Um exemplo a ser comparado

O fato de não se apreciar uma liderança política, ou por opção ideológica fanática, ou por preconceito, não pode proibir o espírito crítico de registrar no oponente virtudes que não se encontram em qualquer outra pessoa conhecida, que tenha ocupado o mesmo cargo ocupado por quem merece uma apreciação de justiça.

Essa reflexão deve-se à inusitada presença internacional do Presidente Lula, figura indispensável em fórum internacional, particularmente nesse que o levou à Malásia e à Indonésia, onde recebeu o título honroso, mais um, de doutor honoris causa.

Sim, ele errou em frase de seu discurso de improviso, falando de traficantes e usuários de drogas, numa mistura nada acertada. Mas prender-se a esse erro, pelo qual ele pediu desculpas públicas, é ignorar o gigantismo de sua liderança, preocupada em representar dignamente o país, defender nossa soberania e a dignidade nacional, abrindo mercados para os produtos brasileiros, levando empresários para conhecer e trabalhar o potencial de compra e venda dessas economias com as quais temos laços ainda pequenos, constituiu uma tarefa inusitada e sem precedentes, que necessitam de honestidade da comunicação e da sua interpretação.

Não dá para comparar essa altivez com o que apresentou e apresenta o ex-Presidente, condenado, que para afetar simplicidade no conclave internacional foi comer pastel na sarjeta, no mesmo país estrangeiro em que batera continência para a bandeira dele, num ato de sabujice que envergonha cada um de nós, vendo o símbolo de nossa Nação conspurcado pela alienação da consciência nacional, até mesmo como militar reformado, o que agrava o deslize.

Tanto para ser preso, como já preso, Lula deu exemplo de dignidade. Poderia ir para uma embaixada, como tantos o aconselharam, nem dormiu uma noite só em qualquer uma delas. Ele, quando perdeu eleições, jamais disse que as urnas eram fraudadas, nem nunca criticou ou pretendeu desmoralizar o Supremo Tribunal Federal, permaneceu firme, aceitando a prisão, mas fixado sempre em tirar a máscara de seus perseguidores, como depois ficou provado tratar-se de um bando de assaltantes de toga.

O relator da Corregedoria do Conselho Nacional da Magistratura desventrou inclusive o sumiço de bilhões de Reais que estavam sob a custódia da 13ª Vara de Curitiba. Tem-se ainda depoimentos que revelam a festa da cueca filmada com a presença de Ministros do Superior Tribunal de Justiça, que teriam sido vítimas de pressão, ou achaque, por causa desse filme. Promotores, juiz e juíza suspeitos, identificados como lava-jatistas, estão à beira da execração pública, apesar de existirem Ministros querendo funcionar como “emenda de blindagem”, a esse bando que ignorou o Estado Brasileiro, entrando em contato e recebendo à socapa representantes da justiça estrangeira. Uma equipe do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

É narrativa perversa e mentirosa dizer que Lula, apesar de seus processos anulados por suspeição do Juiz, não era e não é inocente. Juiz parcial é juiz corrupto, juiz suspeito é juiz corrupto, intoxicando de nulidade qualquer ato de um processo. Juiz parcial é um juiz totalmente carente de ética e prevaricador. Esse até orientava os promotores sobre a maneira como eles deveriam agir. Uma vergonha que lambuzou a dignidade e a legitimidade do Poder Judiciário. Levou à falência empresas brasileiras – como se estivesse a mando de interesses espúrios – que concorriam, no exterior, com as norte-americanas, destruindo milhares de empregos.

Suspeito que decide é corrupto, porque parcial, porque viola o postulado fundamental da magistratura que é a de ser honesto e imparcial. A coerência do Juiz suspeito, parcial e corrupto, é apodrecer tudo, é contaminar tudo, e nulificar tudo, como se tudo não existisse. Um serviçal, fiel e apodrecido, de interesses estrangeiros.

Também, Lula não colocou parentes na senda milionária da política, mulher, filhos, sogras e noras, que serviram ao ex-Presidente, condenado, na prática parlamentar da indecência da chamada “rachadinha”, cujo dinheiro vivo ficava escondido, e amontoado, num cofre de agência bancária, no centro do Rio de Janeiro, do qual só saía, parcial e coincidente, para a aquisição de imóveis em dinheiro vivo, que chegaram ao patrimônio da família em número de cinquenta e seis. Todos comprados com dinheiro vivo que jorrara da fonte corrupta e miliciana da política.

Lula não instrumentalizou órgãos do Estado para inibir investigações de filhos, parentes e amigos.

