A Guerra da Palestina

O livro de André Gattazz A Guerra da Palestina, de 2002, não trata o conflito, ora dissimulado diariamente, ora real, entre partes desigualmente armadas, o Estado de Israel e sua vocação expansionista, com o povo palestino. Esse conceito trágico de “A GUERRA”, que ele adota, é uma força de permanência que tem ultrapassado qualquer limite do tempo, já que não se prende a um determinado período: é contínuo. Ele, o livro, não transpira prevenção, ódio ou preconceito em relação ou contra o povo judeu.

Esse é um livro que transcreve um sem-número de documentos britânicos e norte-americanos, que revelam a longa política de ocupação da Palestina, iniciada na primeira metade do século passado, através de compras de propriedades dos colonos palestinos, até a brutalidade da desocupação acontecida após a votação internacional, na ONU, em 1947, que se utilizou da violência e da disseminação do medo e do terror das milícias sionistas. Depois, com o abandono dos imóveis pelos colonos palestinos, eles eram destruídos para descaracterizar qualquer identidade que pudesse alimentar o sonho do retorno.

Didático e objetivo, registra o como e o porquê da aprovação da divisão da Palestina, na Assembleia da ONU, na qual o poderio da pressão norte-americana foi definidor, pois, a maioria dos países que eram contra, e que foram convencidos, compulsoriamente, a alterar seu voto, porque os investimentos nacionais não teriam os créditos internacionais, ou os teriam se mudassem seus votos, como tiveram que mudar.

Esse trabalho de convencimento, mediante essa ameaça do país, que saíra da 2ª Guerra Mundial poderoso e único, precisou de mais tempo para trabalhar os votos que constituiriam a maioria, e eis que há dois calculados adiamentos de votação, para que tudo ocorresse como ocorreu.

Essa Assembleia foi presidida pelo brasileiro ilustre, admirável e admirado, que foi Oswaldo Aranha, muito prestigiado pelos americanos e britânicos, e que, antes, em determinado momento de sua história política, fora contrário à imigração de judeus para o Brasil. Aliás, já se comentou sobre a negativa da aceitação dessa imigração dos judeus da Alemanha nazista, já em 1934, quando os norte-americanos reuniram-se, em Évian na França, com 34 nações ocidentais que votaram pela negativa dessa imigração, salvo dois países nórdicos, sendo que o Brasil não teria participado do conclave.

Portanto, em 1947, o livro não diz, havia a carga da consciência de culpa pairando no ar, depois que os exércitos aliados romperam as cercas, os muros e os fornos crematórios dos campos de concentração nazistas, com a tragédia dos milhões de seres humanos, judeus, ou com seus corpos esquálidos ou com esqueletos enterrados em covas coletivas, envergonhando a raça humana, que sempre quis acreditar que o homem não é o lobo do homem. E, mais, a campanha presidencial de Truman, que seria o presidente eleito, necessitava do apoio dos grupos financeiros judeus.

A identidade palestina, diz outro autor, não se corporificara, ainda, diante do mundo, através da inteligência criativa de homens e mulheres, como literatos, cientistas e artistas, que se esparramavam pelo mundo. Na verdade, os países árabes eram contra a divisão da palestina, e contra a criação de dois Estados: palestino e judeu. Essa indefinição deixou solta a vocação expansionistas, inicialmente, das milícias armadas sionistas e depois, até hoje, a vocação expansionista do Estado de Israel.

A criação de um Estado Palestino tornou-se com o tempo mais difícil, especialmente porque Israel conquistou território, na guerra de 1967, que não admite devolvê-lo integralmente, o que seria possível só por pressão do governo norte-americano, hipótese praticamente impossível, pois Israel representa o enclave norte-americano naquela região. Nem mesmo como mediador os Estados Unidos se apresentam confiável, em função da preferência histórica em defender as pretensões e as conquistas de Israel.

Diz o livro, repito, de 2002, “Passados dois anos da revolta, Israel permanece com o controle total de 2,1% da área da Cisjordânia, onde há instalações de 190 assentamentos judaicos e 74 postos de controle militar de outros 89,4%. Aos palestinos resta a opção de permanecerem enclausurados em inúmeros cantões, que compõem 8,5% da Cisjordânia sob controle civil e militar palestino sujeitos às frequentes incursões punitivas israelenses e restrição de movimentos. Na Faixa de Gaza, mais de um milhão de palestinos vivem enclausurados por cercas elétricas numa região de 360 quilômetros quadrados, uma das áreas mais densamente povoadas do mundo. Apesar disso, ali continuam a residir ilegalmente 5.000 colonos israelenses, em 19 assentamentos, controlando 30% do território das melhores terras”.

