanista, pois reconhecerão um Estado, que não foi ainda implantado. E com isso invertem o caminho regular de um reconhecimento que se faz, quando não se tem pela frente a força insaciável da estupidez guerreira.

O governo de Israel fica mais e mais isolado, com os Estados Unidos sendo obrigado a jogar um jogo duplo, em desfavor de seu parceiro Israel, já que a opinião nacional e internacional adere ao clamor palestino.

Se em 1947 o povo palestino não tinha como aparecer como uma unidade de nação, hoje a comunidade internacional, seja pelas resoluções afrontadas, seja pelo movimento estudantil mundial, seja pelos fervilhantes espaços públicos a favor da causa palestina, eis que surge a pergunta, até contraditória: Quem ganhou a guerra que continua?

O Estado de Israel foi denunciado como regime de “apartheid”, pior do que aquele vivido pela África do Sul, regime de separação racial, de 1948 a 1994.

Não confundir grupo político sionista, discriminador racista e violento, que empolgou o poder político, com o povo judeu saído dos campos de concentração, e que sempre tiveram nossa solidariedade.

A opinião pública mundial agora sabe do drama histórico dos palestinos.