Lula sempre respeitou a religião, já que religião é para humanizar as pessoas, não é para servir de trampolim na política, muito menos para servir de moeda, ou pedágio, para o paraíso futuro. O crente entrega bens, às vezes todos, ao templo para pagar essa estrada do céu, enquanto o pastor convertido em corretor da felicidade permanece com todo o dinheiro e todas as benesses terrenas. Esse aproveitamento da religião na política sufoca a virtude e a humanidade da pessoa religiosa e humanizada, quando não a mata pela tortura.

Como o ser humanizado pela religião defende a tortura da pessoa, se é no rosto do outro que aparece a sacralidade do Criador? Como defender torturadores, considerados exemplares, se torturar é o mesmo que repetir o calvário até a crucificação, que ilumina nosso mundo ocidental por mais de dois milênios.

Lula não é nenhum super-homem. No entanto, sua experiência de vida e sua coerência com a realidade que viveu, fazendo-se homem de Estado, e com o gabarito surpreendente a ponto de ser convidado como presença necessária em eventos internacionais, nos impõe, primeiramente, respeito, depois admiração, pois temos que considerá-lo um fenômeno nascido das terras secas do nordeste brasileiro.

A liderança internacional de Lula, cuja presença é exigida em foros internacionais, constitui orgulho para o Brasil.

Mongólia

Mongólia era simplesmente o nome de uma região distante. Ela se aproxima, mais e mais, graças a uma amiga, apaixonada por viagens, pessoas, povos, terras selvagens ou terras defloradas pela modernidade, inclusive tecnológicas.

Ela é a Luciana Palma, inicialmente cliente, depois uma amiga dileta, que já visitou 134 (cento e trinta e quatro) países, e que até agora suportou a pressão para se tornar a memorialista de tantas viagens, sendo que sua ansiedade por conhecer ainda promete não sei quantas viagens.

Ela não se contenta com museus; andar é com ela, por ruas, praças e estradas, conversando com quem possa e queira conversar, descobrindo não só o hábito de viver sob tal ou qual regime político, o desassossego da juventude, a sabedoria dos velhos, as condições de trabalho e vida, a liberdade de homens e mulheres, a relação com a natureza machucada, em quase todo o mundo. Ela poderia ser tranquilamente uma professora de sociologia, ou uma historiadora com tendência arqueológica. E, ainda, depois de cada viagem, lê o que descobre ligado à terra que conheceu, como faz com o país de sua última viagem – a Mongólia.

Esse país, que se localiza na Ásia Central, cujas fronteiras são com a Rússia e a China, foi o berço de uma civilização, que num determinado e longo período conquistou e implantou o maior império territorialmente contínuo da história do mundo. A contrapartida dessa continuidade de terras, a história nos apresenta o império britânico, esparrado grandiosamente, mas por pedaços de longas terras ou de ilhas, aqui e acolá.

Mongólia não tem saída para qualquer mar, e foi nela que surgiu a grande figura humana, militar, estadista, governante, que conseguiu reunir as tribos da região (século XIII), com identidade mongol, fundando o majestoso império mongol, Gengis Khan (31/5/1162 até agosto/1227), cujo reinado cobriu o período de 1206 a 1227, ou seja, até sua morte, e que compreendia do Oceano Pacífico ao Mar Cáspio e o norte do Mar Negro.

Ela contou singelezas, como a caça com águias, que os homens das montanhas as submetem ao aprendizado de pegar não só as raposas, como também animais pequenos. Ficam eles e elas nas montanhas porque elas precisam enxergar as presas, e voar até prendê-las naquelas garras afiadas, esperando a chegada de seus donos.

Ela se deslocou, uma vez, de um lado a outro, nos seus trinta dias de permanência, com um velho carro, tipo jipe, e a cavalo por mais de oito horas. Os pneus furaram com muita frequência, porque a estradas são incrivelmente ruins.

O(a) viajante sempre pergunta ao dono das cabanas se pode ali ser recebido e pernoitar, e sempre a resposta é positiva, para aquele convívio coletivo e receptivo. Higiene não existe.

O inverno de lá chega a menos quarenta e cinco (–45) ou menos cinquenta (–50) graus, o que os obriga a usar peles dos animais que criam. Dentre eles um animal não muito grande, que lembra nossos bovinos, com a diferença de terem um volume grande de pelos.

A alimentação básica é baseada na carne. E o leite é equino, ou seja, das éguas, no qual se acrescentam água e chá.

A prática de viajar para conhecer, conviver e, especialmente, assumir a cultura de outros países e terras é um meio utilizado pioneiramente pelos árabes, sendo que na guerra a preservação cultural dos povos conquistados era respeitada e incentivada.

Luciana Palma está lendo tudo sobre Gengis Khan.

O resistente

A jornalista premiada Dorrit Harazim (Zagreb, 1/5/1943), depois de tanta experiência, inclusive como fundadora de Revistas, como a Piauí, tornou-se colunista do jornal O Globo, que recentemente veiculou artigo de sua autoria (Domingo, 28/9/2025), sob o título Um Resistente, no qual Gaza e os palestinos ganham vertentes de compreensão, que merecem ser anotadas, por quem de alguma maneira ocupa lugar de alguma comunicação.