“Além disso, Israel controla todas as fontes de água da Cisjordânia e da faixa de Gaza, destinando à população palestina uma pequena parte do que é reservado ao consumo de seus próprios cidadãos, mantendo aldeias e cidades por dias inteiros sem água.”

Como se mede a intensidade da humilhação diária que sofre a população palestina?

A perspectiva de paz na região é cada vez mais distante, pois ali o que se plantou, desde o início, foi um padrão de violência, iniciada pelas milícias que expulsavam colonos, continuou pela guerra, e continua com esparsos levantes de indignação palestinos, que só fazem crescer o patrimônio da violência. O exemplo clássico dessa frustração é o acordo de paz, presidido pelo presidente americano Bill Clinton em 1993, que resultou na homenagem mundial pela concessão do Nobel da Paz para Yasser Arafat e Yitzhak Rabin, cujo assassinato fez seu sucessor judeu recuar dos compromissos.

E, na verdade, Israel nunca cumpriu nenhuma Resolução do Conselho de Segurança da ONU.

A canção dos Aviadores – FAB

Livorno, cidade beira-mar, é a porta da região da Toscana, na Itália.

Considera-se ela, por motivo didático, o marco inicial dessa história da 2ª Guerra Mundial. Foi nesse porto que desembarcou, no dia 6 de outubro de 1944, o 1º Grupo de Aviação de Caça, criado em 23/12/1943 pelo governo brasileiro, com o então major Nero Moura como seu comandante. Depois, ele seria Ministro da Aeronáutica de Getúlio Vargas, entre 1951/1954.

Dessa cidade portuária, o grupo de militares da Força Aérea Brasileira (FAB) seguiu de trem para Tarquinia, cidade histórica e turística, também chamada cidade de Etruscos, situada no centro da Itália, e na qual se encontrava a base aérea ocupada e comandada pelos norte-americanos.

Chegou, sob um aguaceiro só, o 1º Grupo de Aviação de Caça dos brasileiros, que substituiriam os norte-americanos.

Houve solenidade militar, cerimônia formal, discursos, para essa troca de comando e de inquilinos daquela base.

O comandado militar norte-americano perfilou seus homens, e marcharam e cantaram a canção da Força Aérea Americana, virando a primeira esquina da base, e lá se foram.

Era a vez dos brasileiros. Marchar e cantar.

A perplexidade quase ficou petrificada, pois, os brasileiros precisavam, tal como os americanos fizeram, disseram e esperavam, marchar e cantar o hino da FAB.

A ordem foi dada. O major Gibson, com voz firme, dá a ordem: “Ordinário Marche”. Mas e o hino, como cantá-lo? Na verdade, há controvérsia, entre nós, já que uns dizem que não existia tal hino, outros que a grande maioria dos aviadores não o saberia cantar. E, no impasse daqueles minutos de dúvidas angustiosas e seculares, eis que um sargento, de nome Oseas, sai da fileira, contrariando o regulamento militar, e sussurra no ouvido do major Gibson:

“Mande cantar a ‘Jardineira’, que todo mundo sabe, e os gringos não entenderiam nada.”

Sugestão aceita e o major Gibson determina:

“Pela testa, canção da ‘Jardineira’, começar”. Foi a ordem imediata e forte.

A tropa toda cantou: ô Jardineira, por que estás tão triste, mas o que foi o que te aconteceu? foi a camélia que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu…

E foi assim que a canção do carnaval de 1938 se converteu na canção dos Aviadores do Brasil, por sugestão do sargento Oseas. “…ao final do desfile das tropas, os brasileiros foram cumprimentados pelos americanos por sua ‘canção da aviação’, qualificada como ‘vibrante, melodiosa e guerreira'”.

Hoje, em solenidade militar, quando é tocada a música carnavalesca nem todos de dentro, e quase todos de fora, sabem o significado histórico dessa música, consagrada pela FAB (Força Aérea Brasileira), no campo de batalha pela democracia no mundo.

O voluntariado

O promotor aposentado Octávio Verri Filho é o responsável por coordenar a programação de Celebração do dia do Voluntariado, comemorado dia 28 de agosto.

