O bordel das mulheres sob o nazismo

Não é porque o sionismo reina em Israel, como governo racista, violento e discriminador, genocida, com seu esforço para aparentar ser a encarnação do monopólio universal da dor, que nós poderemos ignorar as novas vertentes emergentes do horror cometidas pelo regime nazista contra o povo judeu.

Agora, recentemente, aparece em realidade brutal a instituição de um campo de concentração criado para ser o maior Bordel do Terceiro Reich.

Agora, só recentemente, vem a lume o resultado da pesquisa da historiadora espanhola, Fermina Cañaveras, que desde 2008, comovidamente, pesquisa a horrenda realidade das mulheres prostituídas, muitas grávidas com o ventre aberto para evitar o nascimento, tantas outras mortas caprichosamente, pela maldade entranhada na estrutura do Estado e na alma desalmada dos profissionais das armas, e de civis servis. Eles fizeram da descendência judaica feminina e masculina o objeto da sua sanha animal, sob pretexto de fazer da Alemanha o cenário geográfico da pureza da raça ariana.

O ódio desse regime, no qual a estupidez humana apareceu, nos tempos modernos, como forte objeto material e moral, da indignação da consciência universal, que desafiada gerou a Declaração dos Direitos do Homem, na Conferência das Nações Unidas, assinada em 10 de dezembro de 1948.

Esta Declaração assumia em palavras e em compromisso solene a certeza de que não haveria mais guerra. Mas depois dela se sucederam em muitos países do mundo, como se via na guerra da Coreia, na guerra do Vietnã, e os golpes de Estado em todas as regiões do mundo, inclusive na América Latina e do Sul aninados especialmente pela “complexo industrial-militar”, denunciado face à sua vocação expansionista pelo General Eisenhower, como presidente dos Estados Unidos.

Mas quando a Declaração foi concebida por força do horror da 2ª Guerra Mundial, não se conhecia a vertente exclusivamente feminina desse episódio histórico do qual não se pode esquecer.

O livro publicado na Espanha, em 2014 (El Barracón de las mujeres), e com o mesmo título em português – “O Barracão das Mulheres”, veiculado no Google, por Globo/Época no dia 24/02/24, descreve o horror instalado a noventa quilômetros de Berlim, exatamente em Ravensbrück, “… exclusivamente para violar os direitos das mulheres: estupro, abortos forçados e esterilizações, que eram os três pilares sobre os quais este campo de concentração e extermínio foi construído. Por ele passaram até 130 mil mulheres entre 1942 e 1945. Sobreviveram 15 mil, das quais 200 eram espanholas. Até o momento, Fermina Cañaveras conseguiu localizar 26 delas”.

Esse campo de concentração só de mulheres ocupa o segundo lugar em número de vítimas, o primeiro é o de Auschwitz.

A autora reclama que tradicionalmente a história é contada majoritariamente por homens, mas a desgraça que acomete as mulheres é naturalmente reduzida para, devagar, cair no esquecimento.

“Elas foram violadas cerca de 20 vezes por dia, na frente de muitos soldados que vinham para olhar, e muitas delas ficaram grávidas. Eram essas mulheres com as quais experimentavam, abriam seus ventres e as deixavam morrer, para ver quanto tempo os fetos aguentavam. Não se trata de morbidez, é memória, e assim deve ser contada”, diz a historiadora.

Ela se dedicava à pesquisa de outro projeto, quando encontrou uma fotografia esmaecida, que era de uma mulher “do pescoço até a cintura”, com uma inscrição em alemão tatuada no peito: “FED-Hure, prostituta do campo”.

Após o encontro com uma das sobreviventes, Isadora Ramirez (1922-2008), ela optou por escrever um romance.

O livro tem a apresentação do famoso Juiz espanhol Baltasar Garzon e seus colegas da Comissão de História do Teatro del Barrio de Madrid.

Gaza está na pauta do mundo. Antes nunca esteve.

Genocídio: Delito contra a humanidade definido pela ONU. Consistir no emprego deliberado da força visando o extermínio ou a desintegração de grupos humanos, por motivos raciais, religiosos, políticos etc. (in: Dicionário da Língua Portuguesa, Encyclopedia Britannica do Brasil). Cada hipótese desse conceito foi introduzida no direito internacional, através da Convenção da Prevenção e Punição do Crime de Genocídio, de 1948, no seu artigo II, a saber: a) matar membro do grupo, b) causar sérios danos físicos ou mentais a membros do grupo, c) Submeter intencionalmente o grupo a condições de vida destinadas a causar a sua destruição física no todo ou parte, d) imposição de medidas destinadas a impedir o nascimento de crianças dentro do grupo, e) transferência forçada de um grupo para outro grupo.