O isolamento de Israel pode ser registrado com o que ela recorda da última sessão da Assembleia Geral da ONU, quando Lula, com seu discurso histórico (“o povo palestino pode desaparecer”), aplaudido por mais de duas vezes, enquanto na vez da tribuna entregue ao genocida Benjamin Netanyahu houve uma debandada geral, que permitiu só as moscas o ouvirem, aprisionadas, sem poder voar para fora, como tentaram. Antes, a debandada era menor…

Aconteceu a adesão de “pesos-pesados”, normalmente acovardados e cúmplices do Ocidente, que acompanharam a posição diplomática brasileira, reconhecendo o Estado da Palestina, atrasadamente, já que nessa última etapa o exército sionista matava mulheres e crianças, esfomeadas, até na fila que esperava pelos donativos, assim como um divertimento macabro, endoidecidos pela destruição de hospitais, igrejas, escolas.

Ninguém ouviu que o genocida declarou que ocuparia a telefonia de Gaza, instalando alto-falantes em todo pedaço daquela terra ensanguentada, para transmitir seu discurso. E foi em inglês que afirmou que destruiria totalmente o que resta de Gaza e dos palestinos.

Sem expressa vontade, ele confirmava o “relatório de 124 páginas, com 1.400 notas de rodapé, publicado há um mês pelo respeitado grupo israelense B’Tselem (Centro de Informações Israelenses para Direitos Humanos nos Território Ocupados) intitulado ‘Nosso Genocídio’. No documento, os autores concluíram que o Estado e a sociedade de Israel cometem crimes de genocídio em Gaza, tomando a desumanização de suas vítimas como condição fundamental para a ocorrência desse crime”.

Ela recorda que a “população de Gaza é de 2,2 milhões de pessoas e mais de 10% foram mortas ou estão feridas”, segundo declaração do general Herzi Halevi, ex-chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel (FDI).

“Nada tão diferente dos compilados pelas autoridades de Gaza:  65.283 mortos e mais de 166 mil feridos, somando um total de 230 mil vítimas, a maioria delas civis indefesos. Vale lembrar que os dados divulgados pelo Ministério do Hamas se sustentam em listas detalhadas – nome, sobrenome, idade, nome do pai, avô, número da carteira de identidade, facilmente verificáveis, pois o RG dos palestinos em Gaza é fornecido por Israel. Cabe acrescentar que nenhuma lista até agora inclui os desaparecidos, sob os escombros do que um dia foi Gaza, nem os mortos por inanição, doenças decorrentes da desumanidade e da destruição.”

A palavra destruição talvez não dê a real dimensão da tragédia palestina. Talvez tenha que se lembrar de que não sobrou pedra sobre pedra, casas, igrejas, hospitais, escolas, imóveis, tudo colocado brutalmente no chão, substituído por milhões de toneladas de escombros, entulhos e ruínas, cujo lugar para depositá-los não existe, como está prejudicado qualquer plantio de alimentos, porque os bombardeiros contaminaram a fertilidade do solo.

Também é significativo o fato dela mencionar o historiador israelense Lee Mordechai, ex-oficial do Corpo de Engenharia de Combate da FDI, professor sênior de História na Universidade de Jerusalém. Ele vivia “enfurnado em estudos sobre desastres humanos e naturais da Antiguidade, quando ocorreu o 7 de outubro terrorista e a resposta militar contra Gaza. Desde então, trabalha metodicamente na montagem de uma documentação sobre crimes de guerra israelenses no território”.

Essa documentação já sofreu seguidas atualizações, escrita em língua inglesa, inclusive, tem 124 páginas, com 1.400 notas de rodapé, e segundo ela, esse trabalho está disponível on-line sob o título “Bearing witness to the Israel-Gaza war” (Prestando testemunho sobre a guerra Israel-Gaza). É aterrador.

O compromisso com a verdade histórica, testemunhada por seu olhar de pesquisador isento, fê-lo dizer:

“Não estou aqui para confrontar as pessoas e discutir. Escrevi o documento para que fosse divulgado. Para que daqui a meio ano, um ano, ou cinco, dez ou cem anos, as pessoas possam voltar a ver que isso é o que eu sabia, o que era possível saber, já em janeiro ou março de 2024. E que aqueles entre nós que não sabiam, escolheram não saber. Para mim é importante olhar no espelho, importa divulgar essas coisas. É minha forma de resistência.”

O genocida, antes da guerra, já respondia a processos de corrupção perante a justiça israelense, por isso ele deseja guerra e guerras, para se proteger internamente, tentando unir a desunião do povo de Israel.