De um Presidente e de outro Presidente – 2

Qualquer matéria sobre a CPI da covid-19 deve iniciar exaltando o equilíbrio e a prudência do Presidente Omar Aziz, que indeferiu o requerimento de prisão, secundado por quem a requerera, que foi o Relator Renan Calheiros, que tinha o dever de fazê-lo, diante da desfaçatez do ex-Secretário da Comunicação, Fábio Wajngarten, em dedicar-se deslavadamente à mentira e à contradição espantosa com sua própria versão publicada na Revista Veja e gravada em áudio. O requerimento de prisão e prerrogativa irrecusável, até para ficar clara a possibilidade do exercício desse poder pelo Presidente da Comissão, como também avisar, didática e pedagogicamente, o risco da mentira após o testemunho de falsear a verdade.

A pergunta é: por que um Chefe de Comunicação se planta como negociador do governo, em matéria sanitária? Por que ele se reunia com os servidores do mencionado laboratório e, surpreendentemente, por que Carlos Bolsonaro, vereador no Rio de Janeiro, participou da reunião?

Fabio disse que a reunião com a Pfizer foi para que ela o agradecesse por ter feito um ato só de resposta. Ora, isso se faz por e-mail. Ele disse ainda que da reunião não participara mais ninguém. Ele e os representantes do laboratório tão só. No dia seguinte, Carlos Murilo, Chefe Geral da Pfizer na América Latina, em depoimento desmente o ex-Secretário da Comunicação, incluindo o ingrediente inesperado: estava presente nessa reunião o filho do Presidente, vereador do Rio de Janeiro, que se dedica à destilaria do ódio.

De um Presidente e de outro Presidente

A Comissão Parlamentar de Inquérito da covid-19, instalada no Senado Federal do Brasil, se ocupa de capturar a verdade documental, testemunhal e indiciária da condução irresponsável do governo federal no agravamento da crise sanitária do país, cujo volume de mortes há muito está atraindo para si um conceito jurídico assombroso, que é o do genocídio.

Talvez, a incúria do governo central, que recusou por seis (6) vezes a oferta do laboratório Pfizer, tenha desenvolvido a maior frente de trabalho, que ele conseguiu incentivar, qual seja a dos coveiros, somada à próspera indústria dos caixões funerários.

Eis a imagem fúnebre, ajudada pelo Presidente Bolsonaro, da qual não se estranha sua atitude, porque o sentido de morte com ele supera o da vida, e não só pelas mãos armadas do povo, pois até como deputado, já se revelara cultivador e defensor da tortura, reverenciando o governo militar, do qual ele destaca, até como herói, seu torturador-mor. E a tortura é aquele método que apodrece o torturador e humilha o torturado, como vestibular da morte matada.

O Presidente obteve, ainda assim, o apoio de seus adeptos ou apaniguados, que seguramente não leram, ao menos, os livros didáticos de Elio Gaspari: 1. A ditadura envergonhada; 2. A ditadura escancarada; 3. A ditadura derrotada; 4. A ditadura encurralada e 5. A ditadura acabada. Para não dizer que a ignorância da verdade histórica dispõe, para se revogar, de centenas de outros livros, inclusive os volumes do Brasil, nunca mais, de Paulo Evaristo Arns. Mesmo assim, leu-se e se lê o absurdo do discurso atual, endossado por decisão do Poder Judiciário, segundo a qual a ditadura é uma etapa da democracia.

Nesse ambiente de crise político-institucional estimulado diariamente pelo Presidente da República, vive-se a tragédia da crise sanitária e diante dela a incompetência auto-reconhecida pelo próprio governo, porque só culpa os outros, sem saber de seus deveres constitucionais, até concorrentes com Estados e Municípios. Foi preciso o Supremo Tribunal dizê-lo. E tanto o Presidente abusou que os demais poderes, Legislativo e Judiciário, definiram a existência da Comissão Parlamentar de Inquérito, como direito da minoria parlamentar que o Presidente do Senado Federal postergava e o Supremo Tribunal Federal determinou que desse seguimento ao requerimento de sua instalação e o consequente funcionamento.