O ataque do Hamas aconteceu depois que o primeiro-ministro Benjamim “Bibi” Netanyahu, no final do ano passado, declarou da tribuna das Nações Unidas – ONU, a extinção da Palestina, já que apresentou o mapa da Grande Israel, em que ela não mais aparecia. Como desde 1948, Israel nunca cumpriu nenhuma Resolução expedida por esse coletivo internacional – ONU — esperava-se que existiria um mecanismo de prisão preventiva, confiante plenamente no sucesso da prática de extermínio prolongado, no tempo, como se já tivesse esvaído o sangue, a dignidade e a honra de um povo humilhado diariamente. Enganou-se, enganamo-nos. Nosso engano foi construído pela maneira com que nossos jornais e noticiários e comentários de TV se omitiram sempre sobre o drama diário dos palestinos, na faixa de Gaza cercada e na Cisjordânia, que constituiria o Estado palestino, mas vagarosamente ocupada por 700 mil colonos vindos de outros países, à custa e convocação do Estado de Israel, dirigido tradicionalmente por sionistas, que representam um movimento político raivoso, violento, discriminador.

Portanto, torna-se risível que jornalistas brasileiras, servis, afrontem o Presidente do Brasil por ele ter expressado, como líder mundial inclusive, o que a comunidade internacional pensa a respeito da morte de 30 mil pessoas, homens, mulheres e crianças, com requinte de ataque inclusive a hospitais.

Qualquer pessoa pode pesquisar no Google “Gaza – prisão a céu aberto”, e seguramente vai encontrar matéria muito anterior a atual guerra, que revela a normalidade da violência exercitada impunemente pelo governo sionista:

Em matéria veiculada no dia 30/07/2021, assinada por Sayid Marcos Tenório, sob o título: “Israel tornou a Faixa de Gaza uma prisão a céu aberto”, e registra: “O escritor Eduardo Galeano simplificou o apartheid que os palestinos continuam sofrendo com o bloqueio imposto à Faixa de Gaza por Israel desde 2007. Ele escreveu que Gaza se tornou uma ratoeira sem saída, desde que o Hamas venceu as eleições de forma limpa em 2006”.

E continua: “Durante esses 14 anos de bloqueio, a ocupação israelense tem privado os palestinos de seus direitos básicos, como o direito a uma vida decente, exercendo uma punição coletiva que pode ser considerada crime de guerra, de acordo com o Direito Internacional e o Direito Internacional Humanitário”.

Noam Chomsky (Filadélfia, 07/12/1928), linguista norte-americano, filósofo, em artigo divulgado em 2014, sob o título “O pesadelo de Gaza e a disputa de interesse” assinala: “No meio de todos os horrores que se desdobram na mais recente ofensiva israelense, a meta de Israel é simples: um retorno à norma. Na Cisjordânia a norma é Israel prosseguir com sua construção ilegal de assentamentos e infraestrutura, para que possa se integrar a Israel o que possa ser de valor, enquanto entrega aos palestinos os cantões inviáveis, e os submete à repressão e à violência. Para Gaza a norma é uma existência miserável sob um cerco cruel e destrutivo que Israel administra para permitir a mera sobrevivência e nada mais”.

O Google, em publicação de 10 de junho de 2013, veicula a matéria segundo a qual “Entre os dias 1 e 3 de dezembro de 2012, a eurodeputada Alda Sousa visitou Gaza, numa delegação internacional de que fez parte também a deputada Helena Pinto. Foram os primeiros estrangeiros a entrar no território depois dos intensos bombardeios israelitas da chamada operação “Pilar de defesa”.

A jornalista brasileira provocou o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Antony Blinken, na visita ao Presidente Lula, e ele respondeu, ensinando políticos e demais interessados de boa ou má-fé, dizendo que era amigo de Lula, e viu nas palavras dele em relação à guerra de Israel solidariedade à dor, como ele mesmo declarante o era.

Recentemente, e surpreendentemente, o governo norte-americano disse estar incomodado com a ocupação ilegal da Cisjordânia.

A imprensa brasileira, mais ligada a interesses privados ou aos preconceitos emergentes na política, nem assim percebeu que não foi o Presidente brasileiro que invocou o episódio do Holocausto, símbolo da estupidez humana, com a morte de seis milhões de judeus, na 2ª guerra mundial. Foi, sim, o primeiro-ministro Benjamim “Bibi” Netanyahu que o mencionou, para usá-lo, mais uma vez, como se desse a ele e ao seu Governo racista o monopólio da dor e simultaneamente e, mais uma vez, para fazê-lo de blindagem das barbaridades que comete.