Voluntariado é ligado ao verbo servir com gratuidade de espírito e de alma ao outro ou a muitos outros. É o dom que todos possuem, uns o tem adormecido, outros em expansão, que se materializam na sociedade como serviços e obras.

Octávio Verri pediu para divulgar a razão do dia do Voluntariado. Um esforço de conscientização para que as pessoas se descubram no que elas têm de positivo e de melhor. E se esse melhor já está desvendado que deem mais energia realizadora, pensa ele, pensamos nós.

Inicialmente, o voluntariado induz à presença individual da pessoa, mas cada um agregando-se ao outro, o outro ao outro, há uma acumulação de energia boa, que só resulta em prática de desprendimento, que beneficia muita gente.

O voluntariado seja individual, melhor que seja agregado, é o nome da humanidade na pessoa, que se movimenta para alterar o lugar do outro, passando por dentro dele, movendo as fibras de seu coração, e fazendo com que cada um se descubra irmão do outro.

O voluntariado assim, quando praticado, com aquele fervor de responsabilidade, fiada na fonte comum da vida, transparece com a suavidade e a leveza de quem descobriu na origem comum e no final de vida comum, o sentido real de viver e morrer.

O voluntariado apresenta nessa relação de doação da alma uma escola de si mesmo, pois, faz com que nos descubramos através do outro. Observando o outro, a sua deficiência física, a sua necessidade pessoal e social, a ânsia de infinito agasalhada no coração ou no espírito de qualquer ser humano, descobre-se que todos se igualam para enfrentar o caminho da vida. Caminhante, caminhemos.

Na prática do voluntariado a mão dada não se enfraquece pela retirada no outro da energia que ele tem. As mais significativas ligações de identidade dos seres humanos são invisíveis e são de troca contínua, em que ambos crescem humana e espiritualmente, apaziguando o coração e retirando de algum lugar do corpo, ou dele todo, a ânsia do sem-fim.

O voluntariado é aquela sucessão de atos, que a pessoa pratica, não esperando recompensa material ou espiritual, já que se material não existe, espiritual dispensa o querer, porque ela nasce naturalmente na gratidão do outro, mandando uma enxurrada de energia positiva.

Não é possível dissociar do voluntariado a prática da chamada filantropia, exercida por clubes de serviços, que possuem uma vertente anônima de ajuda e incentivo pessoal, quando não de ofertas e incentivos a serviços ou obras, que beneficiam comunidades inteiras.

Na experiência que retiro da relação de uma Fundação pública dedicada à ressocialização de pessoas condenadas e prisioneiras, com um clube de serviço — Rotary —, tendo por objeto cadeiras de rodas fabricadas em penitenciária, e que resultou, até, no Programa Andar, essa grata experiência sugere que se essa filantropia fosse mais ligada às políticas sociais e oficiais de redenção, ter-se-ia uma dimensão maia aproximada da justiça social.

Na verdade, voluntariado está ligado aos clubes de serviços de forma agregada, com a variação de outras vertentes fins, mas que tem sim essa vertente de desprendimento, como prática.

O dr. Octávio Verri, já premia a cultura, com a invenção de sua Plataforma, que apresenta o mosaico gigante que relaciona obras literárias (2000 livros), locais e regionais (135 cidades), que constituem verdadeiras fotografias da sociedade do tempo passado ou presente, com a impulsão ora do espírito desbravador, ora do drama pessoal ou local, e com a geografia estampando a forma da exploração da terra. Esse trabalho que é muito mais do que o do simples colecionador, faz emergir costumes, alimentação, princípios e a cultura daquele momento, um verdadeiro garimpo para pesquisadores e estudiosos, preocupados em conhecer a intimidade desse Brasil real, simplesmente desigual, simplesmente injusto.

Na intimidade desses escritos achados, eis que Verri pinça para si a necessidade de levar a todos o que descobre como a tarefa atual de estar no mundo, semeando a solidariedade, que os defensores da vitória narcisista do individualismo querem destruir, chegando à Constituição que representa a cristalização ética e jurídica desse solidarismo.

Viver com a prática da solidariedade, que está no cerne da ação do voluntariado, representa a opção por um rumo, uma razão de ser, não deixando espaço a qualquer discurso de ódio. É um ponto de avanço civilizatório. É um dizer permanente — estamos juntos.