Ganha relevo primeiramente o testemunho, desastrado e mentiroso do ex-Secretário de Comunicação do Palácio do Planalto, Fábio Wajngarten, que semanas antes dera uma entrevista à revista Veja. Tal entrevista acabou por desacreditar de vez o ex-Secretário, que procurou contradizê-la, no entanto, o áudio da entrevista foi ouvido ali, na hora, como também foram exibidas as publicações oficiais feitas, à época, pela SECOM (Secretaria de Comunicações), que ele dirigia. Apesar disso, esse fato não pode ser considerado o auge do dia, já que isso nem coube ao pedido de prisão, em si, que foi requerida pelo Relator, e secundado por senador do Espírito Santo, professor de direito, delegado de polícia durante vinte e cinco anos que, indignado, justificava com a lei e os documentos a prisão do mentiroso que estava depondo.

Evidentemente que ele poderia sair preso, se o Presidente da Comissão decretasse. Mas o auge do dia foi alcançado pela decisão dada a esse pedido, apesar de que poderia mesmo ser decretada.

A prisão não foi decretada, conferindo-se à altiva decisão a consagração do dia: “Eu não sou carcereiro de ninguém”, dizia o Presidente da Comissão. E olhando para o depoente, prosseguia: sabe que há desdobramento dessa Comissão, que o senhor poderá ser processado, com base em recomendação do relatório final, mas mais grave do que a prisão é a perda da credibilidade que seu depoimento mentiroso lhe angariou. Qual será a consequência de sua atuação lá na escola de seus filhos?

Essa atitude do Presidente, Omar Aziz, equilibrada e prudente, carente no Brasil governamental de hoje, e que foi apoiada pelo próprio Relator, deu a densidade do respeito parlamentar, desestimulou qualquer cisão, fortaleceu sua autoridade, e se contrapôs à onda daqueles fanáticos que querem desacreditar o trabalho da Comissão, para a qual interessa a verdade, somente a verdade. Afinal, a gripezinha presidencial será um sucesso, logo chegando a quinhentos mil mortos.

Agora, estimular o bando para gritar na rua “Abaixo à verdade da Comissão, vivam nossas mentiras?”, não é suficiente para fazer o vinho tornar-se milagrosamente água.

A sabedoria do olhar

Uma vez, um jovem visitou um senhor idoso que ficava sentado na varanda de sua casa, olhando seu jardim, contíguo à rua.

Era um antigo fazendeiro que entregara, há mais de vinte anos, a administração de seu patrimônio rural aos filhos, que faziam de tudo para não o preocupar com o assunto que fosse.

A visita tendia mais ao silêncio do que ao diálogo. Era uma singela homenagem feita a um homem bom, um respeito ao velho senhor.

De repente, ele falou atiçando os filhos:

— Está faltando água lá na fazenda.

— Não, pai. Não está faltando água, não. O senhor está preocupado à toa.

— Está sim. Está faltando água lá na fazenda.

— Por que o senhor está achando isso, que faltaria água na fazenda?

A resposta surpresa veio com a voz fraca e sábia:

— Toda vez que aparece, aqui no jardim, aquele inseto, é porque falta água lá na Fazenda.

Outra lição, mais recente, foi a observação do engenheiro agrônomo, diante da capa de proteção da pequena piscina de sua residência.

A capa de cor azul que a cobria, depois de dias, revela com sua retirada a presença de algas.

A capa foi trocada por uma de cor preta, e não mais surgiram as algas.

A explicação foi simples: as plantas crescem mais com a cor azul incidindo sobre elas.

Esse diálogo da natureza consigo mesma é tão ignorado quanto se torna objeto de violência e destruição por parte de homens ignorantes e insensíveis. Aliás, essa energia sutil intercomunicativa, invisível, ocorre em profusão no complexo ecossistema da natureza.

Essa maravilhosa sutileza dimensiona a brutalidade dos destruidores das plantas, das árvores e dos animais e dos insetos, que habitam as florestas. E a floresta Amazônica aparece como paradigma na estatística da estupidez, em razão do desmatamento desenfreado e recorde e com a mineração invadindo terras indígenas e reservas florestais, ignorando que é a umidade amazônica que forma as partículas de água, que ameniza o clima do sul e do sudeste do Brasil, regando a agricultura de nosso vitorioso agronegócio, com as chuvas transportadas pelos chamados “rios voadores”. Se um homem, que frequentou o mundo rural, desde criança, foi capaz de perceber o invisível diálogo com um tipo de inseto que surge para anunciar a falta de chuva em terra distante, qual é a densidade da sabedoria indígena acumulada em milhares de anos de intimidade com a natureza?