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Feres Sabino

~ advogado

Feres Sabino

Arquivos Mensais: novembro 2015

O médico-cirurgião e sua honraria

19 quinta-feira nov 2015

Posted by Feres Sabino in blog

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O médico-cirurgião é o profissional cuja especialidade exige não só a perícia que a disciplina do aprendizado agrega, mas a destreza das mãos, a sensibilidade, a intuição tantas vezes, a capacidade que confronta o imprevisto de um momento crucial. Em suma, celebra a invasão do espaço sagrado do corpo humano sem a permissão da alma. Às vezes ela não perdoa, às vezes ela finge que não é com ela e deixa passar.

A medicina é uma profissão cujos valores éticos a sociedade de consumo ainda não destruiu pela força irrefreável da banalização, como em nenhuma outra profissão aliás, já que tais valores permanecem sempre à espera de alguém que os convoque.

Se o advogado trabalha a expressão da sacralidade da pessoa humana, sua dignidade, que lhe é imanente, o valor essencial de sua luta é dado pela liberdade, enquanto o médico-cirurgião avança o sinal, no sentido inverso, pois a dignidade daquele corpo vivo lhe fica à disposição para o trabalho invasor, submerso na ética.

A honraria de cirurgião emérito conferida ao médico Isac Jorge Filho pelo Colégio Brasileiro de Cirurgiões não repousa na sua inequívoca atividade na sala de cirurgia, por tanto tempo prolongado no tempo. O patrimônio ético e profissional que ele acumulou no exercício da medicina o projetou e ainda o projeta durante igual tempo na docência universitária, revelada pela sucessão de gerações que formou, o que permite a aferição correta de sua “inequívoca contribuição à cirurgia brasileira”.

Se na sala de operação prevalece quase o monólogo, o exercício da cátedra estabelece a prática dialogante do ensino competente, que enriquece quem se apresenta para ensinar e aquele que se apresenta para aprender. Essa riqueza ilustra a prática diária de quem se dedicou, e se dedica, como o faz Isac Jorge Filho.

Seu interesse médico-científico garantiu-lhe presença, como palestrante ou participante, em encontros, conferências e ciclos, quando não o tendo como seu organizador. Na bioética, que é o novo rosto da ética médica alentada pelo avanço da “biologia molecular e da biotecnologia aplicada à medicina”, com os riscos da engenharia genética e nos códigos éticos tradicionais restritos a um campo de aplicação revolucionado pela ciência e pela tecnologia, Isac Jorge Filho aplicou sua curiosidade e seu saber na captura e formulação de novas respostas para questões inovadoras e atualíssimas.

Porém, nele destaca-se outra dimensão, no cumprimento da qual ele se revelou também “inequívoco” na coerência, na transparência e na decência. Ele foi vereador, ele foi secretário do Planejamento.

E ele pode relatar, sorrindo, qual o voo que fez colado ao interesse público.

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A prisão do preconceito

04 quarta-feira nov 2015

Posted by Feres Sabino in blog

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A população carcerária do país, a quarta do mundo, é de 640 mil presos, e desse total 12% cumprem pena por homicídio doloso. E esse número só não é maior porque a policia só investiga 8% dos 56 mil homicídios que ocorrem anualmente no país, e também porque há ainda um volume grande de mandados de prisão não cumpridos. Os números estão na entrevista do sociólogo Luiz Eduardo Soares, publicada no Suplemento Semanal do jornal Valor.

Ainda existem 500 mil mandados de prisão para serem cumpridos, estimativa que não inclui todos os estados brasileiros, apesar de o Conselho Nacional de Justiça ter instituído órgão de armazenamento de dados e controle visando um planejamento mais realista.

Pairando sobre essa realidade dramática, não concorre somente falta de recursos financeiros. Mais do que essa carência, concorre o preconceito difuso na sociedade, que impede um olhar de racionalidade a esse segmento da própria sociedade que, como primeira reação, preconceituosamente, ela rejeita. Trata-se de uma dificuldade à política de reintegração do preso, que, se concebida com racionalidade eficaz, custaria menos de R$ 1.800,00 do que custa, por mês, cada um.

A consequência desse preconceito pulula no interior dos presídios, cuja maioria da população é composta sobretudo de jovens, negros e pobres. E algumas histórias provam sua existência dramática, como também destacam a violência interna do encarceramento. Como mera ilustração, há duas.

Um jovem negro, ex-ponta-esquerda do Santo André, revelou assim o drama de sua segunda prisão: “eu cometi um delito, cumpri minha pena. Sai, arrumei emprego, uma namorada, marquei casamento até. Mas o patrão soube que eu estive no Carandiru e perdi meu emprego, perdi minha namorada, cometi novo delito, e voltei para cá”.

A outra história é a do agradecimento de um preso ao chefe da fábrica de calçados da Penitenciária de Tremembé. O chefe chegou de manhã, encontrando o preso conversando com um guarda da prisão. Cumprimentou-os, declinando o nome de cada um: “Bom-dia, Antônio. Bom-dia, José!”. Dias depois, o preso procurou o chefe da fábrica, agradecendo-o, e lhe dizendo que ele salvara a sua vida. Surpreso, ele exclamou: “Eu salvei a sua vida? Como? Quando?”. A resposta veio assim: “Aquele dia de manhã, quando eu conversava com o guarda, você me cumprimentou declarando meu nome. Eu estava decidido a me enfocar com essa cordinha, mas sua saudação respeitosa fez com que eu desistisse da morte. Fazia mais de dez anos que ninguém me chamava pelo nome”.

O primeiro caso ressalta o preconceito que invade todos os escalões da sociedade, ampliado em sua intensidade pelas notícias da criminalidade que os programas televisivos, como verdadeiras fábricas de alienação, potencializam, instigando maior insegurança e maior medo, que vitimam mais seus telespectadores.

No segundo caso, se a ausência de autoestima prevalece nos crimes mais hediondos, a prisão, já no primeiro momento, retira o que individualiza a pessoa. Seus trajes e seus adereços são entregues à obediência devida à homogeneidade das regras. Depois, a convivência nas celas abarrotadas de outras tantas pessoas, algumas violentas, outras exigentes de submissão sexual. Essas são penas acessórias, que não integram a sentença judicial, mas que vigoram na intimidade daqueles espaços pequenos, como realidade nua e crua.

Nesse sistema prisional, a chamada ressocialização converte-se em conquista de heróis, que, cumprindo a pena, conseguem integrar-se à sociedade, querendo esquecer o que faz parte de sua história.

Uns conseguem conviver com o outro que se fixou dentro deles, outros não aceitam o que foram, ou se identificam, de vez e para sempre, com o que tinham sido, não suportando o outro de si mesmo.

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