Debater o Brasil nº 2

Para o livro lançado por Ciro Gomes, o Estado será o indutor do desenvolvimento, no qual a iniciativa privada será parceira, e a equação empresário-trabalhador estará imersa no meio acadêmico sob a égide da ciência e do conhecimento tecnológico. Preparar-se para o desaparecimento de muitos empregos sem esquecermos de que o trabalhador não desaparecerá com eles, devendo capacitá-los para outras e novas funções na sociedade, ou mesmo estruturando o ócio, com garantia de renda capaz de movimentar o comércio, o qual movimenta a produção, que por sua vez não emagrecerá mais e mais a receita da previdência social.

No exame crítico-histórico está o registro do Brasil com sua capacidade de criação e trabalho, responsável pelo crescimento de 1930 a 1980, a razão de 3,5% ao ano. Entretanto, a armadilha da dívida externa e seus juros aumentados unilateralmente desarrumou a economia, e a desindustrialização iniciou-se sob o olhar de tantos e todos governos que se sucederam. Por quê?

A crise de 1929 só foi superada pela política de investimentos públicos, do Estado como indutor, assim como na crise financeira de 2008, com o Estado salvando instituições bancárias nos Estados Unidos.

Quanto à estruturação do Estado, não o monopolizador, mas sim o indutor, o coordenador de políticas públicas, sendo que o aparecimento da Covid-19 abalou a organização social do mundo e desmoralizou a política neoliberal que celebra o chamado Estado mínimo contra o Estado de bem-estar consagrado na Constituição de 1988.

A fé repetida pelo Projeto de Desenvolvimento Nacional tem como raiz a riqueza de nossa diversidade cultural, sol, água, floresta, ausência de terremotos, uma língua única, num território de experiências inovadoras em curso, a criatividade de nosso povo, desorganizada, emergente.

E, politicamente, o livro recupera a contribuição do projeto trabalhista que fundou o Estado moderno brasileiro com Getúlio Vergas, historicamente seguido por Jango, Brizola, Darcy Ribeiro. No entanto, na redemocratização referiam-se com desprezo ao projeto trabalhista, que fizera o crescimento continuado do país. O fato de não terem assumido esse pensamento e a ação política própria, como continuidade atualizada do pensamento anterior, surge como ruptura que, inadvertidamente, serviu aos pregadores do livre-mercado, ou seja, mercado totalmente desregulamentado, tal como o produtor da crise cíclica de 2008.

Debater o Brasil, iniciando ou não esse debate pelo livro de Ciro Gomes, é uma necessidade de patriotas. O livro pode ser lido e comentado a qualquer momento da discussão. Mas é imprescindível. E sem compromisso de voto, se ele for candidato.

Debater o Brasil nº 1

A finalidade do Estado é promover a justiça social. Mas não há justiça social sem desenvolvimento e não há desenvolvimento sem soberania.

Getúlio Vargas

Gostar ou não gostar não é a questão.

Especialmente em matéria de responsabilidade político-social, que confere densidade a um sentimento renascido de nação, tão necessário nesse momento de crise político-institucional, crise econômica-social e crise sanitária. Não se pode simplesmente não querer conhecer a radiografia do Brasil real para que o Brasil se assuma como soberano.

O gostar ou não gostar não pode ser erigido em preconceito. Precisamos de um projeto para convencer a cidadania majoritária de que é absolutamente necessário um Projeto Nacional para nos redimir.

Por que o país que mais cresceu no mundo, entre 1930 a 1980, em média de 3,5% a mais que a China e outros países asiáticos, regrediu tanto?

Para responder a essa interrogação angustiante surge o livro de Ciro Gomes, com seu “Projeto de desenvolvimento: o dever da esperança” (Editora LeYa, 2020), único de autoria de um político militante que examina histórica, econômica, social e politicamente o país, apresentando as vertentes de sua ressureição, como país-nação.

Ouve-se, frequentemente, o “não gostar” do Ciro, mas a pessoa não sabe justificar esse não gostar, como se um tóxico inibisse seu senso crítico. Seguramente não é por ser ele competente e falar bem e nunca ter sido processado por nenhum malfeito na regência do interesse público, apesar de ter sido Prefeito, Deputado Estadual Governador e Ministro da Fazenda, no governo honrado de Itamar Franco. Ou, o não gostar simplesmente porque critica a esquerda e apresenta, certo ou errado, um novo caminho para ela. Mas o Brasil não pode prestigiar nenhum tipo de exclusão, muito menos no campo das ideias, donde há de surgir o projeto da consciência redentora do país.

Ele examina o Brasil de corpo inteiro, seu passado escravista e colonial, e seu olhar para o estrangeiro, tal como atualmente o projeto contrário o faz, mediante a desossada do Estado nacional.

A questão fundamental é aceitar o debate amplo, geral, irrestrito para pensar o Brasil, partindo de uma referência sugerida pela recente publicação, ou de outra, e nesse caso o livro lançado não pode ser desprezado.