O pensador palestino

Edward W. Said, árabe cristão, nasceu em Jerusalém, em 1935, na Palestina, desaparecida 13 anos depois, na diáspora provocada em 1948 pela guerra de ocupação, ininterrupta, das milícias sionistas-israelenses. Morou no Egito, depois no Líbano. Depois, nos Estados Unidos. Palestino com cidadania norte-americana, como pensador disputa o primeiro lugar na cultura relacionada ao convívio entre Oriente e Ocidente. Autor de muitos livros, dentre os quais, A questão da Palestina, Orientalismo e Cultura e imperialismo.

Estudou nas escolas inglesas, depois sucedidas por norte-americanas, no Cairo, após a guerra. Foi para os Estados Unidos estudar em Princeton e depois em Harvard. E, depois, lecionou na Universidade de Columbia.

Ele recorda que em Princeton, “em meados dos anos 50, o Times noticiou a conspiração israelense para explodir cinemas e bibliotecas que tinham conexão com os americanos, como o Metro e o Centro Usia” … “como parte de um plano para azedar as relações entre o novo governo de Nasser e os norte-americanos”.

Sua origem e a cor da sua pele, diferentes da brancura europeia e norte-americana, motivo de segregação, ora dissimulada, ora flagrante. Era versado em música, línguas, estudara piano e literatura, escapatória de liberdade de uma educação rígida por parte do pai, seguida pela mãe que não podia, naturalmente, reprimir sua afeição e seu amor. Tantas vezes companheira dele nos teatros de exibição musical, ou em tertúlias literárias.

Sua memória e sua inteligência, na fluente narração de sua autobiografia – Fora do lugar – Memórias – revela bem o grau da exclusão perversa de ser orador de sua classe e de sua formatura, em Harvard. Afinal, era um estudante que se sobressaía na classe e na Universidade.

Esse seu último livro, ele o iniciou quando “… se restabelecia da terceira sessão de quimioterapia”, em maio de 1994, pois seu corpo e seu sangue já estavam invadidos pela leucemia, um tremendo esbarrão em quem tinha o espírito grávido de futuro.

Muito leve, mas muito determinado, no livro está claríssimo seu esforço, bem-sucedido, de preservar os valores culturais de sua terra e de seu povo, sem deixar de conviver com eles os valores coloniais das superpotências, que se sucederam na dominação do Oriente Médio.

O episódio significativo dessa duplicidade cultural é a agressão que sofria na escola americana, quando descreve que, de repente, um outro Ed despertou dentro dele, para reagir, vitoriosamente, contra o agressor. Outra que Edward relembra é das estadias em Bikfaya, cidade situada na estrada sinuosa das montanhas libanesas, na qual, enraizada, morava a família Gemayel, cujo patrono Pierre, nas Olimpíadas de 1936, se encantara com as camisas pretas alemãs, fundando o partido maronita de extrema-direita, as Falanges: dois de seus filhos foram presidentes do Líbano. Um foi assassinado, Bashir, em 1982, seus adeptos pró-Israel reagiram e massacraram os refugiados palestinos nos campos de Sabra e Chatila.

É incrível a beleza fluente de sua narração, tão minuciosa sobre as pessoas, professoras, escolas, ambientes, certamente assegurada pelas qualificadas minudências delas. Incrível sua memória acionada pela força devastadora da doença incurável!

A sua narração não esconde a melancolia saudosa da Palestina, e a tristeza das sucessivas guerras no Oriente Médio.

Suas páginas sobre o pai, negociante vitorioso, que o desejava sucessor de seus negócios, são de comovente sensibilidade. Edward, filho homem único, convivia com suas irmãs, mas seu espírito não se compatibilizava com o de seu pai, afinal, desde cedo interessava-se pela música e pela literatura. Mesma sensibilidade orientou a expressão de seu sentimento e de seu amor, quando enfrenta a idade da mãe, doente, distante e vizinha da morte. É dele a confissão: “Agora, ao escrever isso, tenho a chance, muito tarde na vida, de recordar as experiências como um todo coerente que, por estranho que pareça, não deixou nenhuma raiva, só alguma mágoa e um amor residual surpreendente forte pelos meus pais”.

Sua história pessoal mistura-se com a história dos povos árabes.

Ele morreu em 2003.