A propósito, o autor diz claramente que é esse o interesse: debater larga e profundamente a nossa realidade nesse mundo globalizado do império financeiro. O autor não acredita que um só líder possa representar a salvação. Transfere a responsabilidade de realizar a implantação do Projeto Nacional de Desenvolvimento à liderança que surja de um movimento de opinião organizado, consciente, que emerja para assumir o país, com o projeto vivificado pelo sentimento do país-nação.

Beirute está em chamas outra vez

É com emoção e lágrima que se lê ou assiste à tragédia que abalou Beirute, a capital do Líbano, outra vez. A raiz desse ato é explicada ou pelo sentimento solidário praticado sempre, face à dor e à injustiça, ou decorre da confluência sanguínea que na relação conjugal gerou a célula familiar, sem cultivar preconceito quanto à religião, tão alastrado nas terras árabes e incentivado ora pela solidariedade de sempre, ora pela convergência sanguínea, ou ainda pelas duas raízes.

O deputado federal de Orlândia, cujo nome se esvai no tempo, disse durante uma viagem no trem da Companhia Paulista de Estrada de Ferro, desapropriada pelo governo Carvalho Pinto, em 1971, o porquê visitava anualmente o Líbano. Era o “Presépio do Oriente”.

Beirute era um centro financeiro fortíssimo, que a sucessão de guerras – e foram tantas! – não impediu que a sua rede bancária funcionasse, como um relógio, mesmo quando estava sendo bombardeada e destruída por Israel, em 2006, durante a guerra contra o Hezbollah, grupo mulçumano xiita que atua militar, política e socialmente no país.

Hoje, a explosão acontecida no seu porto é acrescentada ao sofrimento que há tempos a motivou, expressa no título melancólico do livro Pobre nação: as guerras do Líbano no século XX, do jornalista britânico Robert Fisk, correspondente no Oriente Médio do jornal inglês The Independent e residente em Beirute há 25 anos, quando o escreveu. Com o território muito menor (10.452 Km2) do que o do Estado de São Paulo (248.222.362 Km2), ele diz que entre exércitos e milícias, mais de trinta grupos armados se digladiavam por espaço naquele pequeno território.

Historicamente, a tranquilidade esperada e distante do Líbano ganhou um outro marco com a criação de um estado palestino e um estado judeu, na partilha da Palestina, aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU). A sessão foi presidida pelo brasileiro Oswaldo Aranha, em 1947, com a oposição dos países árabes, que não a aceitaram. A consequência foi um estado de guerra sem que houvesse a instalação imediata do estado palestino, secundada pela brutalidade da ocupação judaica que, se não comprassem terras, tinham seus ocupantes submetidos à violência armada de milícias brutais que os expulsavam. A ordem era ocupar e destruir o que poderia ficar como memória, motor de retorno saudoso. O fluxo de refugiados cresceu, cresceu muito, afetando a correlação de forças políticas e religiosas, então existentes no Líbano.

A decisão da ONU criou essa contradição. A diáspora dos judeus, que desejavam uma pátria, passou a ser a diáspora do povo palestino, que não se acomoda dignamente na Faixa de Gaza, com os escombros do Oriente Médio recebendo sempre novos destroços, como os da explosão atual de Beirute. Ela foi destruída e reconstruída sete vezes, na sua história de sete mil anos.

O clima político para a criação dos dois estados teve um motivo subliminar, um incomodo sentimento de culpa, crescido com a realidade nazista da Alemanha até a descoberta da barbárie, a qual sacrificou seis milhões de judeus com a emergência dos fornos crematórios dos campos de concentração.

Em 1938, foi realizada uma Conferência na cidade de Évian-les-Bains, coordenada pelos Estados Unidos, que reuniu trinta e dois países. O próprio Estados Unidos enfraqueceu a relevância da Conferência, mandando para representá-lo não um membro de seu governo, mas um empresário. A pauta foi o aumento da cota de imigração e a questão dos refugiados, provocada pela situação dos judeus da Alemanha nazista. No final, após seis dias, somente a República Dominicana aceitou receber mais refugiados. Essa omissão coletiva de trinta e um países participantes, inclusive os Estados Unidos, egresso da guerra como grande e poderoso, acumulou a vergonha e a culpa gravíssima pela morte horrenda e coletiva ou pela sobrevivência de milhares de corpos esquálidos, infletindo (quem sabe?) na reunião das Nações Unidas, e encurtando o tempo de debate sobre a criação dos dois estados – palestino e judeu. Talvez maior tempo fosse aconselhado. Talvez.

Essa recusa dos países em receber judeus serviu de gozação para os jornais nazistas da Alemanha. Diziam algo assim: “Eles criticam nossa política de limpeza ética, mas não os aceitam. Uma barbárie de cada lado”.

É certo que naquela época a desvantagem do povo palestino era muito grande, uma vez que sua identidade não estava ainda corporificada com à opinião pública mundial, pela presença de sua cultura, pela plêiade de seus políticos, escritores e artistas.

Nesse contexto histórico, a explosão de Beirute é mais uma tragédia dessa “pobre nação”.